BRASIL MITOLOGIA E FOLCLORE
Autor: Igidio Garra
Prólogo: Mãe da Noite nunca esquece.
Na escuridão primeira da floresta, onde as copas das árvores trançam segredos mais velhos que o próprio tempo, dizem que o vento traz vozes. Não são vozes de gente, mas murmúrios de algo maior, algo que pulsa sob a terra molhada e dança nas sombras das folhas. No coração do Brasil, onde o rio se encontra com a mata e o céu parece tocar o chão, o folclore não é só história: é um pacto vivo, selado com o sangue dos primeiros povos e a magia dos que vieram depois.
Muito antes das vilas e das estradas, antes que o homem ousasse dar nome ao que não entendia, existia a Mãe da Noite. Não era deusa, nem espírito, mas algo no meio disso tudo, uma guardiã dos mistérios que a floresta escondia. Uns chamavam ela de Iara, com seus cabelos de rio e olhos que prometiam sonhos sem fim. Outros juravam que era a Caipora, montada no seu javali, cuidando das trilhas contra os caçadores gananciosos.
Mas os mais antigos, aqueles que ainda ouviam o coração da terra, sabiam que ela não tinha nome. Ela era a própria mata, e seu poder era tão belo quanto perigoso. Dizem que ela escolhia quem protegia ou quem castigava, com um propósito que ninguém nunca entendeu. Um pescador jovem, uma curandeira de mãos calejadas, um menino perdido nas histórias dos avós.
Todos ouviam o chamado: um canto baixo, quase inaudível, que vinha das profundezas da floresta. Quem seguia nunca voltava igual. Alguns traziam bênçãos, como a visão de ervas que curavam qualquer mal. Outros voltavam com maldições, os olhos vazios e a alma marcada por visões que nenhum mortal devia ver. Agora, numa vila esquecida às margens do Rio Tocantins, o chamado ecoa de novo.
Uma moça, Anaíra, ouve o sussurro na brisa da noite, sente o peso de olhos que ninguém vê a observando. Ela cresceu ouvindo essas lendas, mas nunca deu fé nelas, até agora. A floresta a chama, e com esse chamado despertasse algo antigo, algo que não devia ser mexido.
Enquanto a vila fala baixo sobre a Mãe da Noite, Anaíra tem que escolher: fingir que não ouviu e viver na segurança da dúvida, ou entrar na mata e enfrentar o que tá esperando por ela. Porque na floresta, onde o folclore respira, toda escolha tem um preço. E a Mãe da Noite nunca esquece.
Prefácio: A Voz da Mãe da Noite
Na escuridão primeira da floresta, onde as copas das árvores trançam segredos mais velhos que o próprio tempo, dizem que o vento traz vozes. Não são vozes de gente, mas murmúrios de algo maior, algo que pulsa sob a terra molhada e dança nas sombras das folhas. No coração do Brasil, onde o rio se encontra com a mata e o céu parece tocar o chão, o folclore não é só história: é um pacto vivo, selado com o sangue dos primeiros povos e a magia dos que vieram depois.
Muito antes das vilas e das estradas, antes que o homem ousasse dar nome ao que não entendia, existia a Mãe da Noite. Não era deusa, nem espírito, mas algo no meio disso tudo, uma guardiã dos mistérios que a floresta escondia. Uns chamavam ela de Iara, com seus cabelos de rio e olhos que prometiam sonhos sem fim. Outros juravam que era a Caipora, montada no seu javali, cuidando das trilhas contra os caçadores gananciosos. Mas os mais antigos, aqueles que ainda ouviam o coração da terra, sabiam que ela não tinha nome.
Ela era a própria mata, e seu poder era tão belo quanto perigoso. Dizem que ela escolhia quem protegia ou quem castigava, com um propósito que ninguém nunca entendeu. Um pescador jovem, uma curandeira de mãos calejadas, um menino perdido nas histórias dos avós. Todos ouviam o chamado: um canto baixo, quase inaudível, que vinha das profundezas da floresta. Quem seguia nunca voltava igual. Alguns traziam bênçãos, como a visão de ervas que curavam qualquer mal.
Outros voltavam com maldições, os olhos vazios e a alma marcada por visões que nenhum mortal devia ver. Agora, numa vila esquecida às margens do Rio Tocantins, o chamado ecoa de novo. Um rapaz, Itiberê, ouve o sussurro na brisa da noite, sente o peso de olhos que ninguém vê a observando. Ele cresceu ouvindo essas lendas, mas nunca deu fé nelas, até agora.
A floresta o chama, e com esse chamado desperta algo antigo, algo que não devia ser mexido. Enquanto a vila fala baixo sobre a Mãe da Noite, Itiberê tem que escolher: fingir que não ouviu e viver na segurança da dúvida, ou entrar na mata e enfrentar o que tá esperando por ele. Porque na floresta, onde o folclore respira, toda escolha tem um preço. E a Mãe da Noite nunca esquece.
Capítulo 1: O Sussurro na Noite
A vila de Santa Luzia dormia sob um céu cravejado de estrelas, mas Itiberê não conseguia fechar os olhos. O calor abafado da noite grudava a camisa nas costas dele, e o ranger das tábuas velhas da casa parecia zombar do silêncio. Ele tava deitado na rede, na varanda, olhando pro breu da mata que cercava a vila. O Rio Tocantins, lá embaixo, murmurava baixo, como se conversasse com alguém que não tava ali. Ou talvez tava.
Itiberê era um rapaz comum, ou pelo menos era o que ele dizia pra si mesmo. Vinte e poucos anos, mãos calejadas de puxar rede de pesca, cabelo preto bagunçado e um jeito quieto que fazia os mais velhos da vila dizerem que ele pensava demais. "Tu tem a alma dos antigos", dizia dona Ayra, a benzedeira, sempre que ele passava por ela. Ele ria, sem dar muita bola. Lendas eram coisa de velho, de quem não tinha o que fazer além de contar história.
Mas naquela noite, algo tava diferente. Tudo começou com o som. Não era bem um som, na verdade. Era mais um sentimento, uma coisa que vinha de dentro, como se a brisa que soprava do mato tivesse entrado nos ossos dele. Um sussurro, baixo, quase uma canção, mas sem palavras que ele pudesse entender. Itiberê sentou na rede, o coração batendo mais rápido. "Tô ficando louco", pensou, esfregando os olhos. Mas o sussurro não parava.
Vinha da floresta, lá onde as luzes da vila não alcançavam. Ele se levantou, descalço, sentindo o chão de madeira sob os pés. A vila tava quieta, só se ouvia o latido de um cachorro ao longe e o barulho do rio. Itiberê olhou pros lados, meio esperando que alguém mais tivesse ouvido. Nada. Só ele, a noite e aquele chamado que não explicava, mas puxava ele como se tivesse amarrado uma corda no peito.
"É só o vento", ele disse pra si mesmo, mas as palavras soaram vazias. Ele conhecia o vento. Conhecia o barulho das árvores, o canto dos sapos, o zumbido dos bichos que viviam na mata. Isso era outra coisa. Era como se a floresta tivesse olhos, e esses olhos tavam cravados nele. Itiberê pegou a lanterna velha que ficava na varanda e acendeu. O facho de luz tremia na mão dele, iluminando o quintal e, mais além, a linha escura onde a mata começava.
Ele deu um passo, depois outro, até parar na beira do quintal. A trilha que levava pro mato tava ali, mal visível, coberta de folhas e sombras. Ele já tinha entrado na floresta mil vezes, pra pescar, pra catar lenha, pra caçar com os tios. Mas nunca à noite. Nunca com aquele som na cabeça. "Itiberê, tu tá louco?", ele murmurou, meio rindo, meio com medo. Mas o sussurro ficou mais forte, como se respondesse.
Era doce, quase bonito, mas tinha um peso, uma promessa de que, se ele fosse, não ia voltar o mesmo. Ele pensou nas histórias da avó, nas noites ouvindo ela falar da Mãe da Noite, da Iara que levava os homens pro fundo do rio, da Caipora que castigava quem desrespeitava a mata. "Bobagem", ele disse, mas a voz saiu fraca. Foi aí que ele viu. Lá no fundo da trilha, onde a luz da lanterna mal chegava, algo brilhou. Um par de olhos, talvez, ou só o reflexo de alguma coisa. Mas era vivo, e tava olhando pra ele. O coração dele disparou, e a lanterna quase caiu da mão.
O sussurro parou de repente, deixando um silêncio tão pesado que parecia esmagar o peito. "Itiberê!" A voz da mãe dele cortou a noite, vinda da porta da casa. "O que tu tá fazendo aí fora, menino? Tá na hora de dormir!" Ele virou rápido, o facho da lanterna dançando nas árvores. Quando olhou de volta pra trilha, o brilho tinha sumido.
O sussurro também. Só ficou o barulho do rio e o coração dele batendo alto. "Já vou, mãe", ele respondeu, a voz meio rouca. Mas enquanto voltava pra casa, com a lanterna apontada pro chão, ele sabia que não ia dormir. Não aquela noite. A floresta tinha falado com ele, e ele não podia fingir que não ouviu.
Capítulo 2: A Sombra na Vila
O sol mal tinha subido no céu quando Itiberê saiu de casa, ainda com a cabeça cheia da noite passada. O sussurro da floresta não voltou, mas a sensação de ser observado grudou nele como poeira. A vila de Santa Luzia já estava acordada, com o cheiro de café fresco e o barulho das canoas sendo preparadas no rio. Ele passou pelo terreiro, onde as galinhas ciscavam, e seguiu pro centro da vila, onde o povo se juntava pra trocar ideia e comprar peixe.
"Itiberê, tu tá com cara El que não dormiu", disse Kenai, o padeiro, enquanto entregava um pão quente pra uma freguesa. O homem tinha um sorriso largo, mas os olhos sempre pareciam enxergar mais do que ele dizia. "Tá com a alma pesada, rapaz?"
"É nada", Itiberê respondeu, forçando um meio sorriso. "Só o calor que não deixa a gente dormir direito." Mas ele sabia que Kenai não era de se enganar fácil. O padeiro cresceu ouvindo as mesmas histórias que Itiberê, e mais de uma vez já tinha falado de coisas estranhas que viu na mata quando era menino.
"Tu já ouviu o chamado, né?", Kenai perguntou, mais baixo, enquanto limpava as mãos no avental. "Não minta pra mim, que eu sei quando tu tá escondendo coisa."
Itiberê hesitou. Ele queria contar, mas as palavras pareciam travar na garganta. Como explicar aquele sussurro? Aquele brilho na trilha? Ele olhou pros lados, vendo a vila seguir seu ritmo de sempre: crianças correndo, mulheres carregando cestas, homens consertando redes. Tudo normal, tudo igual. Mas ele sentia que alguma coisa tava errada, como se a vila inteira tivesse um véu cobrindo os olhos.
"Eu ouvi... uma coisa", ele disse, por fim, quase num murmúrio. "Na mata, de noite. Um som que não era de bicho, nem de vento. E vi um brilho, como se tivesse alguém me olhando."
Kenai parou de mexer no balcão e olhou firme pra ele. "É ela, rapaz. Anaíra, a Mãe da Noite. A deusa que guarda a floresta. Tu sabe o que dizem, né? Ela não chama qualquer um. Se ela falou contigo, é porque quer alguma coisa."
Itiberê riu, nervoso, balançando a cabeça. "Tu tá parecendo a vovó com essas histórias, Kenai. Deusa? Isso é coisa de antigamente, de gente que não tinha luz elétrica e inventava lorota pra passar o tempo."
Mas Kenai não riu. Ele se aproximou, falando tão baixo que Itiberê teve que se esforçar pra ouvir. "Tu pode rir, mas eu vi ela uma vez, quando era mais novo. Não é história, Itiberê. Anaíra é real. Ela é a mata, o rio, o escuro. E se ela tá chamando, é melhor tu descobrir o que ela quer antes que ela venha te buscar."
Antes que Itiberê pudesse responder, uma voz cortou a conversa. "Itiberê! Para de encher a cabeça do Kenai com besteira e vem me ajudar!" Era Raíra, a mãe dele, gritando da barraca onde vendia ervas e remédios caseiros. Ela era uma mulher miúda, mas com uma energia que fazia todo mundo na vila respeitar. Itiberê suspirou e acenou pra Kenai, prometendo voltar depois.
Enquanto ajudava a mãe a arrumar as ervas, ele não conseguia parar de pensar nas palavras do padeiro. Anaíra. Ele já tinha ouvido o nome antes, nas histórias da avó, mas sempre achou que era só mais uma lenda. A deusa da noite, que protegia a floresta e julgava quem entrava nela. Uns diziam que ela dava bênçãos, outros que levava as almas dos que desrespeitavam a mata. Mas uma deusa? De verdade? Itiberê não sabia no que acreditar.
Mais tarde, enquanto o sol já tava alto, ele foi até a casa de Ayra, a benzedeira da vila. Se alguém sabia mais sobre essas coisas, era ela. Ayra era uma mulher velha, com a pele marcada pelo tempo e olhos que pareciam enxergar através da gente. Quando Itiberê contou o que tinha ouvido e visto, ela não pareceu surpresa.
"Tu foi escolhido, menino", ela disse, mexendo num chá de ervas que cheirava forte. "Anaíra não fala com qualquer um. Ela tá vendo algo em ti, algo que nem tu mesmo conhece. Mas toma cuidado. A Mãe da Noite não é só bondade. Ela cobra, e o preço às vezes é alto."
"Mas o que ela quer comigo?", Itiberê perguntou, sentindo um frio na barriga. "Eu sou só um pescador. Não tenho nada de especial."
Ayra sorriu, um sorriso que não acalmava nada. "Ninguém é só o que acha que é, Itiberê. A floresta sabe disso. E Anaíra, mais ainda. Se tu quer resposta, vai ter que ir atrás dela. Mas te aviso: uma vez que tu entra na mata com ela, não tem mais volta."
Quando Itiberê saiu da casa de Ayra, o sol já estava se pondo, pintando o céu de laranja e roxo. Ele olhou pra floresta, que parecia mais escura, mais viva, como se estivesse esperando. O sussurro não voltou, mas ele sentia ela. Anaíra. A deusa da noite. E, quer quisesse ou não, ele sabia que a mata tava chamando de novo.
Capítulo 3: O Chamado da Mata
O céu de Santa Luzia escurecia rápido, como se a noite estivesse ansiosa para engolir o dia. Itiberê caminhava pela trilha que levava à beira do rio, o coração batendo mais forte que o normal. As palavras de Ayra ainda ecoavam na cabeça dele, misturadas com o alerta sério de Kenai. Ele tentou se convencer de que era só imaginação, que a vila inteira vivia de histórias antigas, mas a verdade é que ele sentia a floresta de um jeito diferente agora.
Ela não era mais só um lugar de árvores e bichos. Era viva. E parecia que o estava chamando. Ele parou perto da margem, onde o rio refletia as últimas faíscas de luz do sol. A água corria calma, mas o ar parecia pesado, como se carregasse um segredo. Itiberê olhou para a mata do outro lado, densa e escura, e sentiu um arrepio. "É só mato", murmurou para si mesmo, tentando se convencer. Mas então ele viu de novo: um brilho, rápido, entre as árvores.
Não era o reflexo do rio, nem o luar que começava a aparecer. Era algo vivo, como olhos que piscavam e sumiam. "Quem está aí?" Ele gritou, mais por coragem do que por esperar resposta. O silêncio que veio depois foi pior. Nem os grilos cantavam. Ele deu um passo para trás, o pé afundando na lama fofa da margem. Foi quando ouviu o sussurro outra vez.
Não era uma voz clara, mas um som que parecia vir de todos os lados, como se a própria mata estivesse falando. Itiberê... vem... Ele congelou. O som não era humano, mas também não era de bicho. Era algo maior, algo que fazia a pele dele arrepiar e o peito apertar. Ele pensou em correr de volta para a vila, contar para a mãe, para o Kenai, para qualquer um. Mas os pés dele não obedeciam. Era como se a floresta o tivesse prendido ali, com raízes invisíveis.
"Eu não vou", ele disse, mais alto, tentando se impor. "Seja lá o que tu és, me deixa em paz!" Mas o sussurro voltou, mais forte, mais claro. Tu já estás aqui, Itiberê. Tu já és meu. Ele deu um passo para frente, quase sem querer, como se o corpo tivesse decidido por ele. A trilha que levava para dentro da mata parecia diferente agora, mais aberta, como se estivesse convidando. Ele respirou fundo, o coração disparado, e pegou a faca pequena que sempre carregava no cinto.
Não que achasse que uma faca ia ajudar contra uma deusa, mas era melhor que nada. A floresta engoliu-o assim que passou pelas primeiras árvores. O barulho do rio sumiu, e o ar ficou mais frio, mais úmido. As sombras pareciam se mexer sozinhas, dançando entre os troncos. Itiberê segurou firme a faca, tentando se lembrar das histórias da avó. Anaíra, a Mãe da Noite, era a guardiã da mata.
Dizia a lenda que ela aparecia para quem era digno, ou para quem tinha uma dívida com a floresta. Mas que dívida ele podia ter? Ele era só um pescador, um cara comum que nunca tinha feito mal para ninguém. Ele caminhou por minutos que pareceram horas, seguindo o brilho que aparecia e sumia entre as árvores. A trilha parecia mudar a cada passo, como se a mata estivesse viva, se moldando para guiá-lo. Até que chegou a uma clareira.
No centro, uma árvore enorme, mais velha que qualquer outra que ele já tinha visto, com raízes que pareciam cobras se espalhando pelo chão. E ali, na base da árvore, ele viu. Era uma mulher, ou algo que parecia uma mulher. A pele dela brilhava como se fosse feita de luar, e os olhos eram dois pontos de luz verde, como as brasas de uma fogueira que nunca apaga. Ela não falou, mas Itiberê sentiu a voz dela na cabeça, clara como o dia.
Tu vieste, Itiberê. Sabia que tu virias. "Quem és tu? O que queres comigo?" Ele tentou soar firme, mas a voz tremia. A faca na mão parecia ridícula agora.
Eu sou Anaíra. Eu sou a mata, o rio, a noite. E tu, Itiberê, tens algo que me pertence. A voz dela era como o vento, suave e ao mesmo tempo assustadora. A floresta está morrendo, menino. E tu vais ajudar a salvá-la. "Eu? Como assim? Eu não sei de nada disso!" Itiberê deu um passo para trás, mas as raízes da árvore pareceram se mexer, bloqueando o caminho. "Eu sou só um pescador!"
Tu és mais do que achas, Itiberê. Sempre foste. Anaíra se aproximou, flutuando sem tocar o chão. A vila esqueceu, mas a mata lembra. Teu sangue carrega o juramento de teus antepassados. Um juramento quebrado. Itiberê sentiu o chão sumir debaixo dos pés. Juramento? Ele nunca tinha ouvido falar de nada assim. Mas antes que pudesse perguntar, a clareira ficou escura, como se a noite tivesse caído de uma vez.
Os olhos de Anaíra brilharam mais forte, e a voz dela encheu o ar. Tu vais encontrar o Coração da Mata, Itiberê. Ou a floresta vai cobrar de ti o que foi prometido. Quando a luz voltou, ele estava sozinho na clareira. Anaíra tinha sumido, mas o peso das palavras dela ficou. O Coração da Mata. Ele não fazia ideia do que era, mas sabia que não tinha escolha. A floresta não ia deixá-lo escapar.
Capítulo 4: O Juramento Esquecido
A clareira parecia pulsar com uma vida própria, como se cada folha, cada galho, soubesse o que acabara de acontecer. Itiberê ficou parado, os olhos fixos no lugar onde Anaíra estivera momentos antes. A faca, ainda firme na mão, tremia levemente, inútil contra o que ele enfrentara. O silêncio da mata era opressivo, mas agora ele percebia os sons voltando aos poucos: o canto distante de um pássaro, o roçar das folhas ao vento, o murmúrio do rio que ele já não via.
Tudo parecia normal, mas nada era. "Que juramento é esse?" murmurou ele consigo mesmo, a voz rouca de medo e confusão. Ele nunca ouvira falar de promessas feitas à floresta, nem de dívidas de seus antepassados. Sua avó contava histórias de Anaíra, sim, mas sempre como lendas, contos para assustar crianças ou ensinar respeito pela mata. Nunca mencionara algo tão real, tão pessoal.
Ele olhou para a árvore gigantesca à sua frente, as raízes retorcidas como dedos que pareciam prontos para agarrá-lo. "O Coração da Mata..." repetiu, tentando dar sentido às palavras de Anaíra. Ele sabia que não podia ficar ali. A noite avançava, e a vila ficava a pelo menos uma hora de caminhada. Mas cada passo que dava parecia mais pesado, como se a floresta ainda o segurasse.
Ele guardou a faca no cinto e começou a voltar, seguindo a trilha que, agora, parecia menos clara, menos convidativa. A mata não o guiava mais; ela o observava. Quando chegou à margem do rio, o céu já estava cravejado de estrelas. A vila de Santa Luzia brilhava ao longe, com as luzes frágeis das lamparinas nas casas de palha. Itiberê hesitou. Contar o que vira. Quem acreditaria? Kenai, talvez, mas ele, seu jeito sério suas advertências, poderia achar que era só um delírio.
E sua mãe... ela já vivia preocupada demais com ele saindo para pescar tão cedo, tão longe. Não, ele precisava entender aquilo sozinho antes de falar com alguém. Na manhã seguinte, o sol trouxe pouca clareza. Itiberê acordou com o peso da noite anterior ainda no peito. Ele se levantou cedo, como sempre, mas, pela primeira vez, não foi direto ao rio.
Em vez disso, caminhou até a casa da avó, Dona Iracema, a única que talvez soubesse algo sobre esse tal juramento. A casa dela ficava na ponta da vila, quase engolida pela mata, com uma horta pequena e um quintal cheio de ervas que ninguém mais sabia usar. "Avó," ele chamou, batendo na porta de madeira rústica. A velha abriu a porta, os olhos cansados mas afiados, como se já soubesse que algo o perturbava. "Preciso falar contigo."
"Entra, menino," disse ela, a voz rouca mas firme. "Teu rosto tá carregado. O que foi que tu viste na mata?" Itiberê hesitou, mas contou tudo: o brilho entre as árvores, o sussurro, a clareira, Anaíra. As palavras saíam rápido, tropeçando umas nas outras, como se ele temesse que, ao parar, perdesse a coragem. Dona Iracema ouviu em silêncio, o rosto endurecendo a cada frase.
Quando ele terminou, ela se levantou, foi até uma prateleira de madeira e pegou um colar velho, feito de sementes e penas, que ele nunca a vira usar. "Eu temia que esse dia chegasse," disse ela, segurando o colar com cuidado. "Teu avô, meu marido, contava histórias que nem eu levei a sério por muito tempo. Mas ele sempre dizia que nossa família tinha um pacto com a mata. Um juramento feito há gerações, quando os primeiros de nós chegaram a Santa Luzia."
"Que juramento, avó?" Itiberê perguntou, o coração acelerando outra vez. "Por que ninguém nunca me falou disso?" "Porque esquecemos, menino. Ou quis esquecer. A mata dá, mas também cobra. Teus antepassados prometeram protegê-la, cuidar do equilíbrio. Mas o tempo passou, a vila cresceu, e começou a tomar mais do que dava. Cortamos árvores, pescamos além do que o rio aguenta, esquecemos as oferendas.
A floresta tá morrendo, Itiberê, e Anaíra tá cobrando o que foi prometido." "Mas o que é esse Coração da Mata? Como eu vou achar algo que nem sei o que é?" Ele sentia a frustração crescendo, misturada com medo. "Eu não pedi por isso!" "Ninguém pede, menino," Dona Iracema respondeu, os olhos brilhando com uma mistura de pena e determinação. "Mas a mata escolhe. E ela te escolheu. O Coração da Mata não é uma coisa que tu vais encontrar com os olhos.
É algo que tu tens que sentir. Teu avô dizia que era o espírito da floresta, a força que mantém tudo vivo. Mas onde ele tá, ou como tu vais chegar até ele, isso eu não sei." Itiberê segurou o colar que ela lhe entregou. As sementes pareciam quentes na palma da mão, como se carregassem uma energia que ele não entendia. "E se eu não conseguir? E se eu falhar?" Dona Iracema pôs a mão no ombro dele, firme. "A mata não perdoa, Itiberê.
Mas ela também não escolhe quem não pode carregar o peso. Tu és mais forte do que pensas. Sempre foste." Ele saiu da casa da avó com mais perguntas do que respostas. O colar pesava no bolso, e as palavras dela ecoavam na em sua mente no âmago a alma.
Ele não queria ser um herói, não queria carregar o peso de um juramento que nem era dele. Mas, enquanto caminhava de volta para casa, sentiu a floresta ao longe, como se ela o estivesse chamando outra vez. E, no fundo, ele sabia: não tinha como fugir.
Capítulo 5: O Peso do Convite
O sol já se punha quando Itiberê chegou à sua casa, uma construção modesta de taipa e telhas de barro, onde o cheiro de lenha queimada misturava-se ao aroma do feijão cozinhando. Sua mãe, Dona Raíra, estava na cozinha, mexendo uma panela com uma colher de pau, o rosto marcado pela preocupação que sempre carregava quando ele demorava. "Onde estiveste, menino?" perguntou ela, sem tirar os olhos do fogo. "Tu sabes que não gosto quando te demoras tanto."
"Estive com a avó," respondeu Itiberê, a voz baixa, tentando esconder o turbilhão que carregava dentro de si. Ele não queria contar a verdade, não ainda. Como explicar que a mata o chamara, que uma deusa lhe falara, que um juramento antigo agora pesava sobre seus ombros? Dona Raíra apenas balançou a cabeça, murmurando algo sobre a imprudência da juventude, e voltou ao seu trabalho.
Ele se sentou no banco tosco da sala, o colar de sementes e penas nas mãos. As palavras de Dona Iracema ecoavam como um tambor em sua mente: "A mata escolhe. E ela te escolheu." Mas por quê? Ele não era ninguém especial. Não tinha a força de Kenai, que derrubava árvores com um machado como se fossem gravetos. Não tinha a sabedoria da avó, que conhecia cada erva e cada história da vila. Ele era só Itiberê, o pescador que gostava do rio, que sonhava com uma vida simples, sem grandes ambições. E agora, a floresta queria que ele fosse algo mais, algo que ele não entendia.
Naquela noite, o sono não veio fácil. Ele se revirava na rede, o colar pendurado num prego na parede, como se o observasse. Quando finalmente fechou os olhos, sonhou com a clareira. Anaíra estava lá, mas não era a mesma. Sua forma mudava: ora mulher, ora árvore, ora uma sombra que se misturava à mata. "Tu não podes fugir, Itiberê," dizia a voz dela, agora tão clara que parecia vir de dentro dele. "O Coração da Mata está mais perto do que pensas. Mas para encontrá-lo, tu tens que te encontrar primeiro."
Ele acordou com o coração disparado, o céu ainda escuro lá fora. O canto dos galos ainda não começara, mas ele sabia que não voltaria a dormir. Vestiu-se em silêncio, pegou o colar e saiu. Não sabia para onde ia, mas seus pés o levaram de volta ao rio, à mesma margem onde tudo começara. A mata do outro lado parecia diferente sob a luz pálida da madrugada, menos ameaçadora, mas ainda carregada de segredos. Ele segurou o colar com força, sentindo as sementes quentes contra a palma da mão.
Antes de cruzar o rio, porém, ele hesitou. Lembrou-se de Nahely, o velho Pagé que vivia nos arredores da vila, numa choupana cercada de ervas e amuletos. Nahely era uma figura silenciosa, mas todos em Santa Luzia o respeitavam. Diziam que ele falava com os espíritos da mata, que conhecia segredos que nem Dona Iracema ousava tocar. Talvez ele soubesse algo sobre o Coração da Mata, sobre o juramento. Itiberê mudou o rumo e seguiu para a choupana do Pagé, o coração batendo com uma mistura de esperança e receio.
Chegando lá, encontrou Nahely sentado à porta, os olhos semicerrados, como se estivesse em comunhão com algo invisível. O velho era magro, com a pele marcada pelo sol e cabelos brancos trançados com penas. "Itiberê," disse ele, sem abrir os olhos, a voz grave e calma. "A mata já te marcou. Eu sabia que tu virias."
Itiberê engoliu em seco, surpreso. "Tu sabes do que aconteceu comigo? Da clareira? De Anaíra?"
Nahely abriu os olhos, e o brilho neles era como o da própria mata. "A Mãe da Noite não fala com muitos, menino. Se ela te escolheu, é porque teu sangue carrega o peso do juramento. Mas cuidado: a mata não pede, ela exige." Ele fez um gesto para que Itiberê se sentasse ao seu lado. "O Coração da Mata não é um objeto, nem um lugar que tu possas apontar. É a vida da floresta, o equilíbrio que foi quebrado. Teus antepassados prometeram protegê-lo, mas a vila esqueceu. Agora, a dívida recai sobre ti."
"Mas como eu salvo algo que não entendo?" perguntou Itiberê, a voz tremendo. "Eu não sei por onde começar!"
Nahely pegou um punhado de terra e deixou-a escorrer entre os dedos. "Começa ouvindo, Itiberê. A mata fala, mas tu precisas aprender a ouvir. Volta à clareira, como ela te pediu. Mas leva contigo o que é teu: tua coragem, tua verdade. E não esqueças: a floresta não perdoa os que fogem."
Itiberê sentiu um frio na espinha, mas as palavras do Pagé traziam uma estranha clareza. Ele agradeceu com um aceno e seguiu para o rio, agora com mais determinação. Cruzou a água gelada, que subia até os joelhos, e entrou na mata. A trilha parecia chamá-lo, como se soubesse que ele voltaria. Ele caminhou por horas, guiado por algo que não explicava. O colar parecia pulsar no bolso, e os brilhos entre as árvores reapareciam, agora mais sutis, como fagulhas de luz que dançavam no canto dos olhos. A mata estava viva, e ele sentia isso em cada passo: o cheiro de terra úmida, o som das folhas, o peso do ar.
Chegou a uma pequena grota, escondida entre rochas cobertas de musgo, onde a luz mal entrava. No centro, uma fonte d'água brotava do chão, cristalina, refletindo as poucas faíscas de luz que atravessavam as copas. Itiberê parou, sentindo o coração apertar. Havia algo ali, algo que fazia o ar vibrar. Ele se ajoelhou junto à fonte, e foi então que viu, no fundo da água, um brilho diferente. Não era o reflexo do sol, nem das estrelas. Era algo vivo, pulsante, como um coração batendo. Ele estendeu a mão, mas hesitou. "É isto?" perguntou, como se a mata pudesse responder. "O Coração da Mata?"
Antes que pudesse tocar a água, uma voz ecoou, não na cabeça, mas ao redor, grave e antiga como a própria floresta. "Tu encontraste o começo, Itiberê. Mas o Coração não é algo que se pega com as mãos. É algo que se carrega no peito." Ele olhou ao redor, mas não havia ninguém. Apenas a grota, a fonte, e o brilho que parecia chamá-lo.
"Eu não sei o que fazer!" gritou ele, a frustração explodindo. "Eu não pedi por isso! Eu não sou um herói!" A voz voltou, calma, mas firme. "Ninguém se torna herói por querer, Itiberê. Torna-se por necessidade. A mata precisa de ti. E tu precisas dela."
Ele caiu de joelhos, as mãos tremendo. O colar escorregou do bolso e tocou a água, e, por um instante, a grota inteira pareceu brilhar. Ele viu flashes de imagens que não entendia: rostos antigos, rituais sob a luz da lua, promessas feitas ao pé de árvores como a que encontrara na clareira. E então, uma última frase, clara como o dia: "Volta à vila, Itiberê. O caminho começa com os teus."
Quando abriu os olhos, estava sozinho outra vez. O brilho na água havia sumido, mas o colar parecia mais pesado, como se carregasse algo novo. Ele se levantou, o peito apertado, mas com uma certeza que não tinha antes. A mata não o deixaria fugir, mas talvez, só talvez, ele pudesse aprender a carregar aquele peso.
Capítulo 6: Os Primeiros Passos
Itiberê voltou à vila com o sol já alto, os pés pesados de lama e o coração carregado de um propósito que ele ainda não compreendia por inteiro. O colar, agora guardado no bolso, parecia pulsar com uma energia que o fazia estremecer a cada passo. As palavras da mata ecoavam em sua mente, claras como o som da fonte na grota: "Volta à vila, Itiberê. O caminho começa com os teus." Quem eram "os teus"? Sua família? A vila inteira? Ou algo mais antigo, algo que ele ainda precisava descobrir?
A vila de Santa Luzia estava desperta, o movimento habitual da manhã enchendo o ar com o cheiro de pão assando e o som de vozes que se misturavam ao canto dos galos. Ele passou pela praça, onde crianças corriam e os mais velhos conversavam sob a sombra do jatobá. Tudo parecia normal, mas para Itiberê era como se ele visse a vila com novos olhos. Cada casa, cada rosto, parecia carregar um pedaço do juramento que Anaíra mencionara, como se a própria terra sob seus pés soubesse do peso que ele agora carregava.
Ele decidiu procurar Kenai. Se havia alguém na vila que poderia entender, ou pelo menos ouvir sem julgá-lo, era o amigo de infância, com seu jeito sério e sua ligação com as histórias da floresta. Encontrou-o na margem do rio, consertando uma rede de pesca com a paciência de quem conhece cada nó como a si mesmo. "Kenai," chamou Itiberê, hesitante, "preciso falar contigo."
Kenai ergueu os olhos, o rosto bronzeado franzindo-se de leve. "Tu tens cara de quem viu assombração, Itiberê. O que foi?" Ele largou a rede e se levantou, limpando as mãos na calça de linho.
Itiberê respirou fundo e contou tudo, desde o encontro com Anaíra na clareira até a visão na grota. Falou do colar, do juramento, do Coração da Mata. As palavras saíam com dificuldade, como se ele temesse que, ao dizê-las, tornassem tudo ainda mais real. Kenai ouviu em silêncio, os olhos fixos no amigo, sem interromper. Quando Itiberê terminou, o silêncio entre eles durou o tempo de algumas batidas do coração.
"Tu acreditas em mim?" perguntou Itiberê, quase temendo a resposta.
Kenai coçou a barba rala, pensativo. "Eu acredito que a mata fala, Itiberê. Sempre acreditei. Minha avó dizia que ela escolhe quem deve ouvir. Mas isso que tu contas... é maior do que qualquer história que já ouvi. Um juramento? O Coração da Mata? Isso não é coisa que se resolve sozinho."
"Mas o que eu faço?" Itiberê sentia a frustração crescer de novo. "A mata diz que o caminho começa com 'os meus', mas eu não sei quem são! Minha avó falou de antepassados, mas ela mesma não sabe onde está esse Coração. E se eu falhar, Kenai? E se a floresta cobrar de mim o que eu não posso dar?"
Kenai pôs a mão no ombro do amigo, firme como uma âncora. "Tu não estás sozinho, Itiberê. Se a mata te escolheu, ela também vai te guiar. Mas acho que 'os teus' não é só tua família. A vila inteira vive da floresta. Talvez o juramento seja de todos nós, e tu és só o primeiro a ouvir o convite."
Itiberê olhou para o rio, as águas calmas refletindo o céu azul. As palavras de Kenai faziam sentido, mas também o assustavam. Envolver a vila? Como ele poderia convencer pessoas que viviam de cortar árvores e pescar no rio a acreditar numa deusa que falava na sua cabeça? Ele pensou em Dona , sua mãe, que sempre dizia que "a mata dá, mas também toma". Pensou nos mais velhos, como Dona Iracema, que guardavam as histórias. E pensou em Ayra, a menina que parecia saber mais do que dizia, com seus olhos que pareciam enxergar além.
"Tu achas que eu devo contar pros outros?" perguntou ele, hesitante.
Kenai balançou a cabeça. "Não todos. Não ainda. A vila é cheia de desconfiados, e tem gente que vai achar que tu perdeste o juízo. Começa com quem confia em ti. Tua mãe, talvez. E a Ayra. Ela sempre tá falando coisas estranhas sobre a mata, como se soubesse de algo. Quem sabe ela tem alguma pista?"
Itiberê assentiu, embora a ideia de falar com Ayra o deixasse inquieto. Ela era jovem, mas tinha um jeito de falar que fazia os mais velhos pararem para ouvir. E, desde o dia em que o alertara sobre a floresta, ele sentia que ela sabia mais do que deixava transparecer.
Naquela tarde, ele encontrou Ayra perto da igrejinha da vila, sentada numa pedra, trançando uma pulseira de cipós. "Ayra," chamou ele, tentando soar firme, "preciso da tua ajuda."
Ela ergueu os olhos, um sorriso leve nos lábios, como se já esperasse por ele. "A mata te chamou, não foi?" disse ela, sem rodeios. "Eu vi nos teus olhos aquele dia no rio. Tu não és mais o mesmo, Itiberê."
Ele ficou sem palavras por um instante, surpreso com a certeza dela. "Como tu sabes disso?" perguntou finalmente, sentando-se ao lado dela.
"A mata fala comigo também," respondeu Ayra, os dedos ainda trabalhando no cipó. "Não como contigo, talvez. Não com visões ou vozes claras. Mas eu sinto ela. Sempre senti. E ela tá inquieta, Itiberê. Tá morrendo. E tu és o único que pode mudar isso."
"Mas como?" Ele sentia o desespero crescer. "Eu não sei onde tá esse Coração da Mata! Não sei o que fazer!"
Ayra parou de trançar e olhou para ele, os olhos brilhando com uma intensidade que o fez estremecer. "O Coração não é um lugar, Itiberê. É um equilíbrio. Algo que a vila quebrou, há muito tempo. Tu vais precisar reunir os teus, como a mata disse. Mas antes, tu precisas entender o que foi prometido. E pra isso, tu vais ter que voltar à clareira. Sozinho."
Itiberê sentiu um frio na espinha. Voltar à clareira? Enfrentar Anaíra de novo? Mas o olhar de Ayra era firme, e ele sabia que ela estava certa. A mata não ia esperar para sempre. Ele pegou o colar no bolso, sentindo seu peso, e assentiu. "Eu vou," disse, a voz mais firme do que ele esperava. "Mas, se eu voltar, tu vais me ajudar?"
Ayra sorriu, um sorriso que era ao mesmo tempo gentil e misterioso. "Eu sempre estive aqui, Itiberê. A mata não escolhe só um."
Naquela noite, ele se preparou para voltar à floresta. Pegou a faca, o colar, e uma pequena trouxa com pão e água. Enquanto a vila dormia, ele cruzou o rio mais uma vez, o coração batendo forte, mas agora com um propósito. A mata o esperava, e ele sabia que, dessa vez, não podia hesitar.
Capítulo 7: O Chamado dos Teús
Itiberê emergiu da mata com o corpo exausto, mas o espírito aceso por uma determinação que ele mal reconhecia como sua. O colar, agora pendurado em seu pescoço, parecia vibrar contra a pele, como se a própria floresta o acompanhasse. As palavras da grota ainda ressoavam em sua mente: "O caminho começa com os teus." Ele sabia que não podia mais carregar aquele fardo sozinho. A mata exigia mais do que ele; exigia a vila, as pessoas que, mesmo sem saber, estavam ligadas ao mesmo juramento quebrado.
O sol já se inclinava para o poente quando ele chegou a Santa Luzia. A vila parecia estranhamente quieta, como se pressentisse a mudança que se aproximava. Itiberê caminhou direto para a casa de Dona Raíra, sua mãe, sabendo que ela seria a primeira a ouvir. Ele precisava de sua força, de sua fé, para começar o que quer que viesse a seguir. Ao entrar, encontrou-a sentada à mesa, remendando uma rede de pesca à luz de uma lamparina. O rosto dela, marcado pelo tempo e pela preocupação, ergueu-se ao vê-lo.
"Itiberê, que cara é essa?" perguntou Dona Raíra, largando a agulha. "Tu pareces que viste o próprio diabo." "Não o diabo, mãe," disse ele, sentando-se ao lado dela. "Mas algo maior. Eu... eu vi Anaíra. A Mãe da Noite. Ela falou comigo." As palavras saíram pesadas, e ele contou tudo: a clareira, a grota, o colar, o juramento, as palavras de Nahely, o Pagé. Dona Raíra ouviu em silêncio, os olhos arregalados, as mãos apertando o pano da rede como se buscassem âncora.
Quando ele terminou, ela ficou quieta por um longo momento. "Teu avô falava dessas coisas," disse finalmente, a voz baixa, quase um sussurro. "Eu achava que eram histórias de velho, contos pra assustar. Mas ele sempre dizia que nossa família tinha um dever com a mata. Eu nunca quis acreditar, Itiberê. Mas agora... agora vejo que tu foste escolhido."
"Eu não quero ser escolhido, mãe," confessou ele, a voz embargada. "Mas a mata não me dá escolha. Ela diz que o Coração da Mata é o equilíbrio, e que a vila precisa ajudar. Eu não sei como, mas Nahely disse que devo começar com os meus. E tu és a primeira."
Dona Raíra pôs a mão no rosto do filho, os olhos brilhando com lágrimas contidas. "Se a mata te chama, meu filho, nós não podemos virar as costas. Mas tu não vais fazer isso sozinho. Vamos falar com os outros. Com Kenai, com Ayra, e com Nahely. Eles vão saber o que fazer."
Itiberê assentiu, sentindo um alívio tímido. Ele não estava sozinho, afinal. Naquela noite, sob a luz da lua cheia que banhava a vila, ele, Dona Raíra, Kenai, Ayra e Nahely reuniram-se na choupana do Pagé. A pequena casa cheirava a ervas queimadas, e o ar estava carregado de uma energia que fazia a pele de Itiberê arrepiar. Nahely, sentado em um banco de madeira, segurava um bastão entalhado com símbolos que Itiberê não reconhecia.
"A mata está inquieta," começou Nahely, a voz grave ecoando na choupana. "O juramento foi quebrado há gerações, quando a vila começou a tomar mais do que dava. A floresta não perdoa, mas também não abandona. Itiberê foi escolhido porque seu sangue carrega a memória do pacto. Mas ele não pode restaurar o equilíbrio sozinho. Vós, que estais aqui, sois os primeiros a ouvir o convite. A vila inteira precisa lembrar."
Ayra, que até então ouvia em silêncio, falou com sua voz clara e firme. "Eu sempre soube que a mata pedia algo de nós. Vejo nos pássaros que já não cantam como antes, no rio que corre mais fraco. Mas como convencemos os outros? A vila não acredita mais nas velhas histórias."
Nahely sorriu, um sorriso sábio e cansado. "Não é com palavras que se convence, menina. É com atos. Itiberê, tu deves mostrar à vila o que viste. Leva-os à grota, deixa que sintam o que tu sentiste. A mata falará com eles, como falou contigo."
Kenai, que estava de pé, cruzou os braços, pensativo. "Mas e se eles não acreditarem? A maioria acha que isso é coisa de louco. E tem os que cortam a mata sem pensar, que pescam até esgotar o rio. Como mudar isso?"
"A mudança começa com os poucos," respondeu Nahely. "Vós sois os primeiros. Mostrai o caminho, e os outros seguirão. Mas cuidado: a mata está fraca, e há forças que não querem que o equilíbrio volte. Forças que vivem na sombra, que se alimentam do esquecimento."
Itiberê sentiu um arrepio. "Que forças são essas?" perguntou, a mão instintivamente tocando o colar.
Nahely olhou para ele, os olhos brilhando como brasas. "Nem tudo na mata é luz, menino. Há espíritos que se voltaram contra o equilíbrio, que querem a destruição. Eles vão tentar te parar. Mas o Coração da Mata é mais forte, se tu souberes onde procurar."
Dona Raíra, que até então ouvia em silêncio, levantou-se. "Meu filho não vai enfrentar isso sozinho. Eu vou com ele. E quem mais quiser vir, que venha. A mata deu muito pra nós, e agora é hora de devolver."
Ayra assentiu, os olhos brilhando com determinação. "Eu vou também. A mata me falou, e eu não vou ignorar."
Kenai suspirou, mas um sorriso leve surgiu em seu rosto. "Se é pra salvar a floresta, eu não fico pra trás. Mas, Itiberê, tu vais ter que liderar. A mata escolheu a ti, não a mim."
Itiberê olhou para eles, o peito apertado, mas agora com uma força que não sentia antes. "Eu não sei se sou capaz," confessou. "Mas vou tentar. Pela mata, por vós, por mim."
Nahely levantou o bastão, apontando para a porta. "Então, ide. Amanhã, ao nascer do sol, levai a vila à grota. Mostrai-lhes o que a mata guarda. E lembrai-vos: o Coração da Mata não é só um lugar. É o que vós sois, juntos."
Quando saíram da choupana, a lua iluminava o caminho, e a floresta ao longe parecia esperar, silenciosa, mas atenta. Itiberê segurou o colar, sentindo seu peso, e olhou para os rostos ao seu lado: Dona Raíra, Kenai, Ayra. Eles eram os teus, os primeiros. E, pela primeira vez, ele sentiu que talvez pudesse carregar o fardo que a mata lhe dera.
Capítulo 8: A Voz da Vila
O amanhecer trouxe uma brisa fresca que parecia carregar o aroma da mata até o coração de Santa Luzia. Itiberê acordou antes do sol, o colar quente contra o peito, como se a floresta o lembrasse do que estava por vir. Ele sabia que o dia seria decisivo: convencer a vila a seguir até a grota não seria tarefa fácil. Muitos viam as histórias de Anaíra como lendas antigas, contos para crianças ou velhos supersticiosos.
Mas as palavras de Nahely ecoavam em sua mente: "Mostrai-lhes o que a mata guarda." Ele precisava tentar. Na praça central, sob o jatobá que servia de ponto de encontro, Itiberê reuniu-se com Dona Raíra, Kenai e Ayra. Nahely, com seu bastão entalhado, também estava lá, o olhar firme como se já soubesse o que o dia traria. A vila começava a despertar, e os primeiros olhares curiosos já se voltavam para o pequeno grupo.
Itiberê respirou fundo, sentindo o peso de todos aqueles olhos. "Vamos chamar o povo," disse, a voz mais firme do que esperava. "Eles precisam ouvir." Dona Raíra tomou a frente, batendo palmas para chamar atenção. "Gente de Santa Luzia!" exclamou, sua voz ecoando pela praça. "Vinde cá, ouvi o que meu filho tem a dizer! É sobre a mata, sobre nosso futuro!" Aos poucos, homens, mulheres e crianças se aproximaram, murmúrios de curiosidade e desconfiança no ar.
Itiberê subiu num banco de madeira, o colar brilhando à luz do sol nascente. "Vós todos conheceis as histórias da mata," começou, tentando controlar o tremor na voz. "As histórias de Anaíra, a Mãe da Noite. Eu sei que muitos acham que é só lenda, mas eu vi. Eu ouvi. Ela falou comigo." Ele contou tudo: o brilho na floresta, a clareira, a grota, o juramento quebrado.
Falou do Coração da Mata, da dívida que a vila carregava, das palavras de Nahely sobre o equilíbrio que precisava ser restaurado. Os rostos à sua frente eram uma mistura de espanto, dúvida e medo. Seu Zé, o lenhador mais velho da vila, cruzou os braços, o cenho franzido. "Tu queres que a gente acredite que uma deusa tá falando contigo, menino? E que a mata vai nos castigar por cortar umas árvores?" Sua voz era áspera, e alguns assentiram, murmurando em apoio.
Antes que Itiberê pudesse responder, Nahely ergueu o bastão, silenciando a multidão. "A mata não castiga por capricho, Zé," disse o Pagé, a voz grave como o trovão. "Ela cobra o que foi prometido. Olhai ao redor: o rio tá mais fraco, os peixes são menos, os pássaros já não cantam como antes. A floresta tá morrendo, e vós sabeis disso. Itiberê não inventa. Ele carrega o que vós esquecestes."
Ayra deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma intensidade que fez até os mais céticos hesitarem. "Eu também sinto a mata," disse ela. "Não como Itiberê, mas sinto. E vós também sentis, mesmo que não queirais admitir. Quantas vezes vós já ouviram um som que não explicam? Quantas vezes sentiram um arrepio sem motivo? A mata tá pedindo ajuda, e Itiberê é o primeiro a ouvir."
Kenai, com seu jeito prático, acrescentou: "Ninguém tá pedindo pra vós acreditarem cegamente. Mas vinde conosco. Ide à grota, vede com vossos próprios olhos. Se a mata não falar convosco, então podeis chamar Itiberê de louco. Mas e se ela falar?"
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não vazio. Itiberê viu olhares trocados, cabeças balançando em dúvida, mas também viu curiosidade em alguns rostos. Dona Lúcia, a padeira, foi a primeira a falar. "Eu vou," disse, enxugando as mãos no avental. "Minha mãe contava histórias de Anaíra. Se há verdade nisso, quero ver."
Outros se juntaram, hesitantes, mas movidos pela coragem de Dona Lúcia. Não era a vila inteira, mas era o suficiente: umas vinte pessoas, entre jovens e velhos, decidiram seguir. Itiberê sentiu o coração apertar, mas também uma faísca de esperança. Com Dona Raíra, Kenai, Ayra e Nahely ao seu lado, ele liderou o grupo em direção ao rio, cruzando a água fria até a trilha que levava à grota.
A caminhada foi silenciosa, como se todos temessem quebrar o encanto da mata. Itiberê sentia o colar pulsar, e os brilhos entre as árvores reapareciam, mais nítidos agora, como se guiassem o caminho. Quando chegaram à grota, o sol filtrava-se pelas copas, iluminando a fonte cristalina. O ar parecia vibrar, e até os mais desconfiados pararam, sentindo algo que não explicavam.
Nahely ergueu as mãos, os olhos fechados. "Mata, Mãe da Noite, mostrai-vos aos vossos filhos," murmurou. Por um instante, nada aconteceu. Então, a água da fonte brilhou, um pulsar suave que fez todos recuarem. Um sussurro percorreu o ar, não uma voz clara, mas um som que parecia vir de dentro de cada um. Itiberê... vós... o equilíbrio...
Dona Lúcia caiu de joelhos, os olhos cheios de lágrimas. "É verdade," sussurrou. "Eu senti. Ela tá aqui." Outros murmuraram, alguns assustados, outros maravilhados. Seu Zé, o lenhador, ficou em silêncio, o rosto pálido, a arrogância de antes substituída por um respeito relutante.
Itiberê olhou para Nahely, que assentiu. "A mata falou," disse o Pagé. "Mas o trabalho só começou. O Coração da Mata é o equilíbrio, e vós todos sois parte dele. A vila precisa mudar. Menos corte, menos pesca desenfreada. Precisamos dar à mata o que ela nos deu." Ayra tocou o ombro de Itiberê, um sorriso leve nos lábios. "Tu fizeste eles ouvirem, Itiberê. Agora, a vila tá contigo."
Mas, enquanto o grupo voltava à vila, Itiberê sentiu um arrepio diferente. Entre as árvores, um brilho escuro, diferente dos outros, piscou e sumiu. As palavras de Nahely voltaram à sua mente: "Há forças que não querem que o equilíbrio volte." Ele segurou o colar com força, sabendo que o caminho à frente seria ainda mais perigoso. A mata falara, mas algo, ou alguém, estava ouvindo também.
Capítulo 9: As Sombras da Mata
O crepúsculo envolvia Santa Luzia em tons de cinza e laranja, como se a própria mata lançasse um véu sobre a vila. Itiberê caminhava à frente do grupo que voltava da grota, o coração ainda acelerado pelo que haviam testemunhado. A fonte brilhara, a mata falara, e até os mais céticos, como Seu Zé, pareciam abalados. Mas o brilho escuro que ele vira entre as árvores, fugaz e frio, não saía de sua mente. Era diferente dos sinais de Anaíra, como se algo maligno o observasse, esperando o momento certo.
Na praça, os moradores se reuniram novamente, agora com mais vozes se juntando ao murmúrio. Dona Lúcia contava a todos que quisessem ouvir sobre o pulsar da fonte, sua voz trêmula de reverência. Ayra permanecia ao lado de Itiberê, os olhos atentos, como se também sentisse algo além do que fora dito. Kenai, prático como sempre, organizava os que se ofereciam para ajudar, falando de replantar árvores e reduzir a pesca. Dona Raíra, com sua força silenciosa, apoiava o filho com olhares de orgulho e preocupação.
Nahely, porém, mantinha-se à parte, o bastão entalhado firme na mão, os olhos fixos na mata ao longe. "Itiberê," chamou o Pagé, a voz baixa, mas carregada de urgência. "Vem comigo. Há algo que precisas saber antes que a noite caia." Itiberê seguiu-o até a choupana, longe dos ouvidos da vila. O ar dentro da casa estava pesado, impregnado com o cheiro de ervas e fumaça. Nahely fechou a porta e acendeu um pequeno braseiro, onde jogou folhas que crepitaram, liberando um aroma agridoce.
"A mata falou convosco," começou o Pagé, os olhos brilhando à luz do fogo. "Mas nem tudo na floresta deseja o equilíbrio. Há sombras, Itiberê, espíritos que se corromperam quando o juramento foi quebrado. Eles se alimentam da ganância, do esquecimento, do sangue que a vila derramou na mata sem devolver nada. O brilho escuro que viste... era um deles." Itiberê sentiu um frio na espinha, a mão apertando o colar. "O que são essas sombras? E por que me seguem?" perguntou, a voz tremendo apesar de tentar soar firme.
Nahely pegou uma pequena bolsa de couro e tirou dela um punhado de cinzas misturadas com sementes negras. "São os Esquecidos," respondeu. "Espíritos que já foram parte da mata, mas se voltaram contra ela. Quando teus antepassados quebraram o juramento, alguns espíritos menores se rebelaram contra Anaíra. Eles querem a destruição da floresta, pois nela veem apenas a dor do abandono. E tu, Itiberê, és uma ameaça a eles, porque carregas o convite da Mãe da Noite."
"Mas o que eles podem fazer?" perguntou ele, o medo crescendo. "E como eu luto contra algo que nem vejo direito?"
Nahely espalhou as cinzas no chão, traçando um símbolo que parecia pulsar com uma luz fraca. "Os Esquecidos não têm forma como Anaíra. Eles sussurram, enganam, plantam dúvida. Podem aparecer como visões, como vozes, até como pessoas que conheces. Mas o colar que carregas, feito com as sementes da árvore-mãe, te protege. E a vila, se unida, pode ser mais forte que eles."
Itiberê olhou para o símbolo no chão, sentindo o peso do que Nahely dizia. "Então, a vila precisa saber disso também? Preciso contar sobre essas... sombras?"
O Pagé balançou a cabeça. "Ainda não. A vila está começando a acreditar, mas o medo pode quebrar o que acabaste de construir. Primeiro, fortalece o laço com os teus. Mostra-lhes que o equilíbrio é possível. Quando a mata estiver mais forte, os Esquecidos perderão poder. Mas cuidado: eles já sabem de ti, e vão tentar te parar."
Naquela noite, Itiberê não conseguiu dormir. Ele ficou na varanda da casa de Dona Raíra, olhando para a mata que parecia mais escura sob a luz da lua minguante. O colar estava quente, quase ardente, como se tentasse avisá-lo de algo. Ele pensou em Ayra, em Kenai, em sua mãe, em Nahely. Eles eram sua força, mas também sua responsabilidade. E se os Esquecidos tentassem atingi-los para chegar até ele?
No dia seguinte, a vila começou a mudar. Sob a orientação de Kenai, alguns homens replantaram mudas de árvores na encosta do rio, enquanto Dona Lúcia e outras mulheres organizavam oferendas de frutas e flores para a mata, como se fazia nos tempos antigos. Ayra ensinava as crianças a reconhecerem as ervas que curavam, contando histórias de Anaíra para que a nova geração não esquecesse. Itiberê sentia orgulho, mas também uma inquietação. Cada passo que davam parecia provocar a mata, como se ela testasse sua determinação.
Foi ao entardecer, enquanto ajudava a plantar uma muda de jatobá, que ele viu de novo. Um brilho escuro, rápido, entre as árvores. Mas, dessa vez, ele ouviu algo: um sussurro, frio e cortante, que não era de Anaíra. "Tu não és suficiente, Itiberê. A mata vai cair, e tu cairás com ela." Ele congelou, a enxada caindo das mãos. Ayra, que estava por perto, correu até ele.
"O que foi?" perguntou ela, o rosto alarmado. "Tu viste algo, não foi?"
Ele hesitou, lembrando o conselho de Nahely. "Só... um pressentimento," mentiu, não querendo assustá-la. Mas os olhos de Ayra eram perspicazes, e ela segurou o braço dele.
"Não minta pra mim, Itiberê. A mata tá falando, mas nem tudo que fala é amigo. Conta-me o que viste."
Ele respirou fundo, cedendo. "Um brilho escuro. E uma voz. Disse que eu não sou suficiente, que a mata vai cair." Ayra franziu o cenho, mas não pareceu surpresa. "Os Esquecidos," murmurou. "Nahely me falou deles uma vez. Eles tentam enfraquecer quem a mata escolhe. Mas tu és mais forte que eles, Itiberê. Acredita nisso."
Ele quis acreditar, mas a dúvida já se infiltrava, como veneno. Naquela noite, reuniu-se com Ayra e Nahely em segredo, longe dos olhos da vila. "Eles falaram comigo," confessou. "Os Esquecidos. Como eu luto contra algo que não vejo?"
Nahely entregou-lhe um pequeno amuleto de madeira, entalhado com o mesmo símbolo das cinzas. "Carrega isto contigo," disse o Pagé. "E lembra-te: a força do Coração da Mata vem da união. Os Esquecidos são fortes na solidão, mas fracos contra muitos. Volta à clareira, Itiberê. Enfrenta-os com os teus ao teu lado.
Capítulo 10: O Enfrentamento na Clareira
A noite caíra sobre Santa Luzia como um manto pesado, e a mata parecia mais silenciosa do que o habitual, como se aguardasse o próximo movimento de Itiberê. Ele segurava o amuleto de madeira que Nahely lhe dera, os dedos traçando os entalhes que pulsavam com uma energia sutil. As palavras do Pagé ecoavam em sua mente: "Os Esquecidos são fortes na solidão, mas fracos contra muitos." Ele sabia que não podia enfrentar as sombras sozinho, e a clareira, onde tudo começara, chamava-o mais uma vez.
Mas, dessa vez, ele levaria consigo aqueles que a mata também tocara: Nahely e Ayra. Itiberê encontrou o Pagé na sua choupana, preparando um feixe de ervas secas e um pequeno pote de cinzas misturadas com sementes. Nahely ergueu os olhos, o rosto marcado pela determinação. "Estás pronto, menino?" perguntou, a voz grave como o murmúrio do rio. "A clareira é onde a verdade se revela, mas também onde as sombras são mais fortes. Tu precisas de nós, e nós de ti."
"Eu não sei se sou forte o bastante," confessou Itiberê, o colar quente contra o peito. "Mas não posso fugir. A mata não deixa."
Nahely assentiu, pondo a mão no ombro dele. "A força não vem só de ti, Itiberê. Vem da união. Ayra já está a caminho. Ela sente a mata como poucos, e juntos, vós sereis o equilíbrio que a floresta busca."
Ayra chegou momentos depois, os cabelos trançados com cipós e os olhos brilhando com uma certeza que dava coragem a Itiberê. "Eu sabia que tu voltarias à clareira," disse ela, segurando um pequeno cesto com flores e ervas. "A mata me falou em sonhos. Ela quer que a gente enfrente o que tá escondido."
Os três partiram ao amanhecer, quando a vila ainda dormia. Itiberê liderava, com o colar e o amuleto como guias, enquanto Nahely carregava seu bastão entalhado e Ayra segurava o cesto, murmurando cânticos antigos que pareciam acalmar a floresta. A trilha até a clareira era familiar, mas o ar estava mais pesado, como se a mata soubesse do confronto que se aproximava. Os brilhos claros que antes guiavam Itiberê agora se misturavam a sombras escuras, que piscavam e sumiam entre os troncos.
Quando chegaram à clareira, a árvore-mãe se erguia imponente, suas raízes como serpentes que pareciam pulsar com vida. O ar estava frio, e um silêncio opressivo tomou conta do lugar. Nahely ergueu o bastão, traçando um círculo no chão com as cinzas do pote. "Este é um lugar sagrado," disse ele. "Aqui, Anaíra é mais forte, mas os Esquecidos também. Fiquem juntos, e não deixem que a dúvida vos separe."
Ayra espalhou as flores e ervas dentro do círculo, murmurando: "Mãe da Noite, guia-nos. Mostra-nos o caminho do Coração." Itiberê segurava o amuleto com força, sentindo o colar vibrar. Ele olhou para a árvore, esperando o brilho de Anaíra, mas o que veio foi diferente. Um vento frio soprou, e as sombras entre as árvores se moveram, tomando forma.
Eram figuras indistintas, com olhos que brilhavam como brasas negras. "Tu não és suficiente, Itiberê," sussurraram, as vozes se misturando como um coro de vento. "A mata vai cair, e vós todos com ela." Itiberê sentiu o peito apertar, a dúvida voltando como uma onda. Mas Ayra segurou sua mão, firme, e Nahely ergueu o bastão, a voz cortando o ar.
"Esquecidos, vós não tendes poder aqui!" gritou o Pagé. "A mata escolheu, e nós somos seus guardiões!" Ele jogou um punhado de cinzas no ar, e as sombras recuaram, sibilando como serpentes. Ayra puxou Itiberê para o centro do círculo, onde as flores brilhavam com uma luz suave. "Não ouças eles," disse ela. "Eles mentem. A mata tá contigo, Itiberê. Sente ela."
Ele fechou os olhos, tentando ignorar as vozes que sussurravam seu fracasso. O colar parecia queimar, e o amuleto vibrava em sua mão. Ele sentiu, então, uma presença maior, como se Anaíra estivesse ali, não como uma figura, mas como a própria floresta. "Vós sois o Coração," disse uma voz em sua mente, clara e quente. "Tu, Ayra, Nahely, a vila. O equilíbrio vive em vós."
Itiberê abriu os olhos, e a clareira estava diferente. A luz do sol atravessava as copas, e as sombras dos Esquecidos se dissipavam como fumaça. Mas uma delas, maior e mais densa, permaneceu, pairando perto da árvore-mãe. "Não acaba assim," sibilou, a voz como um trovão abafado. "A mata pode vos escolher, mas nós somos eternos." Antes que Itiberê pudesse reagir, Nahely jogou outro punhado de cinzas, e a sombra gritou, dissolvendo-se no ar.
O silêncio voltou, mas agora era um silêncio vivo, cheio de sons da mata: o canto dos pássaros, o farfalhar das folhas. Ayra sorriu, o rosto aliviado. "Tu conseguiste, Itiberê. Nós conseguimos."
Nahely balançou a cabeça, o olhar ainda atento. "Foi só o começo. Os Esquecidos recuaram, mas não estão derrotados. A vila precisa continuar o trabalho. O equilíbrio exige mais do que um dia na clareira."
Itiberê olhou para a árvore-mãe, sentindo uma paz que não conhecia antes. "O que fazemos agora?" perguntou, a voz firme pela primeira vez.
"Voltamos à vila," respondeu Nahely. "Contamos o que vimos, o que sentimos. A mata precisa de todos, e todos precisam da mata. Mas tu, Itiberê, és o elo. Não esqueças disso."
Ayra tocou o ombro dele, os olhos brilhando. "Tu não estás sozinho. Nós somos contigo."
Enquanto voltavam pela trilha, com o sol agora alto no céu, Itiberê sentia o colar mais leve, como se a mata o agradecesse. Mas, no fundo, ele sabia que o confronto com os Esquecidos não terminara. A clareira fora apenas o primeiro passo, e o Coração da Mata ainda pedia mais.
Capítulo 11: O Elo da Vila
O sol já se aproximava do horizonte quando Itiberê, Nahely e Ayra emergiram da mata, os rostos marcados pela intensidade do que haviam enfrentado na clareira. O colar de Itiberê ainda pulsava, mas agora com uma cadência suave, como se a própria Anaíra reconhecesse o esforço deles. As palavras da Mãe da Noite ecoavam em sua mente: "Vós sois o Coração." Ele sabia que o equilíbrio não dependia apenas dele, mas de todos em Santa Luzia. A vila precisava se unir, e o tempo para isso era curto.
Ao chegarem à praça, encontraram Dona Raíra e Kenai esperando, rodeados por um pequeno grupo de moradores que haviam ouvido os rumores da grota. A notícia do que acontecera se espalhara, e os olhares eram uma mistura de esperança e receio. Dona Raíra correu até Itiberê, abraçando-o com força. "Graças a Deus tu voltaste, meu filho," murmurou, os olhos marejados. "O que aconteceu lá?"
Itiberê olhou para Nahely e Ayra, que assentiram, encorajando-o a falar. Ele subiu novamente no banco de madeira, o mesmo onde havia convencido a vila a ir à grota. "Povo de Santa Luzia," começou, a voz mais firme do que nunca, "a mata falou comigo, com Nahely e com Ayra. Enfrentamos as sombras que querem destruir o que nos sustenta. Os Esquecidos, espíritos que se voltaram contra Anaíra, tentaram nos parar. Mas a Mãe da Noite estava lá, e ela disse que o Coração da Mata somos nós. Todos vós."
Os murmúrios cresceram, mas agora havia menos desconfiança. Dona Lúcia, com as mãos ainda sujas de farinha, deu um passo à frente. "Eu senti a mata na grota, Itiberê. Não sei explicar, mas senti. O que ela quer de nós agora?"
Nahely ergueu o bastão, pedindo silêncio. "A mata pede equilíbrio," disse, a voz ressoando como um tambor. "Vós haveis tomado demais: árvores cortadas sem replantar, peixes tirados sem respeito ao rio. O juramento dos antepassados foi quebrado, mas pode ser restaurado. Cada um de vós deve fazer sua parte. Plantai, cuidai, honrai a floresta."
Ayra, com o cesto de ervas ainda na mão, acrescentou: "A mata não é só árvores e bichos. É nossa vida. Se ela morre, nós morremos. Mas se a ajudarmos, ela nos dará tudo de volta. Itiberê é o elo, mas todos nós somos o Coração."
Kenai, sempre prático, falou em seguida: "Começamos ontem, replantando, reduzindo a pesca. Mas precisa ser mais. Precisamos de todos. Quem vem conosco?"
Seu Zé, o lenhador, que antes duvidara, levantou a mão, hesitante. "Eu vi a grota. Não sei se entendo tudo, mas não quero ver o rio secar. Vou ajudar. Menos cortes, mais mudas. É isso que a mata quer, não é?"
Itiberê sorriu, sentindo o peso no peito aliviar um pouco. "É isso, Seu Zé. É o que todos precisamos fazer." Ele olhou para a multidão, vendo rostos conhecidos, pessoas com quem crescera. "Mas cuidado. As sombras, os Esquecidos, ainda estão lá. Eles vão tentar nos dividir, plantar dúvida. Precisamos ficar juntos."
Nahely entregou a Itiberê um pequeno saco de cinzas misturadas com sementes, igual ao que usara na clareira. "Espalha isso pelas casas," disse o Pagé. "É uma proteção contra os Esquecidos. Mas a verdadeira força vem de vós, da união. Enquanto estiverdes juntos, eles não podem vencer."
Nos dias seguintes, a vila se transformou. Sob a orientação de Nahely, Itiberê e Ayra ensinaram os moradores a fazerem oferendas à mata, como nos tempos antigos: flores, frutas, cânticos ao amanhecer. Kenai liderava grupos para replantar árvores, enquanto Dona Raíra organizava as mulheres para cuidar das margens do rio, limpando o que fora poluído e protegendo os peixes.
Até as crianças, guiadas por Ayra, aprendiam a respeitar a floresta, coletando sementes e plantando-as com cuidado. Mas Itiberê não conseguia se livrar da inquietação. À noite, ele via os brilhos escuros novamente, mais frequentes, rondando a vila como predadores. Uma vez, enquanto caminhava com Ayra até a choupana de Nahely, ouviu um sussurro frio: "Tu vais falhar, Itiberê. A vila é fraca."
Ele parou, o coração disparado, mas Ayra apertou sua mão. "Ignora," disse ela. "Eles querem teu medo. Não dês isso a eles." Na choupana, Nahely preparava um novo ritual. "A mata está mais forte," disse o Pagé, acendendo um braseiro. "Mas os Esquecidos estão inquietos. Eles sabem que a vila está se unindo, e isso os enfraquece. Precisamos fazer um último chamado à Anaíra, na clareira, com todos os que puderem ir. Só assim o equilíbrio será selado."
Itiberê olhou para Ayra, que assentiu, determinada. "Vamos chamar a vila," disse ela. "Todos juntos, como o Coração da Mata."
Na manhã seguinte, Itiberê, Nahely e Ayra lideraram um grupo maior do que nunca até a clareira. Quase toda Santa Luzia estava lá: Dona Raíra, Kenai, Dona Lúcia, Seu Zé, até as crianças que Ayra ensinara. Nahely traçou um grande círculo com cinzas, e Ayra espalhou flores, enquanto Itiberê segurava o colar, sentindo-o pulsar mais forte do que nunca. "Mãe da Noite," gritou ele, a voz ecoando pela clareira, "nós somos teus filhos. Mostra-nos o caminho!"
A resposta veio como um vento quente, e a árvore-mãe brilhou, sua luz envolvendo a todos. Mas, no mesmo instante, as sombras surgiram, mais numerosas, cercando a clareira. "Vós não podeis salvar o que está perdido," sibilavam. Itiberê, Nahely e Ayra ficaram no centro, de mãos dadas, enquanto a vila formava um círculo ao redor deles.
"Não ouçais!" gritou Nahely, erguendo o bastão. "A mata é nossa força!" Ayra começou a cantar, um cântico antigo que fez as flores brilharem mais forte. Itiberê sentiu o colar queimar, e, por um instante, viu Anaíra, não como mulher, mas como a própria floresta, envolvendo-os. As sombras gritaram, dissipando-se uma a uma, até que a clareira ficou em silêncio.
Quando a luz voltou, a vila estava unida, os rostos iluminados por algo maior que o medo. Itiberê olhou para Nahely e Ayra, sentindo que, pela primeira vez, o Coração da Mata estava vivo, pulsando em todos eles.
Capítulo 12: O Equilíbrio Restaurado
A clareira parecia pulsar com uma energia nova, como se a própria mata agradecesse o esforço da vila. Itiberê, Nahely e Ayra permaneciam no centro do círculo, as mãos ainda unidas, enquanto os moradores de Santa Luzia, ao redor, respiravam aliviados, os rostos iluminados pela luz suave que emanava da árvore-mãe. As sombras dos Esquecidos haviam se dissipado, mas o silêncio que se seguiu não era de vazio, e sim de plenitude. O colar de Itiberê, agora morno contra o peito, parecia em paz, como se Anaíra reconhecesse o que fora feito.
Nahely ergueu o bastão, os olhos brilhando com uma sabedoria que transcendia a vila. "Vós haveis ouvido a Mãe da Noite," disse ele, a voz ecoando com uma força que fez todos se calarem. "O Coração da Mata não é uma coisa, mas um pacto. Vós o selastes hoje, unindo-vos como um só. Mas o equilíbrio exige cuidado constante. A mata nunca esquece, e vós também não deveis."
Ayra, com as flores ainda nas mãos, olhou para a multidão. "A floresta nos deu tudo," falou, a voz clara e firme. "Agora, cabe a nós devolver. Não só com mudas ou oferendas, mas com respeito. Cada árvore, cada rio, cada pássaro é parte de nós. Se cuidarmos da mata, ela cuidará de vós."
Itiberê sentia o peso do momento, mas também uma leveza que não conhecia desde que a mata o chamara. Ele olhou para Dona Raíra, que sorria com orgulho, para Kenai, cujo rosto sério agora trazia um traço de esperança, e para os outros, que, mesmo exaustos, pareciam transformados. Até Seu Zé, o lenhador, parecia diferente, segurando uma muda de árvore como se fosse um tesouro.
"Eu não sabia se conseguiria," confessou Itiberê, dirigindo-se à vila. "Quando a mata me chamou, eu temi. Mas vós viestes comigo. Nahely e Ayra me guiaram, mas foram vós, todos vós, que fizeram o Coração da Mata pulsar novamente. Eu sou apenas um pescador, mas juntos, somos a floresta."
Dona Lúcia, com lágrimas nos olhos, ergueu a voz. "Eu nunca senti nada como hoje. A mata tá viva, e nós também. Vamos honrar isso, Itiberê. Por nossos filhos, pelos filhos deles."
O grupo voltou à vila sob a luz do entardecer, o caminho agora mais leve, como se a própria mata os abençoasse. Os pássaros cantavam novamente, e o rio, que corria ao lado, parecia mais claro, mais cheio. Itiberê caminhava ao lado de Nahely e Ayra, sentindo que, embora o confronto com os Esquecidos tivesse sido vencido, a jornada estava longe de acabar.
Na choupana de Nahely, naquela noite, os três se reuniram para refletir. O Pagé acendeu o braseiro, e o cheiro das ervas encheu o ar. "Os Esquecidos recuaram," disse ele, "mas eles não somem. Enquanto houver ganância ou esquecimento, eles terão força. A vila precisa permanecer unida, Itiberê. Tu és o elo, mas todos são guardiões."
Ayra, sentada no chão, trançava uma nova pulseira de cipós. "Eu vi a força da vila hoje," disse ela. "Mas também vi teus olhos, Itiberê. Tu ainda tens dúvidas. O que te preocupa?"
Ele hesitou, o colar quente em suas mãos. "Eu sei que vencemos hoje, mas e se os Esquecidos voltarem? E se eu não for forte o suficiente para liderar de novo? A mata me escolheu, mas eu não me sinto pronto."
Nahely riu, um som grave e reconfortante. "Ninguém está pronto, menino. A mata não escolhe os perfeitos, escolhe os dispostos. Tu provaste isso. E tu não estás sozinho. Ayra, eu, Dona Raíra, Kenai, a vila inteira... somos contigo."
Ayra terminou a pulseira e entregou-a a Itiberê. "Isto é pra te lembrar," disse ela. "A mata tá no teu sangue, mas também no nosso. Enquanto estivermos juntos, os Esquecidos não podem nos tocar."
Itiberê colocou a pulseira, sentindo o cipó firme contra o pulso. Ele olhou para Nahely e Ayra, e, pela primeira vez, sentiu que o peso do juramento não era só dele. "Obrigado," murmurou. "Por estarem comigo."
Nahely pôs a mão no ombro dele. "A mata te agradece, Itiberê. Mas o trabalho não termina. Amanhã, devemos ensinar a vila a viver com a floresta, não contra ela. E tu vais liderar, com Ayra e comigo ao teu lado."
Nos dias que se seguiram, Santa Luzia floresceu. As oferendas à mata tornaram-se hábito, e as crianças aprendiam os cânticos de Ayra. Kenai organizava grupos para replantar, enquanto Dona Raíra e Dona Lúcia cuidavam do rio. Seu Zé, agora um defensor da floresta, ensinava os outros lenhadores a cortar apenas o necessário, sempre replantando o dobro. Itiberê, guiado por Nahely, visitava a clareira com frequência, não mais com medo, mas com reverência, levando oferendas e ouvindo a mata.
Mas, numa noite de lua nova, enquanto caminhava sozinho pelo rio, Itiberê viu um último brilho escuro, fraco, quase apagado. Não havia vozes, apenas um sussurro distante, como um ressoar de derrota. Ele sorriu, tocando o colar e a pulseira. "Vós não vencereis," murmurou. "A mata é mais forte."
A floresta respondeu com um vento suave, como se Anaíra, em silêncio, concordasse. Itiberê voltou à vila, sabendo que o Coração da Mata agora batia em todos eles, e que, juntos, manteriam o equilíbrio por gerações.
Capítulo 13: O Vínculo de Tayen
A vila de Santa Luzia respirava uma nova harmonia, como se a mata, agora apaziguada, soprasse vida sobre as casas de taipa e os caminhos de terra. Itiberê caminhava pela margem do rio, o colar e a pulseira de Ayra firmes contra a pele, sentindo a presença da floresta mais como uma aliada do que como um peso. O equilíbrio estava sendo restaurado, mas ele sabia que a vigilância não podia cessar. Os Esquecidos, embora enfraquecidos, ainda espreitavam nas sombras, e a vila precisava permanecer unida.
Foi numa dessas tardes, enquanto ajudava Kenai a reforçar uma cerca de madeira para proteger as novas mudas, que Itiberê avistou Tayen. Ela era uma jovem da vila, de olhos castanhos que pareciam refletir o próprio rio e cabelos longos trançados com flores silvestres. Tayen sempre fora reservada, mas desde que Itiberê liderara a vila na clareira, ela começara a se aproximar, trazendo oferendas para a mata ou ajudando Ayra com as crianças. Havia uma força quieta nela, uma conexão com a floresta que Itiberê só agora começava a perceber.
"Tayen," chamou ele, limpando as mãos na calça de linho. "Tu tens um momento? Quero te perguntar algo."
Ela parou, segurando um cesto de sementes, e sorriu, um sorriso tímido, mas cálido. "Claro, Itiberê. O que queres comigo?"
Ele hesitou, sentindo o coração acelerar de um jeito que não tinha nada a ver com a mata. "Tu tens ido muito à clareira com Ayra," começou, escolhendo as palavras com cuidado. "Eu vejo como tu cuidas das oferendas, como falas com as crianças. Tu sentes a mata, não é? Como Ayra, como Nahely."
Tayen baixou os olhos por um instante, as mãos apertando o cesto. "Eu sempre senti," confessou. "Desde pequena, quando minha mãe me levava pra colher ervas. Mas depois do que aconteceu na grota, na clareira... eu sei que é mais do que só sentir. A mata fala, Itiberê. E eu quero ajudar, como tu fazes."
Ele sorriu, aliviado por ouvir isso. "Então vem comigo hoje. Nahely e Ayra vão à clareira ao entardecer pra reforçar o círculo de proteção. Eu gostaria que tu estivesses lá. A mata te conhece, Tayen. E eu... eu confio em ti."
As palavras saíram mais sinceras do que ele esperava, e o olhar de Tayen encontrou o dele, brilhando com algo novo. "Eu irei," disse ela, a voz firme. "Por ti, pela mata, por todos nós."
Ao entardecer, Itiberê, Nahely, Ayra e Tayen cruzaram o rio em direção à clareira. Nahely carregava seu bastão e um novo pote de cinzas, enquanto Ayra trazia flores frescas, colhidas ao amanhecer. Tayen, ao lado de Itiberê, segurava uma pequena trouxa de ervas que ela mesma preparara, murmurando cânticos que aprendera com a mãe. A trilha estava calma, mas Itiberê sentia o colar pulsar levemente, como se a mata os observasse com atenção.
Na clareira, a árvore-mãe parecia ainda mais imponente, suas raízes brilhando sob a luz dourada do sol poente. Nahely traçou um novo círculo de cinzas, enquanto Ayra espalhava as flores, reforçando o ritual que mantinha os Esquecidos à distância. Tayen, com uma naturalidade que surpreendeu Itiberê, juntou-se a Ayra, dispondo as ervas em padrões que pareciam dançar com o vento.
"Estas ervas são de proteção," explicou ela, notando o olhar de Itiberê. "Minha mãe dizia que elas falam com a mata, pedindo paz." Nahely assentiu, aprovando. "Tu tens o dom, Tayen," disse o Pagé. "A mata te escolheu, como escolheu Itiberê e Ayra. Juntos, vós sois a força do Coração."
Enquanto o ritual prosseguia, Itiberê sentiu um calor diferente no peito, não do colar, mas de algo mais humano. Ele olhou para Tayen, que cantava ao lado de Ayra, a voz suave misturando-se ao som das folhas. Ela era mais do que uma aliada na luta pela mata; era alguém que ele queria ao seu lado, não só na clareira, mas na vida. Quando o ritual terminou, e a clareira brilhou com a luz de Anaíra, Itiberê tomou coragem.
"Tayen," chamou, enquanto voltavam à vila, o céu agora salpicado de estrelas. "Eu... eu quero que saibas que tu és mais do que uma ajuda pra mim. Tu me dás força, como a mata faz. E eu gostaria... gostaria de te ter sempre por perto. Não só como amiga, mas como... minha noiva."
Tayen parou, os olhos arregalados, mas um sorriso lento formou-se em seus lábios. "Itiberê," disse ela, a voz suave, mas firme, "a mata nos uniu, mas é teu coração que me chama agora. Sim, eu quero estar contigo. Como tua noiva, como tua parceira, na vila e na floresta."
Nahely, que caminhava à frente com Ayra, virou-se e sorriu, como se já soubesse o que se passava. "A mata aprova os laços verdadeiros," disse ele. "Vós sois o futuro do Coração, Itiberê e Tayen."
Ayra riu, dando um tapinha no ombro de Itiberê. "Eu sabia que havia algo entre vós dois. A mata sempre sabe antes de nós."
Naquela noite, a vila celebrou, não só o fortalecimento do equilíbrio, mas o noivado de Itiberê e Tayen. Dona Raíra, com lágrimas de alegria, abraçou os dois, enquanto Kenai erguia uma caneca de cachaça em brindes. A choupana de Nahely ficou cheia de risos e cânticos, e até Seu Zé, agora convertido à causa da mata, dançava com as crianças.
Mas, enquanto a vila festejava, Itiberê e Tayen saíram para a margem do rio, de mãos dadas. O colar dele e as flores nos cabelos dela pareciam brilhar sob a lua. "A mata nos uniu," disse Tayen, apertando a mão dele. "Mas nós vamos mantê-la viva, juntos."
Itiberê assentiu, sentindo que o Coração da Mata agora batia não só na vila, mas entre eles. "Juntos," repetiu, e pela primeira vez, o peso do juramento parecia leve, como se o amor de Tayen e a força da vila fossem suficientes para enfrentar qualquer sombra que ainda ousasse surgir.
Capítulo 14: A Promessa Renovada
A lua cheia pairava sobre Santa Luzia, banhando a vila em uma luz prateada que parecia abençoar cada casa, cada árvore replantada, cada passo dado em direção ao equilíbrio. Itiberê e Tayen caminhavam juntos pela praça, o colar dele e as flores nos cabelos dela refletindo o luar como espelhos da mata. O noivado, celebrado na noite anterior, trouxera uma nova energia à vila, como se o laço entre eles reforçasse o pacto com a floresta. Mas Itiberê sabia, no fundo do coração, que a luta pelo Coração da Mata não estava concluída.
A mata exigia constância, e as sombras dos Esquecidos, embora enfraquecidas, ainda espreitavam. Na manhã seguinte, Itiberê, Tayen, Nahely e Ayra reuniram-se na choupana do Pagé para planejar o próximo passo. A vila começava a viver em harmonia com a floresta, mas Nahely alertara que o equilíbrio precisava ser selado com um ritual maior, um que renovasse o juramento quebrado pelos antepassados. "A mata está forte," disse o Pagé, acendendo o braseiro com ervas que enchiam o ar de um aroma doce e pungente.
"Mas o Coração da Mata exige uma promessa nova, feita por todos. Vós, Itiberê e Tayen, sois o símbolo disso, mas a vila inteira deve falar como um só." Tayen, sentada ao lado de Itiberê, segurava a mão dele com firmeza. "Eu vi a força da vila na clareira," disse ela, a voz suave, mas carregada de convicção. "Eles acreditam agora, Nahely. Mas como fazemos esse ritual? O que a mata quer de nós?"
Nahely ergueu o bastão entalhado, os olhos fixos no fogo. "A mata pede um juramento de todos, feito sob a árvore-mãe. Cada homem, mulher e criança deve oferecer algo: uma semente, uma palavra, um canto. Deve ser na noite da lua cheia, quando Anaíra está mais próxima. Itiberê, tu e Tayen liderareis, como o elo entre a vila e a floresta."
Ayra, trançando uma nova pulseira de cipós, assentiu. "As crianças já conhecem os cânticos que ensinei. Elas podem ajudar a chamar os outros. Mas precisamos ter cuidado. Os Esquecidos sabem que estamos perto de selar o pacto. Eles vão tentar algo, tenho certeza."
Itiberê sentiu um arrepio, lembrando o brilho escuro que vira na margem do rio. "O que eles podem fazer agora?" perguntou, o colar quente contra o peito. "A vila está unida, a mata está mais forte. Eles não recuaram?"
Nahely balançou a cabeça, o rosto sério. "Os Esquecidos são como o vento, Itiberê. Podem parecer fracos, mas encontram frestas. Eles sussurram dúvidas, medo, ganância. Tu e Tayen devem manter a vila firme. E tu, Ayra, com teus cânticos, podes protegê-los. O ritual será a prova final."
Nos dias que se seguiram, a vila se preparou para o grande ritual. Itiberê e Tayen percorreram as casas, convocando cada morador a trazer uma oferta para a mata: uma semente, uma erva, uma pedra do rio. Dona Raíra organizava as mulheres para tecerem cordas de cipó, que seriam usadas para marcar o círculo sagrado na clareira. Kenai liderava os homens na construção de um pequeno altar de madeira sob a árvore-mãe, enquanto Ayra ensinava cânticos antigos às crianças, suas vozes ecoando pela vila como um chamado da própria floresta.
Na véspera da lua cheia, Itiberê e Tayen caminhavam sozinhos até a clareira para verificar o altar. O silêncio da mata era reconfortante, mas Itiberê não podia ignorar a sensação de que algo os observava. Tayen, sempre atenta, apertou a mão dele. "Tu sentes também, não é?" perguntou, os olhos fixos nas árvores. "A mata tá calma, mas há algo escondido."
Antes que ele pudesse responder, um brilho escuro piscou entre os troncos, acompanhado de um sussurro frio: "Vós não podeis selar o que foi quebrado. A vila cairá." Itiberê puxou Tayen para trás, o amuleto de Nahely quente na mão. "Mostra-te!" gritou ele, a voz ecoando na clareira. Mas o brilho sumiu, deixando apenas o som das folhas.
"Os Esquecidos estão desesperados," disse Tayen, a voz firme apesar do medo. "Eles sabem que estamos perto. Não vamos deixá-los nos parar, Itiberê."
Ele assentiu, puxando-a para um abraço. "Não vamos. A mata tá conosco, e tu estás comigo. Isso é suficiente."
Na noite da lua cheia, a vila inteira marchou até a clareira, um rio de pessoas carregando sementes, flores e pedras. Nahely liderava com seu bastão, enquanto Itiberê e Tayen caminhavam de mãos dadas, seguidos por Ayra, que cantava com as crianças. O altar de madeira brilhava sob a luz da lua, e a árvore-mãe parecia pulsar, como se aguardasse.
Nahely traçou um grande círculo com cinzas, e Itiberê e Tayen deram o primeiro passo, depositando uma semente e uma flor no altar. "Mãe da Noite," disse Itiberê, a voz ressoando, "nós renovamos o juramento. A vila é tua, e tu és nossa." Tayen completou: "Prometemos cuidar, proteger, devolver. Que o Coração da Mata viva em nós."
Um a um, os moradores se aproximaram, oferecendo suas dádivas. Dona Raíra deixou uma pedra do rio, Kenai uma muda de jatobá, Dona Lúcia uma trança de ervas. As crianças, guiadas por Ayra, cantavam, suas vozes enchendo a clareira com uma melodia que parecia fazer as árvores dançarem. Mas, quando Seu Zé depositou sua semente, um vento frio soprou, e as sombras surgiram novamente, cercando o círculo.
"Vós sois fracos," sibilavam os Esquecidos, suas formas indistintas pairando como fumaça. "O juramento será quebrado outra vez." Itiberê sentiu o medo crescer, mas Tayen segurou sua mão, e Ayra intensificou o cântico, as crianças acompanhando com mais força. Nahely ergueu o bastão, gritando: "Mata, proteja teus filhos!"
A árvore-mãe brilhou, uma luz quente que engoliu as sombras. As vozes dos Esquecidos se transformaram em gritos, dissipando-se no ar. A clareira vibrou, e Itiberê sentiu o colar pulsar em harmonia com o coração de Tayen, que batia contra o dele. Quando a luz diminuiu, a mata estava em paz, e a vila, unida, cantava com Ayra.
Nahely sorriu, o rosto cansado, mas aliviado. "O juramento está renovado," disse. "O Coração da Mata vive em vós."
Itiberê e Tayen se olharam, sabendo que aquele era apenas o começo. A mata os unira, e agora, como noivos e guardiões, eles liderariam a vila para manter a promessa, com Nahely, Ayra e todos os outros ao seu lado.
Capítulo 15: O Guardião da Mata
A aurora despontava em Santa Luzia, tingindo o céu com tons de rosa e dourado, como se a própria mata celebrasse a vitória de Itiberê e seus companheiros. A clareira, agora banhada pela luz suave do amanhecer, parecia diferente: as árvores estavam mais verdes, o ar mais leve, e o murmúrio do rio ao longe soava como uma canção de gratidão. Itiberê, Tayen, Ayra e Nahely caminhavam de volta à vila, o peso do Coração da Mata ainda pulsando no peito de cada um, mas agora com uma sensação de harmonia, como se a floresta, enfim, respirasse aliviada.
O colar de Itiberê, com suas sementes e penas, parecia brilhar com uma luz própria, e o amuleto que Nahely lhe dera estava quente, um lembrete constante de sua nova responsabilidade. Tayen, ao seu lado, segurava sua mão com firmeza, os olhos cheios de orgulho e um amor que não precisava de palavras. Ayra, com seu jeito inquieto, observava a mata, como se temesse que as sombras dos Esquecidos ainda espreitassem. Nahely, sempre sereno, caminhava com o bastão entalhado, murmurando preces antigas que ecoavam como um cântico.
Quando chegaram à vila, a praça já estava cheia. Dona Raíra, Kenai, Dona Lúcia e os outros moradores aguardavam, ansiosos, seus rostos misturando esperança e temor. A notícia da batalha na clareira havia se espalhado, levada por uma criança que os vira retornar ao amanhecer. Itiberê sentiu todos os olhares sobre si, e, por um instante, o velho desejo de ser apenas um pescador comum voltou a apertar seu peito. Mas ele sabia: aquele Itiberê não existia mais.
"Filho," disse Dona Raíra, aproximando-se com lágrimas nos olhos. "Tu voltaste. E a mata... ela está em paz?" A voz dela tremia, mas carregava a força de uma mãe que sempre acreditara nele.
Itiberê olhou para Nahely, que assentiu com um leve movimento de cabeça, como se dissesse que era hora. "A mata está viva, mãe," respondeu ele, a voz firme apesar do cansaço. "O Coração da Mata foi restaurado. Os Esquecidos foram enfraquecidos, mas a floresta ainda precisa de nós. De todos nós."
Nahely deu um passo à frente, erguendo o bastão. "Escutai, povo de Santa Luzia," disse o Pagé, sua voz ressoando como o trovão. "A Mãe da Noite falou, e Itiberê respondeu. Ele é agora o Guardião da Mata, o primeiro de uma nova linhagem a carregar o juramento de nossos antepassados. Mas ele não está só. Vós, que aqui estais, sois parte deste pacto. A mata vive porque vós viveis com ela."
Os murmúrios da multidão se transformaram em um silêncio reverente. Kenai, com seu jeito prático, foi o primeiro a falar. "O que precisamos fazer, Nahely? Como mantemos esse equilíbrio?" Ele olhou para Itiberê, um misto de respeito e camaradagem nos olhos.
Nahely sorriu, algo raro em seu rosto severo. "Plantai, protegei, respeitai. A mata não pede mais do que isso. Mas cuidado: os Esquecidos, embora enfraquecidos, não desapareceram. Eles voltam quando o equilíbrio fraqueja, quando a ganância ou o esquecimento crescem. Itiberê, com o Coração da Mata, será os olhos e os ouvidos da floresta. E vós sereis suas mãos."
Tayen apertou a mão de Itiberê, sussurrando-lhe ao ouvido. "Tu és mais forte do que jamais sonhaste, meu amor. E eu estarei contigo, sempre." Ele olhou para ela, o coração aquecido por suas palavras. Sabia que o peso do título de Guardião seria grande, mas com Tayen, Ayra, Nahely e a vila ao seu lado, ele não se sentia mais tão só.
Naquela tarde, a vila se reuniu para um ritual liderado por Nahely. Sob a grande árvore da praça, cada morador trouxe uma oferenda: frutas, sementes, flores, até pequenas esculturas de madeira entalhadas pelas crianças. Itiberê, guiado pelo Pagé, enterrou o amuleto de madeira no chão, ao pé da árvore, enquanto Ayra espalhava as cinzas de ervas sagradas, entoando cânticos que aprendera com Dona Iracema.
O ar vibrou com uma energia antiga, e, por um momento, Itiberê sentiu Anaíra, não como uma presença assustadora, mas como uma mãe que velava por seus filhos. Quando a cerimônia terminou, a vila parecia renovada. As crianças corriam, rindo, enquanto os mais velhos conversavam sobre os tempos antigos, relembrando histórias que haviam esquecido. Itiberê, Tayen e Ayra sentaram-se à beira do rio, observando o sol se pôr.
"Achavas que seria assim, Itiberê?" perguntou Ayra, jogando uma pedra na água. "Um pescador virando guardião da mata?" Ele riu, algo que não fazia há dias. "Não, Ayra. Eu só queria pescar meu peixe e viver em paz. Mas a mata tinha outros planos." Tayen encostou a cabeça em seu ombro, sorrindo. "E que planos, hein? Agora és o homem mais importante de Santa Luzia."
"Não sou importante," retrucou ele, olhando para o rio. "Sou só... o que a mata precisava. E vós sois tão parte disso quanto eu." Ele segurou o colar, agora leve, como se tivesse cumprido seu propósito. Mas, no fundo, sabia que a floresta ainda o observava, esperando que ele honrasse o juramento. Naquela noite, enquanto a vila festejava com música e fogueiras, Itiberê sonhou novamente.
Desta vez, Anaíra não apareceu como mulher ou sombra, mas como a própria mata, vasta e infinita. "Tu fizeste bem, Guardião," disse a voz suave como o vento. "Mas a floresta é eterna, e teu trabalho apenas começou. Cuida dela, e ela cuidará de ti." Ele acordou com o nascer do sol, Tayen dormindo ao seu lado, e uma certeza no peito: ele era o Guardião da Mata, e, com sua vila e sua noiva, ele estava pronto para o que viesse.
Capítulo 16: A Nova Alvorada
O sol nascia sobre Santa Luzia com uma luz diferente, mais clara, como se a própria mata tivesse exalado um suspiro de alívio. Itiberê acordou antes dos galos, o corpo ainda marcado pela exaustão da noite anterior, mas o coração leve pela primeira vez em semanas. O colar, agora pendurado em seu peito, parecia pulsar com uma energia serena, como se a mata o reconhecesse como seu guardião. Tayen dormia ao seu lado, na rede simples que dividiam na casa de Dona Raíra, o rosto tranquilo, um leve sorriso desenhado nos lábios.
Ele a olhou por um momento, agradecido por sua força, por sua fé inabalável que o sustentara quando ele mesmo duvidara. A vila despertava com um novo vigor. As crianças corriam pela praça, rindo enquanto carregavam mudas para plantar às margens do rio. Kenai, com seu jeito firme, liderava um grupo de homens que reforçava as cercas de proteção contra os caçadores que ainda rondavam a floresta. Dona Lúcia, agora uma voz respeitada entre as mulheres, organizava as oferendas diárias à mata, ensinando às mais jovens os cânticos que sua avó lhe passara.
E Nahely, o velho Pagé, caminhava entre todos, o bastão entalhado batendo ritmadamente no chão, como se marcasse o pulsar renovado da floresta. Itiberê levantou-se com cuidado para não acordar Tayen e saiu para a varanda. O ar estava fresco, carregado do cheiro de terra úmida e flores que começavam a brotar onde antes havia apenas cinzas. A mata, ao longe, parecia mais viva, as copas das árvores balançando ao vento como se dançassem em gratidão.
Ele sabia que o equilíbrio conquistado era frágil, que os Esquecidos, embora enfraquecidos, ainda espreitavam nas sombras mais profundas. Mas agora a vila estava unida, e ele não estava mais sozinho. Nahely o encontrou na praça, os olhos brilhando com uma sabedoria que parecia enxergar além do tempo. "Tu fizeste bem, Itiberê," disse o Pagé, a voz grave mas suave. "A mata te reconhece como seu guardião, mas teu trabalho não termina.
O Coração da Mata vive em ti, e tu deves protegê-lo com os teus." Itiberê assentiu, sentindo o peso e a honra daquelas palavras. "E as sombras?" perguntou, a lembrança dos Esquecidos ainda fresca. "Elas voltarão?" O Pagé olhou para a floresta, o rosto sereno. "Enquanto houver ganância, haverá sombras. Mas enquanto houver quem cuide da mata, elas nunca vencerão. Ensina a vila, Itiberê. Ensina as crianças, como Ayra faz.
Ensina Tayen, para que ela esteja contigo no que vier. A mata é forte, mas precisa de mãos humanas para protegê-la." Naquele dia, Itiberê reuniu a vila na clareira onde tudo começara. A árvore-mãe, com suas raízes como cobras, parecia maior, mais viva, suas folhas brilhando sob o sol. Ele segurava a mão de Tayen, que estava ao seu lado, os olhos dela cheios de orgulho.
Ayra, Kenai, Dona Raíra e Dona Lúcia estavam lá, junto com dezenas de outros rostos, todos unidos pelo mesmo propósito. Nahely ergueu o bastão, pedindo silêncio, e Itiberê falou, a voz firme, mas carregada de emoção. "Vós todos vistes o que a mata nos deu," começou ele. "Ela nos protegeu, nos alimentou, nos guiou. Mas ela também cobra. O juramento dos nossos antepassados foi renovado, e agora é nosso dever mantê-lo.
Não somos só pescadores, agricultores ou caçadores. Somos guardiões. E enquanto estivermos juntos, a mata viverá." Um murmúrio de aprovação percorreu a multidão. Crianças erguiam mudas, homens e mulheres trocavam olhares de determinação. Tayen apertou a mão de Itiberê, sussurrando: "Tu és o coração disso tudo, meu amor. E eu estarei contigo, sempre."
Nahely deu um passo à frente, espalhando cinzas misturadas com sementes ao pé da árvore-mãe. "Que este seja o começo," disse ele. "Que a vila de Santa Luzia seja o lar do equilíbrio, onde a mata e os homens caminhem juntos." Ele olhou para Itiberê, um leve sorriso nos lábios. "E que tu, Itiberê, sejas o primeiro de muitos guardiões."
A cerimônia terminou com cânticos antigos, entoados por Ayra e Dona Lúcia, enquanto o sol subia mais alto, banhando a clareira em luz. Itiberê sentiu o colar pulsar, como se Anaíra estivesse ali, aprovando o que via. Ele olhou para Tayen, para a vila, para a mata, e soube que, apesar dos desafios que ainda viriam, eles estavam prontos.
Naquela noite, enquanto a vila celebrava com fogueiras e histórias, Itiberê e Tayen sentaram-se à beira do rio, os pés na água fresca. "Tu achas que a mata vai nos dar paz agora?" perguntou ela, a voz suave, mas com um traço de preocupação.
Ele sorriu, segurando a mão dela. "A mata nunca dá paz, Tayen. Ela dá vida. E nós vamos protegê-la, juntos." Ele olhou para o outro lado do rio, onde a floresta se estendia, vasta e misteriosa. Não viu brilhos escuros, não ouviu sussurros malignos. Apenas o canto dos grilos e o murmúrio do rio, como uma canção de esperança.
E assim, sob o céu estrelado, Itiberê abraçou sua noiva, sabendo que o caminho à frente seria longo, mas que, com a vila e a mata ao seu lado, ele nunca mais caminharia sozinho.
Capítulo 17: O Ecoar do Futuro
A manhã em Santa Luzia trazia um frescor que parecia novo, como se a própria mata exalasse alívio após a batalha na clareira. Itiberê acordou com o canto dos pássaros, um som que ele não percebia com tanta clareza há semanas. A luz do sol filtrava-se pelas frestas da janela, banhando a casa simples onde ele e Tayen agora dividiam seus dias. O colar de sementes e penas, agora pendurado ao lado da rede, parecia repousar, sua energia serena, mas sempre presente.
Tayen já estava de pé, trançando os cabelos negros com a mesma precisão com que cuidava das ervas na horta. "Tu estás pensativo outra vez," disse ela, os olhos castanhos brilhando com uma mistura de carinho e provocação. "A mata te deixou em paz por uma noite, e tu já queres inventar novas preocupações?"
Itiberê sorriu, mas o peso do que haviam vivido ainda pairava sobre ele. "Não é preocupação, Tayen. É... responsabilidade. A mata está viva, mas frágil. E eu sou o guardião agora. Não sei se estou pronto para o que vem pela frente."
Ela aproximou-se, pondo a mão no ombro dele. "Tu não estás sozinho, Itiberê. A vila está contigo. Eu estou contigo. E Anaíra, ela confia em ti." As palavras dela eram como o rio, calmas, mas profundas, e ele sentiu o coração aquecer.
Naquela manhã, ele, Tayen, Ayra e Nahely reuniram-se na praça da vila, onde a árvore jovem plantada após a batalha já mostrava folhas verdes e viçosas. Kenai, com seu jeito prático, organizava um grupo para reforçar as margens do rio, enquanto Dona Raíra e Dona Lúcia ensinavam as mulheres a preparar oferendas que respeitassem a mata.
A vila, antes dividida entre medo e descrença, agora trabalhava unida, movida por uma nova compreensão do equilíbrio que Itiberê trouxera. Nahely, com o bastão entalhado firme na mão, chamou Itiberê para o lado. "A mata está em paz, mas a paz é frágil," disse o Pagé, os olhos fixos no horizonte onde a floresta se erguia. "Os Esquecidos foram enfraquecidos, mas não destruídos.
Eles voltam quando o equilíbrio fraqueja, quando a ganância ou o esquecimento tomam conta. Teu papel, guardião, é garantir que isso não aconteça." Itiberê assentiu, sentindo o peso do título. "E como faço isso, Nahely? A vila está mudando, mas as pessoas esquecem fácil. E eu... eu sou só um homem."
O Pagé riu, um som rouco, mas gentil. "Ninguém é só um homem, Itiberê. Tu carregas o sangue dos teus antepassados, o convite de Anaíra, e agora a confiança da vila. Ensina-lhes. Conta as histórias. Faz com que a nova geração cresça sabendo o que a mata significa.
E nunca te esqueças dela." Ele apontou para Tayen, que conversava com Ayra, rindo de algo que a amiga dizia. "Ela é tua força, como tu és a dela." Itiberê olhou para Tayen, e pela primeira vez em dias, sentiu uma leveza no peito. Ele não era mais o pescador que temia a mata, mas também não era um herói das lendas.
Era algo entre os dois, um homem que aprendera a ouvir a floresta e a carregar seu peso. Ele caminhou até Tayen e Ayra, que pararam de conversar ao vê-lo chegar. "Ayra, Tayen," começou ele, a voz firme, mas suave. "Quero que me ajudem a contar as histórias. Não só as de Anaíra, mas as de todos nós.
As crianças precisam saber o que fizemos, o que a mata nos ensinou. Não quero que o juramento seja esquecido outra vez." Ayra sorriu, os olhos brilhando com orgulho. "Tu estás parecendo um líder, Itiberê. Claro que vou ajudar. As crianças já me ouvem quando falo das ervas. Agora, vão ouvir sobre o Coração da Mata."
Tayen segurou a mão dele, o toque quente e firme. "E eu estarei contigo, em cada história, em cada passo. A mata nos uniu, e agora nós a protegemos juntos." Naquele dia, a vila começou a criar um novo costume. À noite, sob a luz das fogueiras, Itiberê, Tayen e Ayra contavam as histórias da mata: o juramento dos antepassados, a batalha contra os Esquecidos, o brilho do Coração da Mata.
As crianças ouviam com olhos arregalados, enquanto os mais velhos, como Dona Raíra e Dona Lúcia, assentiam, lembrando-se das lendas que quase haviam esquecido. Nahely, sempre à parte, observava com um leve sorriso, sabendo que a semente do equilíbrio estava plantada. Mas, enquanto a vila se fortalecia, Itiberê sentia, em raros momentos de silêncio, um leve pulsar no colar.
Era como se a mata o lembrasse: a paz era um presente, mas também uma tarefa. Ele sabia que outros desafios viriam, que os Esquecidos poderiam retornar, ou que novas ameaças surgiriam. Mas, com Tayen ao seu lado, Ayra como sua aliada, Nahely como seu guia, e a vila unida, ele estava pronto.
A mata sussurrava, e ele ouvia. Não mais com medo, mas com propósito. O futuro de Santa Luzia, e da floresta que a abraçava, estava nas mãos de todos eles. E Itiberê, agora guardião, jurou consigo mesmo que nunca deixaria esse eco se calar.
Capítulo 18: O Rio que Canta
O sol nascia com uma luz dourada que dançava sobre o rio, fazendo as águas de Santa Luzia brilharem como se carregassem estrelas líquidas. Itiberê caminhava pela margem, a rede de pesca pendurada no ombro, mas o coração leve como não sentia há tempos. Tayen seguia ao seu lado, os pés descalços tocando a terra úmida, um cesto de palha nas mãos onde guardava ervas colhidas na mata. A vila, agora desperta, ecoava com risos de crianças e o som de machados cortando lenha, sinais de um novo ritmo que unia trabalho e respeito pela floresta.
"Tens certeza de que não vais pescar hoje?" perguntou Tayen, erguendo uma sobrancelha com um sorriso brincalhão. "Ou será que o guardião da mata esqueceu como lançar a rede?" Itiberê riu, o som ecoando pela margem. "Não esqueci, Tayen. Mas hoje o rio não me chama para pescar. Ele canta, e eu quero ouvir." Ele parou, olhando para a correnteza suave, que parecia murmurar algo além do som da água.
Desde a batalha na clareira, ele aprendera a perceber os sinais da mata: um vento que mudava de direção, um pássaro que voava baixo, ou o pulsar sutil do colar contra seu peito. Tayen segurou a mão dele, entrelaçando os dedos. "Tu mudaste, Itiberê. Antes, vias o rio como um lugar para tirar peixes. Agora, ouves a voz dele. Anaíra ficaria orgulhosa."
Ele sorriu, mas antes que pudesse responder, Ayra apareceu correndo pela trilha, o rosto afogueado. "Itiberê! Tayen! Vem depressa! Nahely precisa de vós na grota!" A urgência na voz dela fez Itiberê largar a rede no chão, e Tayen deixou o cesto de lado. Sem hesitar, seguiram Ayra, o coração de Itiberê acelerando com um pressentimento que não sabia explicar.
Na grota, onde a fonte do Coração da Mata brilhava, Nahely estava ajoelhado, as mãos mergulhadas na água cristalina. O Pagé ergueu os olhos ao vê-los, o rosto sério, mas com um brilho de esperança. "A mata falou comigo ao amanhecer," disse ele, a voz grave. "O rio está cantando, Itiberê. Não é só a paz que conquistaste. É um chamado novo, algo que a vila precisa entender."
Itiberê franziu o cenho, sentindo o colar pulsar levemente. "Outro chamado? Pensei que o juramento estava cumprido, Nahely. A vila está unida, a mata está viva. O que mais ela quer de nós?"
Nahely levantou-se, secando as mãos no pano que levava ao ombro. "A mata não é só a floresta, menino. É o rio, o céu, as criaturas que vivem aqui. E agora, o rio pede algo. Há uma nascente, mais ao norte, onde a água nasce pura, mas está enfraquecendo. Se ela secar, o rio que sustenta Santa Luzia morrerá. E com ele, a vila."
Tayen cruzou os braços, os olhos estreitos. "E como sabemos disso? A mata fala contigo, Nahely, mas como vamos convencer a vila a seguir para o norte? Eles estão começando a acreditar, mas ainda temem se afastar demais."
Ayra assentiu, o rosto preocupado. "Ela tem razão. Dona Lúcia e os outros já aceitam as oferendas, mas falar de uma jornada para o norte... vão dizer que é arriscado, que é loucura."
Nahely apontou para a fonte, onde o brilho parecia pulsar em sincronia com o colar de Itiberê. "Mostrem-lhes isto," disse ele. "A fonte é a prova. E tu, Itiberê, és o guardião. Eles te seguirão, se tu acreditares."
Itiberê respirou fundo, olhando para Tayen, que lhe deu um aceno encorajador. Ele sabia que não podia fugir. O rio cantava, e ele precisava responder. Naquela tarde, reuniu a vila na praça, sob a sombra da árvore jovem que já crescia forte. Dona Raíra, Kenai, Dona Lúcia e os outros ouviram enquanto ele contava o que Nahely revelara. Murmúrios de dúvida ecoaram, mas quando Itiberê ergueu o colar e descreveu o pulsar da fonte, o silêncio caiu.
Até Seu Zé, sempre cético, baixou os olhos, pensativo. "Eu não peço que vós acrediteis cegamente," disse Itiberê, a voz firme. "Mas vim à grota com Nahely, Ayra e Tayen. Vimos o brilho, sentimos a mata. O rio nos sustenta, e agora ele precisa de nós. Quem vem comigo ao norte?"
Kenai foi o primeiro a levantar a mão, o machado apoiado no ombro. "Eu vou, Itiberê. Se o rio tá pedindo, a gente tem que ajudar." Dona Raíra sorriu, orgulhosa, e outros começaram a se voluntariar: jovens pescadores, mulheres que conheciam as trilhas, até crianças que insistiam em carregar cestos para a jornada.
Na manhã seguinte, o grupo partiu. Itiberê liderava, com Tayen e Ayra ao seu lado, enquanto Nahely seguia logo atrás, o bastão entalhado marcando o ritmo dos passos. A trilha ao norte era estreita, coberta por raízes e sombras, mas o colar de Itiberê parecia guiá-los, pulsando mais forte a cada passo. O rio, que corria paralelo, cantava baixo, como se os encorajasse.
Após horas de caminhada, chegaram a uma encosta rochosa, onde a nascente brotava, fraca, entre pedras cobertas de musgo seco. O brilho que Itiberê esperava não estava lá, e o ar parecia pesado, como se a mata prendesse a respiração. Nahely tocou a água, franzindo o cenho. "Algo está errado," murmurou. "A nascente está viva, mas bloqueada. Algo impede a água de fluir."
Itiberê olhou ao redor, sentindo um frio familiar. Então, viu: um brilho escuro, como aquele da batalha na clareira, escondido entre as rochas. "Os Esquecidos," sussurrou, a mão apertando o colar. Ele virou-se para o grupo, a voz firme. "Fiquem juntos. A mata nos trouxe aqui, mas os Esquecidos não querem que a nascente viva."
Tayen sacou uma faca pequena, os olhos alertas. "O que fazemos, Itiberê?" perguntou, pronta para lutar ao lado dele. Ayra segurava o amuleto que Nahely lhe dera, enquanto o Pagé traçava símbolos na terra com o bastão.
"Protegemos a nascente," respondeu Itiberê. "Nahely, guia-nos. Tayen, Ayra, fiquem perto. Vamos mostrar aos Esquecidos que a vila não se curva mais."
Nahely começou um cântico baixo, as palavras antigas ecoando como o próprio rio. Itiberê, Tayen e Ayra formaram um círculo ao redor da nascente, enquanto o grupo da vila se unia, mãos dadas, repetindo as palavras do Pagé. O brilho escuro cresceu, transformando-se em sombras que sussurravam dúvidas, mas o colar de Itiberê brilhou mais forte, e a nascente começou a pulsar, a água fluindo com mais vigor.
Quando o cântico terminou, as sombras recuaram, e a nascente jorrou clara, enchendo o ar com um som que parecia música. A vila aplaudiu, e Tayen abraçou Itiberê, rindo. "Tu fizeste de novo, guardião," disse ela, beijando-lhe a testa.
Nahely aproximou-se, o rosto sereno. "O rio canta outra vez, Itiberê. Mas lembra-te: cada vitória é um passo. A mata sempre precisará de ti, e tu dela."
Itiberê olhou para a nascente, para Tayen, para a vila unida atrás dele. O futuro era incerto, mas, enquanto o rio cantasse, ele sabia que tinham força para enfrentá-lo. Juntos.
Capítulo 19: O Legado de Santa Luzia
O sol nascia sobre Santa Luzia com uma clareza que parecia nova, como se a própria mata tivesse soprado vida ao amanhecer. Itiberê acordou cedo, como de costume, mas desta vez não foi ao rio para pescar. Em vez disso, sentou-se na varanda da casa de Dona Raíra, o colar de sementes e penas repousando em suas mãos, agora um símbolo não apenas de dever, mas de conquista. Ao seu lado, Tayen trançava uma pulseira de cipós, seus dedos ágeis movendo-se com a mesma graça com que falava das histórias da vila.
O silêncio entre eles era leve, um entendimento que não precisava de palavras. A vila estava diferente. As casas de taipa e palha pareciam mais vivas, adornadas com flores e oferendas que os moradores agora deixavam às margens do rio. As crianças, guiadas por Ayra, corriam pela praça, rindo enquanto aprendiam os nomes das árvores e das ervas, suas vozes ecoando como um canto de esperança. Kenai, com seu jeito firme, liderava um grupo que reforçava a cerca viva ao redor da vila, plantando mudas de jatobá e ipê, um gesto que selava o compromisso renovado com a mata.
Dona Raíra, sempre vigilante, observava tudo com um sorriso discreto, o orgulho pelo filho misturado à serenidade de quem via a harmonia retornar. Nahely, o Pagé, tornara-se uma presença constante na vida da vila. Ele não mais se isolava em sua choupana, mas caminhava entre os moradores, ensinando os rituais antigos e contando histórias que faziam os mais velhos lembrarem e os mais jovens sonharem. Naquela manhã, ele chamou Itiberê, Tayen e Ayra para uma conversa à sombra da grande árvore da praça, aquela que diziam ser tão antiga quanto a própria Santa Luzia.
"Itiberê," começou Nahely, o bastão entalhado apoiado no chão, "a mata está em paz, mas a paz é frágil. O Coração da Mata brilha novamente, mas ele precisa de guardiões. Não apenas tu, mas todos vós." Seus olhos passaram por Tayen e Ayra, que ouviam com atenção. "A vila aprendeu, mas o mundo lá fora não. Há homens que cortam sem pensar, que tomam sem devolver. O juramento que renovaste, Itiberê, deve ser levado além do rio."
Itiberê sentiu o peso das palavras, mas, pela primeira vez, não era um fardo que o assustava. Ele olhou para Tayen, cujo olhar firme o ancorava, e para Ayra, cuja curiosidade parecia iluminar o caminho. "O que queres que façamos, Nahely?" perguntou ele, a voz serena, mas decidida. "A mata nos guiou até aqui, mas como levamos esse equilíbrio para além?"
O Pagé sorriu, algo raro em seu rosto marcado pelo tempo. "Começais pelos que estão mais perto. Há vilas ao longo do rio, comunidades que, como Santa Luzia, esqueceram a mata. Leva-lhes o que aprendeste. Conta-lhes do Coração da Mata, dos Esquecidos, do juramento. Mas não vás sozinho. A força de Santa Luzia está na união, e tu, Itiberê, não és mais apenas o pescador. És o guardião, e tens contigo aqueles que compartilham teu convite."
Tayen pousou a mão no ombro de Itiberê, a pulseira de cipós agora terminada, brilhando ao sol. "Eu irei contigo," disse ela, a voz suave, mas inabalável. "A mata me ensinou tanto quanto a ti. E quero que nossas filhas cresçam num mundo onde o rio cante como hoje." Itiberê sentiu o peito aquecer com suas palavras, a promessa de um futuro juntos entrelaçada com o dever que agora abraçava.
Ayra, sempre inquieta, cruzou os braços, um sorriso travesso nos lábios. "E eu não fico pra trás. Alguém precisa garantir que as histórias sejam contadas direito, não é? Além disso, quero ver essas outras vilas. Quem sabe o que mais a mata esconde?" Sua leveza trouxe um riso baixo a Nahely, que assentiu com aprovação.
Naquele dia, a vila se reuniu mais uma vez na praça, não por medo ou dúvida, mas por celebração. Dona Lúcia organizou um grande almoço comunitário, com peixes assados, mandioca cozida e frutas colhidas com cuidado para não ferir a mata. As crianças dançavam ao som de um tambor improvisado, enquanto os mais velhos contavam histórias de outros tempos, agora misturadas com as novas lendas de Itiberê, o guardião da mata.
Quando a noite caiu, Itiberê, Tayen e Ayra caminharam até a margem do rio, onde a luz da lua refletia na água como um espelho. Nahely os acompanhou, carregando um pequeno cesto com oferendas: sementes, flores e uma pedra polida que brilhava como a fonte da grota. Juntos, eles fizeram um ritual simples, agradecendo à mata pela força que lhes dera e prometendo levá-la adiante.
"Itiberê," disse Nahely, enquanto depositava as oferendas na correnteza, "o rio leva tuas promessas, mas também traz os sonhos dos outros. Ouve-os. A mata não é só de Santa Luzia. Ela é de todos que a respeitam." Itiberê olhou para o rio, sentindo a presença de Anaíra, não como uma voz ou uma visão, mas como uma certeza em seu peito. Ele segurou a mão de Tayen, que sorriu, e olhou para Ayra, que já planejava a próxima aventura com um brilho nos olhos.
"Nós vamos," disse ele, a voz firme. "Por Santa Luzia, pela mata, por todos que virão depois de nós." E, enquanto o rio cantava sua canção antiga, Itiberê soube que o legado de sua vila estava apenas começando. A mata os guiaria, e eles, juntos, levariam seu convite ao mundo.
Capítulo 20: O Rito da União
A manhã em Santa Luzia amanheceu com uma brisa suave, como se a própria mata abençoasse o dia com seu sopro. O rio refletia o céu claro, e as árvores ao redor da vila pareciam mais verdes, suas folhas dançando ao vento com uma alegria silenciosa. Era o dia do casamento de Itiberê e Tayen, um momento que a vila aguardava com fervor, não apenas como uma celebração de amor, mas como um marco do novo equilíbrio que todos haviam ajudado a construir.
A praça central foi transformada para o ritual. Ramos de ipê e jatobá enfeitavam o chão, formando um círculo natural ao redor da grande árvore da vila, sob a qual Nahely, o Pagé, conduziria a cerimônia. Mulheres, lideradas por Dona Raíra, trançaram guirlandas de flores silvestres, enquanto os homens, sob o comando de Kenai, construíram um arco de madeira adornado com cipós e penas. Ayra, com sua energia incansável, corria entre todos, ajudando a organizar as oferendas e garantindo que as crianças não atrapalhassem os preparativos.
Itiberê, vestido com uma túnica simples de linho tingida com urucum, sentia o coração pulsar com uma mistura de nervosismo e certeza. O colar de sementes e penas, agora um símbolo de seu papel como guardião, pendia em seu peito, quente como sempre. Ele olhou para a multidão que se reunia: rostos conhecidos, sorrisos familiares, todos partilhando daquele momento.
Dona Raíra aproximou-se, os olhos brilhando de emoção. "Teu pai estaria orgulhoso, meu filho," disse ela, pousando a mão em seu ombro. "Tu trouxeste a mata de volta a nós, e agora trazes Tayen para nossa família." Antes que Itiberê pudesse responder, um murmúrio percorreu a praça. Tayen apareceu, caminhando lentamente em direção ao círculo. Ela usava uma veste leve, tecida com fibras de buriti e adornada com pequenas conchas do rio, que brilhavam à luz do sol. Uma coroa de flores brancas repousava em seus cabelos, e seus olhos, firmes e serenos, encontraram os de Itiberê.
Ele sentiu o peito apertar, não de medo, mas de uma alegria que parecia maior que ele mesmo. Nahely ergueu o bastão entalhado, chamando a atenção de todos. O Pagé estava imponente, com uma túnica de algodão cru e um colar de pedras polidas que refletiam a luz. Ele pediu silêncio, e a vila obedeceu, até o canto dos pássaros parecer pausar em respeito. "Hoje," começou Nahely, a voz grave ecoando na praça, "unimos não apenas duas almas, mas dois corações que batem com a mata.
Itiberê, guardião do Coração da Mata, e Tayen, filha do rio, vós sois o reflexo do equilíbrio que buscamos. A mata vos escolheu, e agora vós vos escolheis." Ele acendeu um pequeno braseiro no centro do círculo, onde folhas de guaçatonga e sementes de cumaru começaram a queimar, liberando um aroma doce que se misturava ao ar. Nahely pegou uma cabaça com água da fonte da grota, a mesma que pulsara com o brilho do Coração da Mata, e derramou um pouco no chão, como oferenda. "Anaíra nos observa," continuou ele.
"O rio canta, a mata respira. Itiberê e Tayen, vós prometestes proteger este equilíbrio. Agora, prometei-vos um ao outro, diante da vila e da Mãe da Noite." Itiberê deu um passo à frente, segurando as mãos de Tayen. Seus olhos se encontraram, e por um instante, o mundo pareceu se resumir a eles dois. "Tayen," disse ele, a voz firme apesar da emoção, "contigo aprendi que a mata não é só um dever, mas um lar. Prometo-te meu coração, minha força, meu caminho. Que a mata nos guie, juntos, para sempre."
Tayen sorriu, seus olhos brilhando com lágrimas contidas. "Itiberê," respondeu ela, a voz clara como o rio, "tu trouxeste luz à vila e ao meu coração. Prometo-te estar ao teu lado, na paz e na luta, na mata e no rio. Que nosso amor seja como a árvore-mãe, forte e eterno."
Nahely ergueu as mãos, e a vila irrompeu em aplausos, mas ele pediu silêncio novamente. Pegou duas pulseiras de cipós, idênticas às que Tayen trançara outrora, e as entregou ao casal. "Estas pulseiras," disse ele, "são feitas com a fibra da mata, abençoadas pela água da fonte. Que elas vos lembrem do laço que une vós e a floresta." Itiberê e Tayen colocaram as pulseiras um no outro, selando a união com um toque que parecia carregar a energia da própria mata.
O Pagé então levantou o bastão, apontando para o céu. "Que Anaíra, Mãe da Noite, abençoe esta união. Que o rio cante vossa história, que a mata guarde vossos passos. Sois agora um, como a vila é uma com a floresta." Ele jogou mais folhas no braseiro, e a fumaça subiu em espirais, como se levasse as palavras ao céu.
A vila celebrou com música e dança. Tambores ecoavam, e as crianças, lideradas por Ayra, formaram uma roda, cantando versos antigos que Dona Raíra lhes ensinara. Kenai, com um raro sorriso, servia cumbucas de peixe assado, enquanto Dona Lúcia distribuía bolos de mandioca. Nahely permaneceu ao lado do casal, observando com uma expressão que misturava satisfação e vigilância. "A mata está em paz," disse ele a Itiberê, em voz baixa.
"Mas lembra-te, guardião: o equilíbrio exige cuidado constante. Tu e Tayen sois agora o coração da vila." Itiberê assentiu, sentindo o peso e a honra daquelas palavras. Ele olhou para Tayen, que dançava com Ayra, rindo como se o mundo fosse leve. A vila, a mata, o rio, tudo parecia em harmonia, mas ele sabia que o trabalho nunca terminaria. Com Tayen ao seu lado, porém, ele sentia que podia carregar qualquer fardo.
Quando a noite caiu, o casal caminhou até a margem do rio, agora sozinhos, sob o olhar da lua. Itiberê segurou a mão de Tayen, a pulseira de cipós roçando sua pele. "Tu és meu equilíbrio," disse ele, quase num sussurro. Tayen sorriu, apertando sua mão. "E tu és o meu, Itiberê. Que o rio sempre cante para nós."
E, enquanto as estrelas brilhavam acima, a mata parecia sussurrar uma bênção, como se Anaíra, em silêncio, aprovasse o novo capítulo que começava.
Capítulo 21: A Sombra que Permanece
O sol nascia sobre Santa Luzia, banhando a vila com uma luz dourada que parecia abençoar cada casa, cada árvore replantada, cada oferenda deixada à beira do rio. O casamento de Itiberê e Tayen, celebrado por Nahely sob as bênçãos de Anaíra, trouxe à vila um novo alento, como se a mata e os homens tivessem, enfim, selado uma paz duradoura. As crianças corriam pela praça, rindo, enquanto os mais velhos contavam histórias do ritual, da luz que envolveu o casal e do canto da floresta que ecoou na noite.
Mas, no peito de Itiberê, uma inquietação ainda pulsava, sutil, mas persistente. Ele acordou cedo, como de costume, e foi até a margem do rio, onde agora uma pequena canoa descansava, presente de Kenai para as viagens que ele e Tayen fariam juntos. Tayen ainda dormia na casa que agora dividiam, um sorriso sereno no rosto, como se a mata a tivesse acolhido como filha. Itiberê segurava o colar de sementes e penas, que nunca deixava de carregar, e olhava para a floresta do outro lado do rio. A mata estava viva, vibrante, mas algo o incomodava.
O brilho escuro, aquele sussurro frio dos Esquecidos, não aparecera desde a noite na clareira, mas ele sabia que não estavam derrotados. Nahely o advertira: as sombras nunca desaparecem por completo; elas esperam, pacientes, por uma brecha. Enquanto observava o rio, Ayra se aproximou, os pés descalços na terra úmida. "Tu estás com aquele olhar outra vez, Itiberê," disse ela, a voz leve, mas com um traço de preocupação. "O que te inquieta? A vila nunca esteve tão unida, a mata nunca cantou tão alto."
"É exatamente isso que me preocupa," respondeu ele, a voz baixa. "Tudo parece... perfeito demais. Mas os Esquecidos não desistiram. Eu sinto, Ayra. Sinto eles na mata, como uma sombra que não explica."
Ayra cruzou os braços, olhando para a floresta com ele. "Nahely diz que as sombras sempre existirão enquanto houver homens que esquecem. Mas tu e Tayen, vós sois o equilíbrio agora. O juramento foi renovado, e a vila está contigo. O que mais te falta?"
Itiberê hesitou, a mão apertando o colar. "Não sei. Talvez eu tema que a paz seja frágil. Que eu não seja suficiente para mantê-la." Ele olhou para Ayra, buscando nos olhos dela a certeza que lhe faltava. "E se os Esquecidos voltarem? E se tentarem ferir a vila... ou Tayen?"
Antes que Ayra pudesse responder, Nahely surgiu na trilha, o bastão entalhado firme na mão. "Itiberê," chamou o Pagé, a voz grave ecoando como o próprio rio. "Vem comigo. Há algo que precisas ver antes que o dia avance." Tayen, que acabara de acordar e os seguira, juntou-se a eles, o olhar curioso, mas firme. Itiberê segurou a mão dela, sentindo o calor que o ancorava, e os quatro Itiberê, Tayen, Ayra e Nahely seguiram para a mata.
O Pagé os levou a um lugar novo, uma parte da floresta que Itiberê nunca explorara, apesar de todas as suas caminhadas. Era uma encosta rochosa, onde uma caverna pequena se abria, quase escondida por trepadeiras e musgo. O ar ali era frio, e o silêncio parecia mais denso, como se a mata prendesse a respiração. Nahely parou à entrada da caverna e apontou para o chão, onde marcas estranhas, como garras, riscavam a terra.
"Os Esquecidos estão inquietos," disse ele, a voz carregada de advertência. "O equilíbrio que trouxeste, Itiberê, os enfraqueceu, mas também os despertou. Eles sabem que a vila está forte, que o Coração da Mata pulsa novamente. Mas aqui, nesta caverna, há um eco antigo, um lugar onde o juramento foi quebrado pela primeira vez."
Tayen apertou a mão de Itiberê, os olhos brilhando com determinação. "O que há dentro da caverna, Nahely?" perguntou ela, a voz firme, apesar do ambiente opressivo. "É algo que precisamos enfrentar?"
Nahely assentiu, lento. "É um lugar de memórias, Tayen. Um lugar onde os primeiros de vossa linhagem fizeram o juramento a Anaíra... e onde o traíram, levando da mata algo que não deviam. Não sei o que é, mas a mata me trouxe até aqui em sonhos. E agora, ela trouxe vós."
Itiberê sentiu o colar esquentar no peito, como se respondesse às palavras do Pagé. Ele olhou para Tayen, depois para Ayra, que segurava uma faca pequena, pronta para qualquer ameaça. "Se é algo que precisamos enfrentar, enfrentaremos juntos," disse ele, tentando soar mais confiante do que se sentia. "Mas o que buscamos? Como saber o que a mata quer?"
Nahely ergueu o bastão, e as marcas entalhadas pareceram brilhar levemente. "A mata não quer, Itiberê. Ela exige. Entrai na caverna, mas mantende-vos juntos. O que encontrardes lá será a última prova do teu compromisso com o juramento."
Os quatro entraram, a luz do sol ficando para trás. A caverna era estreita, o teto baixo, e o ar parecia carregado de algo antigo, como se o próprio tempo estivesse preso ali. As paredes eram cobertas de desenhos rudimentares: figuras humanas, árvores, rios, e algo que parecia um coração pulsando, cercado por sombras. Itiberê sentiu um arrepio, mas a presença de Tayen ao seu lado, a mão dela firme na sua, o mantinha ancorado.
No fundo da caverna, havia uma pedra lisa, como um altar, e sobre ela, um objeto pequeno, envolto em raízes secas. Era uma semente, maior que qualquer outra que Itiberê já vira, negra e brilhante, mas com rachaduras que pareciam sangrar uma luz fraca. Nahely se aproximou, os olhos arregalados. "É isto," murmurou. "O que foi roubado. Uma semente do Coração da Mata."
Antes que pudessem tocar a semente, o ar ficou gelado, e um sussurro cortante encheu a caverna. "Vós não a tereis," disse uma voz, múltipla, como se várias sombras falassem ao mesmo tempo. "A mata traiu-nos, e vós também traireis." Itiberê puxou Tayen para trás, enquanto Ayra ergueu a faca, e Nahely bateu o bastão no chão, fazendo o símbolo nas paredes brilhar.
"Mostrai-vos, Esquecidos!" gritou Nahely. "Vossa força acabou quando a vila se uniu!" Mas as sombras não tomaram forma. Em vez disso, o chão tremeu, e as raízes ao redor da semente se moveram, como se tentassem protegê-la. Itiberê sentiu o colar queimar contra o peito, e, sem pensar, avançou, puxando a semente das raízes.
No instante em que a tocou, uma luz explodiu, cegando-os. Ele viu flashes de memórias que não eram suas: homens cortando árvores sem oferecer nada em troca, rios secando, a mata gritando. E então, a voz de Anaíra, clara e firme: "Devolve o que foi tomado, Itiberê. Plante a semente, e o juramento será completo."
Quando a luz se dissipou, estavam fora da caverna, a semente ainda na mão de Itiberê. As sombras haviam sumido, mas ele sabia que não estavam derrotadas para sempre. Tayen tocou o ombro dele, os olhos cheios de esperança. "Vamos plantar isso juntos," disse ela. "Na clareira, onde tudo começou."
Nahely assentiu, um raro sorriso cruzando seu rosto. "A mata confia em vós, Itiberê. E eu também." Ayra deu um tapinha no braço dele, brincalhona. "Vamos, guardião. Não deixa a tua noiva fazer todo o trabalho."
Eles voltaram à clareira sob a luz do crepúsculo, e ali, ao pé da árvore-mãe, Itiberê e Tayen cavaram a terra juntos, plantando a semente. Quando a cobriram, o chão pareceu suspirar, e um vento suave trouxe o canto da mata, mais claro, mais vivo. Mas, no fundo do coração de Itiberê, ele sabia: as sombras ainda espreitavam, e a paz que haviam conquistado precisaria ser defendida, dia após dia.
Capítulo 22: O Despertar da Floresta
O amanhecer em Santa Luzia trouxe uma brisa fresca, como se a própria mata soprasse alívio após a noite de tensão. Itiberê acordou com o coração leve, ainda envolto pela memória do rito que o unira a Tayen. O colar, agora compartilhado com ela, repousava no peito de ambos, um símbolo do vínculo não só entre eles, mas com a floresta que os escolhera. Contudo, o sussurro frio que ele ouvira na véspera, a promessa dos Esquecidos de que voltariam, pesava como uma nuvem escura no horizonte.
Ao lado de Tayen, ele caminhou até a praça da vila, onde os moradores já se reuniam. O ar estava diferente, mais vivo, como se a mata respondesse aos esforços da comunidade. As crianças, guiadas por Ayra, entoavam canções antigas que Dona Iracema lhes ensinara, enquanto Kenai organizava grupos para limpar o rio e replantar mudas nas áreas desmatadas. Dona Raíra, com seu jeito firme, coordenava as mulheres na preparação de oferendas, cestas de frutas e flores que seriam levadas à clareira ao entardecer.
Nahely, o Pagé, estava no centro da praça, o bastão entalhado fincado no chão como um marco. Seus olhos, sempre atentos, encontraram Itiberê. "Vem comigo, menino," disse, a voz grave. "E traz tua noiva. A mata tem algo a vos mostrar hoje." Tayen apertou a mão de Itiberê, um gesto que lhe deu coragem, e os dois seguiram o Pagé, acompanhados por Ayra, cuja curiosidade parecia tão grande quanto sua determinação.
A trilha até a clareira era familiar, mas parecia diferente. As árvores estavam mais verdes, os pássaros cantavam com uma força que Itiberê não ouvia há tempos, e até o chão sob seus pés parecia pulsar com vida. "A mata está despertando," murmurou Nahely, como se lesse os pensamentos de Itiberê. "Teu juramento, e o da vila, está trazendo o equilíbrio de volta. Mas os Esquecidos não desistem fácil. Eles sentem a força que cresce e vão tentar atacar onde somos mais fracos."
"Fracos onde?" perguntou Tayen, a voz firme, mas com um traço de preocupação. Ela segurava o colar com uma das mãos, como se buscasse força nas sementes que o compunham.
Nahely parou, apontando para a clareira que agora surgia à frente. "Na dúvida. Na divisão. A mata é forte quando estamos unidos, mas os Esquecidos semeiam desconfiança. Eles vão tentar quebrar o que construímos." Itiberê sentiu um arrepio, lembrando o sussurro da noite anterior. Ele olhou para Tayen, depois para Ayra, e viu nelas a mesma determinação que começava a crescer dentro dele.
Na clareira, a árvore-mãe parecia ainda mais imponente, suas raízes brilhando com uma luz suave que não estava lá antes. No centro, onde outrora havia apenas terra, agora brotava uma pequena planta, com folhas de um verde tão vivo que parecia impossível. Nahely ajoelhou-se diante dela, tocando-a com reverência. "O Coração da Mata está renascendo," disse ele. "Mas ele ainda é frágil. Precisa de proteção, de cuidado, e de todos nós."
Itiberê sentiu o peso da responsabilidade, mas também uma força nova. Ele não estava sozinho. Tayen, ao seu lado, segurava sua mão com firmeza, e Ayra, com seu olhar afiado, já pensava em como mobilizar a vila para proteger aquela planta. "O que precisamos fazer?" perguntou Itiberê, a voz mais segura do que nunca.
Capítulo 23: O Legado de Ayra
O sol pairava baixo sobre Santa Luzia, tingindo o céu de um vermelho suave que parecia sussurrar despedidas. A vila, agora mais unida do que nunca, trabalhava com afinco para proteger o broto do Coração da Mata. Itiberê, Tayen e Nahely passavam os dias na clareira, ensinando os moradores a cuidar da planta sagrada, enquanto as oferendas se multiplicavam às margens do rio. Mas, sob a superfície de esperança, uma sombra crescia, e Itiberê sentia-a em cada brisa fria que atravessava a mata.
Ayra, com sua energia incansável, continuava a guiar as crianças, ensinando-lhes as canções e os segredos da floresta. Sua filha, Soyala, uma jovem de olhos vivos e cabelos negros como a noite, seguia-a de perto, absorvendo cada palavra com uma devoção que todos notavam. Soyala tinha a mesma chama da mãe, mas com uma quietude que parecia carregar a sabedoria da mata em seu coração. Ayra, orgulhosa, dizia a todos que sua filha seria a ponte entre a vila e a floresta no futuro.
Naquela manhã, porém, algo estava diferente. Ayra acordara pálida, com uma tosse que não explicava. "É só o cansaço," dissera ela a Itiberê, forçando um sorriso. Mas ele via a fraqueza em seus olhos, e Tayen, sempre atenta, insistiu que ela descansasse. Ayra, teimosa como sempre, recusou. "A mata não espera, Tayen," respondeu, a voz rouca. "E eu tenho muito a ensinar à Soyala antes que meu tempo chegue."
As palavras dela ecoaram em Itiberê como um presságio. Ele quis protestar, mas Nahely, que observava em silêncio, pôs a mão em seu ombro. "Deixa-a," murmurou o Pagé. "Ela sabe o que faz. A mata fala com ela de um jeito que nem tu compreendes ainda." Relutante, Itiberê cedeu, mas não sem um peso no peito.
Ao entardecer, enquanto a vila se preparava para mais uma oferenda na clareira, Ayra chamou Soyala para perto da árvore-mãe. "Filha minha," disse ela, a voz fraca, mas firme, "o Coração da Mata é mais do que uma planta. É o espírito de tudo o que vive aqui. Tu vais carregá-lo quando eu não estiver mais." Soyala, com lágrimas nos olhos, tentou falar, mas Ayra a interrompeu com um gesto. "Não chores. A mata não morre, e eu serei parte dela. Promete-me que cuidarás dela, que ensinarás os outros como eu te ensinei."
"Prometo, mãe," respondeu Soyala, a voz embargada. Ayra sorriu, tocando o rosto da filha com uma ternura que fez o coração de Itiberê apertar. Ele e Tayen, que assistiam de longe, sentiram o ar mudar, como se a própria mata segurasse a respiração.
Naquela noite, Ayra não voltou para a vila. Durante o ritual, enquanto as oferendas eram colocadas ao redor do broto, ela caiu de joelhos, o corpo trêmulo. Itiberê correu até ela, mas Nahely, com uma calma solene, segurou-o. "É o chamado dela, menino," disse o Pagé. "A mata a está levando." Soyala, ao lado da mãe, segurava sua mão, as lágrimas caindo silenciosamente. Ayra olhou para a filha uma última vez, seus olhos brilhando com a luz da árvore-mãe. "Tu és minha herdeira, Soyala. A mata confia em ti."
Quando a luz da lua tocou a clareira, Ayra suspirou profundamente, e seu corpo pareceu dissolver-se na terra, como se a floresta a reclamasse. Um brilho suave envolveu o broto do Coração da Mata, que cresceu um pouco mais, suas folhas vibrando com uma energia nova. Soyala, ainda de joelhos, segurou o colar que a mãe usava, agora passado a ela, e jurou em silêncio cumprir sua promessa.
Itiberê, Tayen e Nahely ficaram em silêncio, o peso da perda misturado com a certeza de que Ayra não se fora de todo. "Ela está na mata," disse Nahely, a voz firme. "E Soyala carrega seu legado. Mas os Esquecidos vão sentir essa mudança. Eles vão tentar atacar agora, enquanto choramos."
Itiberê olhou para Soyala, que se levantava, os olhos vermelhos, mas com uma determinação que lembrava a mãe. "O que fazemos agora?" perguntou ele, sentindo o colar quente contra o peito.
Nahely apontou para o broto, que agora brilhava com mais força. "Protegemos o Coração da Mata. Soyala, tu vais liderar as crianças, como tua mãe fazia. Itiberê, Tayen, vós deveis unir a vila ainda mais. Os Esquecidos vão tentar nos dividir, mas a força de Ayra vive em todos nós."
Soyala deu um passo à frente, o colar de Ayra reluzindo em seu pescoço. "Eu não deixarei a mata cair," disse ela, a voz clara apesar da dor. "Por minha mãe, pelo juramento, pela vila." Itiberê sentiu um orgulho profundo, misturado com a tristeza. Ele sabia que o caminho à frente seria árduo, mas, com Soyala, Tayen e Nahely ao seu lado, a mata tinha uma chance.
Naquela noite, enquanto a vila velava a memória de Ayra, Itiberê olhou para a floresta. Um brilho escuro, quase imperceptível, piscou entre as árvores, mas ele não sentiu medo. Com Tayen de mãos dadas e Soyala carregando o legado da mãe, ele sabia que estavam prontos para enfrentar o que viesse.
Capítulo 24: O Nascimento de Kalyon
A primavera chegara a Santa Luzia com uma suavidade que parecia um presente da mata. As árvores ao redor da vila floresciam com cores vibrantes, e o rio, agora mais limpo graças aos esforços da comunidade, refletia o céu como um espelho de safira. Itiberê sentia uma paz que não conhecia há tempos, mas também uma expectativa que o mantinha inquieto. Tayen, sua esposa, carregava em si a promessa de uma nova vida, e os dias pareciam pulsar com a mesma energia que ele sentira na clareira quando o Coração da Mata renascera.
A vila inteira parecia compartilhar dessa espera. Dona Raíra, com seu jeito firme, preparava chás de ervas para Tayen, enquanto Nahely, o Pagé, entoava cânticos antigos para abençoar a chegada do novo membro da comunidade. Soyala, agora uma jovem mulher que carregava o legado de Ayra com graça e determinação, passava horas com Tayen, ensinando-a os segredos das plantas que sua mãe adotiva lhe transmitira.
A memória de Ayra ainda pairava sobre a vila, mas Soyala transformava a dor da perda em ação, liderando as crianças em cantos e histórias que mantinham viva a conexão com a mata. Numa noite clara, sob um céu cravejado de estrelas, o momento chegou. Itiberê estava na varanda da casa, o colar de sementes quente contra o peito, quando ouviu o grito de Tayen vindo do quarto.
Ele correu para dentro, o coração disparado, e encontrou Dona Raíra e Soyala ao lado da esposa. Nahely, com seu bastão entalhado, estava à porta, murmurando preces que ecoavam como o vento entre as árvores. O ar estava carregado de uma energia quase palpável, como se a própria mata assistisse. "É agora, Itiberê," disse Soyala, com um sorriso que misturava ansiedade e alegria. "A mata está contigo."
Tayen, com o rosto suado mas sereno, segurou a mão dele com força. Horas se passaram, marcadas por suspiros, preces e o apoio silencioso da vila, que se reunia do lado de fora, cantando baixinho as canções que Ayra tanto amava. Quando o primeiro choro ecoou, a vila inteira pareceu prender o fôlego. Dona Raíra ergueu uma criança pequena, de olhos brilhantes como os de Tayen, mas com um traço da determinação de Itiberê.
"É um menino," anunciou ela, a voz embargada de emoção. "Kalyon, assim o chamarás, como prometeste à mata." Itiberê tomou o filho nos braços, sentindo o peso e a leveza daquele momento. Kalyon, com a pele morena brilhando à luz da lamparina, parecia carregar em si algo da floresta: uma calma profunda, como o rio, e uma força oculta, como as raízes da árvore-mãe. Tayen, exausta mas radiante, tocou o rosto do filho.
"Ele é nosso, mas também da mata," sussurrou ela. "Sinto isso." Nahely aproximou-se, colocando uma mão sobre a cabeça de Kalyon. "Este menino nasceu sob o olhar de Anaíra," disse o Pagé. "O Coração da Mata pulsa forte nele. Mas com ele vem uma responsabilidade maior, Itiberê. Os Esquecidos ainda espreitam, e um novo guardião significa um novo alvo." Itiberê sentiu um arrepio, mas não de medo.
Era como se a chegada de Kalyon tivesse reacendido sua própria determinação. Ele olhou para Soyala, que segurava um pequeno amuleto de madeira, idêntico ao que Nahely lhe dera outrora. "Kalyon será protegido," disse ela, com a firmeza que herdara de Ayra. "A vila o protegerá. E eu ensinarei a ele tudo o que minha mãe me ensinou." Naquela noite, a vila celebrou.
Fogos de lenha crepitavam na praça, e cânticos ecoavam, misturando-se ao som do rio. Itiberê e Tayen, com Kalyon nos braços, receberam as bênçãos dos moradores. Kenai, sempre prático, trouxe uma pequena canoa de brinquedo que esculpira para o menino, rindo ao dizer que ele seria um pescador como o pai. Dona Raíra, com lágrimas nos olhos, abraçou o neto, murmurando preces para que ele crescesse forte.
Mas, enquanto a vila festejava, Itiberê sentiu um leve calafrio. No canto dos olhos, entre as árvores ao longe, ele viu um brilho escuro, fugaz como uma sombra. Os Esquecidos não haviam desaparecido, apenas recuado. Ele apertou Kalyon contra o peito, o colar pulsando quente. "Tu serás forte, meu filho," sussurrou. "E a mata te guardará, como nos guarda." A chegada de Kalyon era mais do que um nascimento.
Era um novo capítulo no juramento que unia a vila à floresta. Itiberê sabia que os desafios não haviam acabado, mas, com Tayen, Soyala, Nahely e a vila ao seu lado, ele sentia que o equilíbrio, tão arduamente conquistado, agora tinha um novo guardião. E, enquanto as estrelas brilhavam sobre Santa Luzia, a mata parecia cantar, como se saudasse o futuro que Kalyon representava.
Capítulo 25: A Sombra que Cresce
Os anos passaram em Santa Luzia como as águas do rio, calmos na superfície, mas com correntes profundas que moldavam o destino da vila. Kalyon, o filho de Itiberê e Tayen, crescia forte, com olhos curiosos que pareciam enxergar além do que os outros viam. Aos cinco anos, ele já corria pelas trilhas com Soyala, aprendendo os nomes das árvores e as canções que Ayra deixara como herança. A vila prosperava, com a mata mais verde e o rio mais vivo, como se o equilíbrio prometido por Anaíra finalmente se enraizasse.
Mas Itiberê, mesmo em meio à paz, nunca esquecia o brilho escuro que vira na noite do nascimento de seu filho. A cada entardecer, quando o sol tingia o céu de vermelho, ele olhava para a floresta com uma mistura de reverência e cautela. O colar de sementes, agora usado por ele, Tayen e Kalyon, parecia pulsar com mais força em certos dias, como se a mata tentasse avisá-lo de algo. Nahely, agora mais curvado pelo peso dos anos, continuava vigilante, ensinando a Kalyon os segredos dos rituais e alertando Itiberê sobre os Esquecidos. "Eles não se foram," dizia o Pagé.
"Apenas esperam. A força da mata os enfraquece, mas a fraqueza dos homens os fortalece." Numa tarde quente, enquanto Itiberê ajudava Kenai a reforçar uma ponte sobre o rio, Soyala chegou correndo, o rosto pálido. "Itiberê, vem rápido!" exclamou ela, a voz tremendo. "É Kalyon. Ele viu algo na mata." O coração de Itiberê disparou. Ele largou os troncos e seguiu Soyala, com Kenai logo atrás. Tayen já estava na trilha, segurando Kalyon, que tremia, os olhos arregalados fixos na floresta.
"O que aconteceu, meu filho?" perguntou Itiberê, ajoelhando-se ao lado do menino. Kalyon, com a voz pequena mas clara, apontou para as árvores. "Era uma sombra, pai. Não como as outras. Ela falou comigo. Disse que a mata não é nossa amiga, que ela vai nos trair." Tayen apertou o filho contra o peito, o olhar buscando o de Itiberê. "Os Esquecidos," murmurou ela. Soyala assentiu, o amuleto de madeira pendurado em seu pescoço brilhando levemente. "Ele estava comigo, aprendendo a colher ervas," explicou ela. "De repente, parou e ficou olhando para a mata.
Eu não vi nada, mas senti... um frio. Como naquela noite, Itiberê, quando tu enfrentaste eles na clareira." Itiberê segurou o colar, sentindo-o quente. "Onde está Nahely?" perguntou, a voz firme, mas carregada de urgência. Kenai apontou para a choupana do Pagé. "Ele estava preparando um novo ritual para a árvore-mãe. Disse que sentia a mata inquieta." Sem perder tempo, Itiberê levou Kalyon nos braços e seguiu para a choupana, com Tayen, Soyala e Kenai ao seu lado. Nahely estava sentado diante do braseiro, as cinzas do último ritual ainda espalhadas no chão.
Seus olhos se estreitaram ao ver Kalyon. "O menino viu os Esquecidos," disse o Pagé, sem precisar de explicações. "Eles estão mais ousados. Sabem que Kalyon carrega o futuro do juramento." Ele pegou um punhado de sementes negras e as jogou no fogo, que crepitou com uma chama verde. "A sombra que falou com ele não é um espírito qualquer. É o líder deles, aquele que se rebelou contra Anaíra quando o juramento foi quebrado." "Como assim, líder?" perguntou Itiberê, o peito apertado. "E por que agora? A mata está mais forte, a vila está unida!"
Nahely levantou-se, apoiando-se no bastão. "Porque Kalyon é o futuro, Itiberê. Os Esquecidos sabem que, enquanto ele crescer, o Coração da Mata ficará mais forte. Eles querem semear a dúvida nele, como tentaram contigo. Mas ele é jovem, e sua fé na mata ainda é frágil." O Pagé olhou para Kalyon, que segurava a mão de Tayen com força. "Menino, o que a sombra te disse, exatamente?" Kalyon hesitou, mas falou, a voz tremendo. "Ela disse que a mata não me quer, que eu não sou como meu pai. Que, se eu ficar, ela vai me levar." Itiberê sentiu a raiva crescer, mas também o medo.
Ele sabia o poder das palavras dos Esquecidos, como elas podiam corroer até a alma mais forte. Nahely ajoelhou-se diante de Kalyon, os olhos gentis, mas firmes. "Escuta-me, pequeno. A mata te escolheu antes mesmo de nasceres. O colar que carregas é prova disso. Os Esquecidos mentem porque temem o que tu serás. Mas tu não estás sozinho. Teu pai, tua mãe, Soyala, eu, a vila inteira... somos teus guardiões, como tu és o nosso." Itiberê olhou para Tayen, que assentiu, os olhos brilhando com determinação.
"O que precisamos fazer, Nahely?" perguntou ele. "Como protegemos Kalyon?" O Pagé apontou para a clareira, visível ao longe pela janela da choupana. "Levemos o menino à árvore-mãe. Lá, faremos um ritual para fortalecer o vínculo dele com a mata. Mas todos vós deveis estar presentes. Itiberê, Tayen, Soyala, Kenai. A força do Coração da Mata vem da união, e Kalyon precisa senti-la."
Naquela noite, a vila se reuniu na clareira. A árvore-mãe brilhava com uma luz suave, e a pequena planta que crescera em seu centro parecia pulsar com vida. Nahely liderou o ritual, espalhando cinzas e entoando cânticos que ecoavam como o murmúrio do rio. Itiberê segurava a mão de Kalyon, enquanto Tayen e Soyala formavam um círculo com os outros moradores. Kenai, com seu jeito prático, vigiava as sombras, o machado ao alcance.
Quando Nahely terminou o cântico, a clareira pareceu vibrar. Kalyon, que até então tremia, relaxou, os olhos fixos na planta. "Eu sinto ela, pai," sussurrou ele. "A mata... ela tá cantando." Itiberê sorriu, o coração aliviado, mas ainda alerta. Ele sabia que os Esquecidos não desistiriam. Na volta à vila, enquanto as estrelas brilhavam, Itiberê carregava Kalyon nos ombros.
Tayen caminhava ao seu lado, e Soyala, com um sorriso, prometeu ensinar ao menino novos cânticos. Mas, no fundo, Itiberê sabia que a batalha estava longe de acabar. A sombra que crescera agora tinha um alvo claro, e ele faria o que fosse preciso para proteger seu filho e a mata que os unia.
Capítulo 26: O Teste do Guardião
A luz da manhã filtrava-se pelas copas das árvores, pintando o chão da vila com manchas douradas. Santa Luzia despertava com o canto dos pássaros e o murmúrio do rio, mas Itiberê sentia uma inquietação que não explicava. Desde o ritual na clareira, Kalyon parecia mais calmo, brincando com as outras crianças e aprendendo com Soyala as histórias da mata. Contudo, o colar que o menino usava às vezes brilhava sem motivo, e Itiberê notava olhares distantes no filho, como se ele ainda ouvisse os sussurros dos Esquecidos.
Tayen, sempre atenta, percebia a preocupação do marido. "Ele é forte, Itiberê," disse ela uma manhã, enquanto preparava uma rede para Kalyon dormir. "Mas é só uma criança. Tu precisas confiar que a mata o está guiando, como te guiou." Itiberê assentiu, mas o peso do colar em seu próprio peito parecia lembrá-lo de que a paz era frágil. Naquela tarde, enquanto ajudava Kenai a reforçar as margens do rio, Itiberê viu Nahely se aproximar, o rosto mais sério do que o usual.
O Pagé carregava um embrulho de couro, amarrado com cipós, e seus olhos pareciam carregar o peso de um segredo antigo. "Itiberê," chamou ele, a voz grave. "A mata está te chamando outra vez. E, desta vez, Kalyon deve ir contigo." Itiberê franziu o cenho, o coração apertado. "Kalyon? Ele é muito jovem, Nahely. Não posso levá-lo para onde os Esquecidos espreitam." Kenai, que ouvia ao lado, pôs a mão no ombro do amigo.
"Se Nahely diz que é preciso, confia, Itiberê. A mata não chama sem motivo." Tayen e Soyala foram chamadas, e o grupo reuniu-se na choupana de Nahely. O Pagé desembrulhou o pacote, revelando um objeto estranho: uma pedra lisa, do tamanho de um punho, com veios verdes que pareciam pulsar como as raízes da árvore-mãe. "Isto é uma semente da mata," explicou Nahely.
"Não uma semente comum, mas uma que carrega a essência do Coração da Mata. Ela deve ser plantada num lugar que só a mata revelará. E Kalyon, por ser o novo guardião, precisa estar presente."
"Mas por que agora?" perguntou Tayen, a voz carregada de preocupação. "E por que ele? Não podemos protegê-lo até que cresça?"
Nahely olhou para Kalyon, que brincava com o amuleto de madeira, alheio à gravidade do momento. "Porque os Esquecidos estão ganhando força," respondeu o Pagé. "A vila está unida, mas há rachaduras. Pequenas desconfianças, murmurações entre os mais velhos que temem mudanças. Os Esquecidos se alimentam disso. A semente deve ser plantada para fortalecer o Coração da Mata, e Kalyon é a ponte entre o passado e o futuro. Ele precisa provar que é digno, como Itiberê provou."
Itiberê sentiu o peito apertar, mas viu nos olhos de Kalyon uma centelha de coragem. "Eu quero ir, pai," disse o menino, a voz firme apesar da pouca idade. "A mata me chama, como chamou você." Tayen segurou a mão do filho, lágrimas nos olhos, mas assentiu. Soyala, com a determinação herdada de Ayra, prometeu acompanhar o grupo. "Eu protegerei Kalyon," disse ela, o amuleto brilhando em seu pescoço.
Ao entardecer, Itiberê, Tayen, Kalyon, Soyala e Nahely partiram para a mata. Kenai ficou na vila, organizando os moradores para manter as oferendas e os cânticos, garantindo que a união não se quebrasse. A trilha parecia viva, guiando-os mais fundo do que nunca. As árvores se curvavam, como se abrissem caminho, e o colar de Itiberê e Kalyon pulsava em uníssono.
Após horas de caminhada, chegaram a um lugar novo: uma caverna escondida atrás de uma cascata, onde a água cantava como as vozes dos antepassados. Nahely ergueu a semente, que brilhou com uma luz verde intensa. "Aqui," disse ele. "Este é o lugar." Mas, antes que pudessem dar um passo, o ar ficou frio. Um brilho escuro, como o que Itiberê vira anos antes, surgiu na entrada da caverna.
Uma voz, fria e cortante, ecoou: "Tu pensas que uma criança pode nos deter, Itiberê? A mata será nossa, e Kalyon será o primeiro a cair." Itiberê puxou Kalyon para trás, a faca já na mão, enquanto Tayen e Soyala formavam um círculo protetor ao redor do menino. Nahely ergueu o bastão, entoando um cântico que fez a caverna vibrar. A sombra cresceu, tomando a forma de uma figura indistinta, com olhos que brilhavam como brasas negras.
"Vocês não podem plantar a semente," sibilou a voz. "A mata traiu os homens, e os homens a traíram. Não há equilíbrio, apenas ruína." Kalyon, para surpresa de todos, deu um passo à frente, segurando o colar. "A mata é minha amiga!" gritou ele, a voz pequena, mas cheia de coragem. "Ela canta pra mim, e eu canto pra ela!" A semente nas mãos de Nahely brilhou mais forte, e a sombra recuou, como se a voz do menino a queimasse.
Nahely aproveitou o momento, entregando a semente a Itiberê. "Planta-a, agora!" ordenou. Itiberê correu para o centro da caverna, onde uma fenda no chão parecia feita para a semente. Ele a colocou com cuidado, e Kalyon, ao seu lado, tocou a terra, sussurrando uma canção que Soyala lhe ensinara. A caverna inteira tremeu, e uma luz verde explodiu, afastando a sombra com um grito que ecoou como um trovão.
Quando a luz se dissipou, a caverna estava silenciosa, e a semente havia desaparecido, mas a fenda agora pulsava com vida, como se a própria mata respirasse ali. Nahely, exausto, sorriu. "Kalyon provou ser o guardião," disse ele. "A semente está plantada, e o Coração da Mata está mais forte. Mas os Esquecidos voltarão, Itiberê. Eles sempre voltam." De volta à vila, a notícia do que acontecera espalhou-se como fogo.
Kalyon, ainda pequeno, era agora visto com um respeito que misturava admiração e reverência. Itiberê abraçou o filho, orgulhoso, mas ciente de que o teste do guardião era apenas o começo. A mata estava viva, e Kalyon, com a vila ao seu lado, seria sua voz no futuro. Mas, enquanto as estrelas brilhavam sobre Santa Luzia, Itiberê sabia que a sombra dos Esquecidos ainda espreitava, esperando por uma nova chance.
Capítulo 27: O Passar do Bastão
O outono chegara a Santa Luzia com um vento frio que fazia as folhas dançarem em redemoinhos pela praça. A vila, agora mais unida do que nunca, vivia um tempo de paz aparente, mas Itiberê sentia no peito uma inquietação que não explicava. A mata estava viva, o Coração pulsava com força, e Kalyon, seu filho, crescia com a energia de quem já parecia entender o chamado da floresta. Tayen, sempre ao seu lado, cuidava do menino com um amor que parecia fortalecer a própria terra.
Contudo, os sussurros dos Esquecidos, embora raros, ainda ecoavam em noites escuras, como um lembrete de que a luta nunca terminava. Naquela manhã, a vila acordou com uma notícia que pesou como pedra. Nahely, o velho Pagé, fora encontrado em sua choupana, deitado em sua rede, o rosto sereno como se apenas dormisse. Mas o braseiro estava frio, e o bastão entalhado, que sempre carregava, repousava ao seu lado, como se soubesse que sua tarefa estava cumprida. Itiberê, ao receber a notícia de Soyala, sentiu o chão tremer sob os pés.
Nahely fora mais que um guia; era a ponte entre a vila e a mata, o guardião das histórias que os mantinham vivos. A praça encheu-se de moradores, cada um trazendo uma oferenda: flores, sementes, ou apenas palavras de gratidão. Dona Raíra, com os olhos marejados, organizava as mulheres para preparar o rito fúnebre, enquanto Tayen segurava Kalyon no colo, sussurrando-lhe histórias sobre o Pagé que o menino ainda não podia entender.
Soyala, agora uma jovem de olhar firme, carregava o peso do legado de Ayra com graça, mas até ela parecia abalada, as mãos tremendo ao depositar uma coroa de ervas na choupana de Nahely. Itiberê, ao lado de Kenai, entrou na choupana para prestar as últimas homenagens. O ar ainda cheirava a ervas e fumaça, como se o espírito de Nahely pairasse ali.
Sobre a mesa, ao lado do bastão, havia um pano de linho com um símbolo desenhado em cinzas: o mesmo que Nahely usara para proteger a vila dos Esquecidos. Kenai, sempre tão forte, parecia menor diante da perda, os ombros curvados. "Ele me ensinou tanto," murmurou, a voz rouca. "Mas nunca pensei que partiria tão cedo." Itiberê pôs a mão no ombro do amigo. "Ele sabia que a mata estava segura contigo, Kenai.
Sempre disse que tu eras mais que força bruta." Kenai esboçou um meio sorriso, mas seus olhos estavam distantes. Antes do crepúsculo, a vila reuniu-se na clareira, onde a árvore-mãe brilhava com uma luz suave, como se saudasse Nahely em sua partida. Soyala liderou o canto, uma melodia antiga que Ayra lhe ensinara, enquanto as oferendas eram colocadas ao pé da árvore.
Itiberê e Tayen, com Kalyon entre eles, observavam em silêncio, o colar compartilhado quente contra seus peitos. Mas o momento mais solene veio quando Soyala, com a permissão dos anciãos, pegou o bastão entalhado e o levou até Kenai. "Nahely deixou isto para ti," disse ela, a voz clara, mas carregada de emoção. "Ele disse, em sua última noite, que a mata escolheu o próximo Pagé. Tu, Kenai, és aquele que carregará o equilíbrio agora."
A jovem estendeu o bastão, e a vila prendeu a respiração. Kenai hesitou, os olhos arregalados, como se o peso do objeto fosse maior que qualquer árvore que ele já derrubara. "Eu?" perguntou, a voz quase um sussurro. "Eu não tenho a sabedoria dele, Soyala. Sou um homem de machado, não de rituais." Mas Itiberê deu um passo à frente, segurando o ombro do amigo com firmeza.
"Tu tens o coração da mata, Kenai," disse ele. "Nahely viu isso. A vila viu. E eu vejo. Aceita o bastão. Não por ti, mas por todos nós." Tayen, ao lado, assentiu, um sorriso de apoio nos lábios, enquanto Kalyon, no colo dela, estendia as mãozinhas como se também entendesse. Kenai respirou fundo, os olhos passeando pela multidão que o observava com esperança.
Ele pegou o bastão, e, no instante em que seus dedos tocaram a madeira entalhada, a clareira pareceu pulsar. A árvore-mãe brilhou mais forte, e um vento suave envolveu a todos, como se Anaíra aprovasse. A vila irrompeu em vivas, mas Kenai permaneceu em silêncio, o peso do novo papel gravado em seu rosto. Naquela noite, enquanto a vila celebrava a memória de Nahely com cantos e histórias, Itiberê sentou-se com Kenai à beira do rio.
O novo Pagé segurava o bastão com cuidado, como se ainda não acreditasse em sua nova tarefa. "Eu não sei se estou pronto, Itiberê," confessou. "Nahely sabia tanto... Como vou guiar a vila contra os Esquecidos? Contra o que ainda pode vir?" Itiberê olhou para o rio, onde a luz da lua dançava. "Ninguém está pronto, Kenai. Eu não estava quando a mata me chamou. Tu vais aprender, como eu aprendi. E não estarás só. Tens a vila. Tens Soyala, que carrega o fogo de Ayra.
Tens Tayen, que é nossa âncora. E tens a mim." Ele sorriu, apertando o ombro do amigo. "A mata escolheu bem." Kenai assentiu, um brilho novo nos olhos. "Então que venham os Esquecidos," disse, a voz ganhando força. "A mata não cairá enquanto estivermos aqui."
Itiberê sentiu o colar aquecer, como se Anaíra ouvisse, e soube que, com Kenai como Pagé, a vila estava pronta para o que viesse. Mas, no fundo da mata, um brilho escuro piscou entre as árvores, fugaz, mas presente. Os Esquecidos observavam, esperando. E Itiberê, com o instinto afiado, sabia que a paz era apenas o prelúdio de uma nova provação.
Capítulo 28: O Sussurro do Vento
A brisa da manhã trouxe um frescor incomum a Santa Luzia, como se a mata celebrasse a ascensão de Kenai ao papel de Pagé. A vila pulsava com uma energia renovada: as crianças corriam pela praça, entoando as canções que Soyala lhes ensinava, enquanto os homens, sob a liderança de Kenai, reforçavam as margens do rio com pedras para proteger as novas mudas plantadas. Dona Raíra, com sua sabedoria prática, organizava as mulheres para tecer cestas que seriam usadas nas próximas oferendas à clareira.
Itiberê, ao lado de Tayen, observava tudo com um misto de orgulho e inquietação, o colar quente contra o peito, um lembrete constante de que a paz era frágil.
Kalyon, agora com quase dois anos, brincava na terra ao lado da mãe, suas mãozinhas agarrando uma semente que tentava plantar com a determinação desajeitada de uma criança. Tayen ria, guiando-o com paciência, mas Itiberê percebia nos olhos dela a mesma preocupação que o acometia. O brilho escuro que ele avistara na mata, na noite do rito de Nahely, não reaparecera, mas sua presença parecia pairar no ar, como um trovão distante que anuncia a tempestade.
Kenai, com o bastão entalhado sempre ao alcance, aproximou-se de Itiberê ao meio-dia, o rosto marcado por uma seriedade nova. "A mata está calma," disse ele, a voz firme, mas com um traço de dúvida. "Mas sinto algo, Itiberê. Como se ela estivesse esperando. Tu sentiste isso também?"
Itiberê assentiu, os olhos fixos no horizonte onde a floresta se erguia, densa e silenciosa. "Os Esquecidos estão quietos demais," respondeu. "Nahely dizia que eles atacam quando estamos confiantes. Precisamos estar prontos." Ele olhou para Tayen, que agora ajudava Kalyon a se levantar, e sentiu o peso da responsabilidade não só pela vila, mas por sua família.
Soyala juntou-se a eles, o colar de Ayra brilhando ao sol. "Eu sonhei com a clareira ontem," confessou ela, a voz baixa para não alarmar os que passavam. "A árvore-mãe estava lá, mas havia sombras ao redor, como névoa viva. Não era Anaíra. Era... outra coisa." Ela hesitou, os olhos buscando os de Kenai. "Tu és o Pagé agora. O que achas que significa?"
Kenai segurou o bastão com mais força, como se buscasse nele a sabedoria de Nahely. "A mata está testando nossa união," disse, após um momento. "Nahely me contou, uma vez, que os Esquecidos não têm poder sobre uma vila unida. Mas se conseguirem nos dividir, se plantarem medo ou desconfiança, a mata enfraquece. Precisamos chamar todos para a clareira hoje. Vamos reforçar o juramento."
Itiberê concordou, sentindo o colar pulsar como se aprovasse. "Vou falar com Dona Raíra e os anciãos," disse. "Tayen, tu podes reunir as mulheres com Soyala? Vamos levar oferendas e mostrar à mata que estamos juntos." Tayen assentiu, seus olhos brilhando com determinação, enquanto Kalyon, alheio ao peso da conversa, ria ao cavar a terra.
Ao entardecer, a vila inteira marchou para a clareira, uma procissão silenciosa, mas poderosa. Cada morador carregava algo: flores, frutas, ou apenas sua presença, um sinal de compromisso com a mata. Kenai liderava, o bastão erguido como um farol, seguido por Itiberê, Tayen e Kalyon, que caminhava com passos incertos, segurando a mão da mãe. Soyala entoava uma canção suave, a mesma que Ayra usara para acalmar os corações da vila, e o som parecia fazer as árvores balançarem em harmonia.
Na clareira, a árvore-mãe brilhava com uma luz intensa, o pequeno broto do Coração da Mata agora mais alto, suas folhas reluzindo como esmeraldas. Kenai ergueu o bastão e falou, sua voz ecoando com uma autoridade que ele próprio parecia descobrir. "Nós, de Santa Luzia, renovamos nosso juramento à mata. Prometemos protegê-la, cuidá-la, viver com ela, não contra ela. Que Anaíra nos guie, e que os Esquecidos saibam que não temos medo."
A vila respondeu em uníssono, um coro de vozes que fez o ar vibrar. Itiberê sentiu o colar aquecer, e Tayen apertou sua mão, os olhos dela refletindo a luz da árvore. Kalyon, no colo do pai, apontou para o broto, balbuciando algo que soava como "luz". Mas, no instante em que a vila se unia, um vento frio cortou a clareira, apagando as tochas que iluminavam o caminho.
Um sussurro, gelado e cortante, veio de todos os lados. "Vós achais que podem nos deter?" A voz não era de Anaíra, mas dos Esquecidos, carregada de veneno. Sombras dançaram entre as árvores, não mais apenas brilhos fugazes, mas formas que pareciam se solidificar, como figuras humanas distorcidas. A vila recuou, alguns murmurando preces, outros segurando firme suas oferendas.
Kenai ergueu o bastão, o símbolo entalhado brilhando com uma luz própria. "Fiquem juntos!" gritou ele. "A mata está conosco!" Itiberê puxou Tayen e Kalyon para perto, o colar ardendo contra sua pele. Soyala, ao lado, começou a cantar mais alto, sua voz desafiando o vento frio. E então, algo inesperado aconteceu: o broto do Coração da Mata pulsou, enviando uma onda de luz que fez as sombras recuarem, gritando como se queimassem.
Os Esquecidos não atacaram, mas sua presença permaneceu, um aviso de que estavam mais fortes. Kenai abaixou o bastão, o rosto suado, mas resoluto. "Eles estão com medo do que estamos construindo," disse, olhando para Itiberê. "Mas isso significa que estamos no caminho certo."
Itiberê olhou para Tayen, que segurava Kalyon com força, e para Soyala, cuja canção ainda ecoava. "Então vamos continuar," disse ele, a voz firme. "Pela mata, pela vila, por nós." A clareira ficou em silêncio, mas a luz do Coração da Mata brilhou mais forte, como se respondesse. E, no fundo do coração de Itiberê, ele sabia: a luta estava longe de acabar, mas a vila nunca estivera tão pronta.Capítulo 28: O Sussurro do Vento
A brisa da manhã trouxe um frescor incomum a Santa Luzia, como se a mata celebrasse a ascensão de Kenai ao papel de Pagé. A vila pulsava com uma energia renovada: as crianças corriam pela praça, entoando as canções que Soyala lhes ensinava, enquanto os homens, sob a liderança de Kenai, reforçavam as margens do rio com pedras para proteger as novas mudas plantadas. Dona Raíra, com sua sabedoria prática, organizava as mulheres para tecer cestas que seriam usadas nas próximas oferendas à clareira. Itiberê, ao lado de Tayen, observava tudo com um misto de orgulho e inquietação, o colar quente contra o peito, um lembrete constante de que a paz era frágil.
Kalyon, agora com quase dois anos, brincava na terra ao lado da mãe, suas mãozinhas agarrando uma semente que tentava plantar com a determinação desajeitada de uma criança. Tayen ria, guiando-o com paciência, mas Itiberê percebia nos olhos dela a mesma preocupação que o acometia. O brilho escuro que ele avistara na mata, na noite do rito de Nahely, não reaparecera, mas sua presença parecia pairar no ar, como um trovão distante que anuncia a tempestade.
Kenai, com o bastão entalhado sempre ao alcance, aproximou-se de Itiberê ao meio-dia, o rosto marcado por uma seriedade nova. "A mata está calma," disse ele, a voz firme, mas com um traço de dúvida. "Mas sinto algo, Itiberê. Como se ela estivesse esperando. Tu sentiste isso também?"
Itiberê assentiu, os olhos fixos no horizonte onde a floresta se erguia, densa e silenciosa. "Os Esquecidos estão quietos demais," respondeu. "Nahely dizia que eles atacam quando estamos confiantes. Precisamos estar prontos." Ele olhou para Tayen, que agora ajudava Kalyon a se levantar, e sentiu o peso da responsabilidade não só pela vila, mas por sua família.
Soyala juntou-se a eles, o colar de Ayra brilhando ao sol. "Eu sonhei com a clareira ontem," confessou ela, a voz baixa para não alarmar os que passavam. "A árvore-mãe estava lá, mas havia sombras ao redor, como névoa viva. Não era Anaíra. Era... outra coisa." Ela hesitou, os olhos buscando os de Kenai. "Tu és o Pagé agora. O que achas que significa?"
Kenai segurou o bastão com mais força, como se buscasse nele a sabedoria de Nahely. "A mata está testando nossa união," disse, após um momento. "Nahely me contou, uma vez, que os Esquecidos não têm poder sobre uma vila unida. Mas se conseguirem nos dividir, se plantarem medo ou desconfiança, a mata enfraquece. Precisamos chamar todos para a clareira hoje. Vamos reforçar o juramento."
Itiberê concordou, sentindo o colar pulsar como se aprovasse. "Vou falar com Dona Raíra e os anciãos," disse. "Tayen, tu podes reunir as mulheres com Soyala? Vamos levar oferendas e mostrar à mata que estamos juntos." Tayen assentiu, seus olhos brilhando com determinação, enquanto Kalyon, alheio ao peso da conversa, ria ao cavar a terra.
Ao entardecer, a vila inteira marchou para a clareira, uma procissão silenciosa, mas poderosa. Cada morador carregava algo: flores, frutas, ou apenas sua presença, um sinal de compromisso com a mata. Kenai liderava, o bastão erguido como um farol, seguido por Itiberê, Tayen e Kalyon, que caminhava com passos incertos, segurando a mão da mãe. Soyala entoava uma canção suave, a mesma que Ayra usara para acalmar os corações da vila, e o som parecia fazer as árvores balançarem em harmonia.
Na clareira, a árvore-mãe brilhava com uma luz intensa, o pequeno broto do Coração da Mata agora mais alto, suas folhas reluzindo como esmeraldas. Kenai ergueu o bastão e falou, sua voz ecoando com uma autoridade que ele próprio parecia descobrir. "Nós, de Santa Luzia, renovamos nosso juramento à mata. Prometemos protegê-la, cuidá-la, viver com ela, não contra ela. Que Anaíra nos guie, e que os Esquecidos saibam que não temos medo."
A vila respondeu em uníssono, um coro de vozes que fez o ar vibrar. Itiberê sentiu o colar aquecer, e Tayen apertou sua mão, os olhos dela refletindo a luz da árvore. Kalyon, no colo do pai, apontou para o broto, balbuciando algo que soava como "luz". Mas, no instante em que a vila se unia, um vento frio cortou a clareira, apagando as tochas que iluminavam o caminho.
Um sussurro, gelado e cortante, veio de todos os lados. "Vós achais que podem nos deter?" A voz não era de Anaíra, mas dos Esquecidos, carregada de veneno. Sombras dançaram entre as árvores, não mais apenas brilhos fugazes, mas formas que pareciam se solidificar, como figuras humanas distorcidas. A vila recuou, alguns murmurando preces, outros segurando firme suas oferendas.
Kenai ergueu o bastão, o símbolo entalhado brilhando com uma luz própria. "Fiquem juntos!" gritou ele. "A mata está conosco!" Itiberê puxou Tayen e Kalyon para perto, o colar ardendo contra sua pele. Soyala, ao lado, começou a cantar mais alto, sua voz desafiando o vento frio. E então, algo inesperado aconteceu: o broto do Coração da Mata pulsou, enviando uma onda de luz que fez as sombras recuarem, gritando como se queimassem.
Os Esquecidos não atacaram, mas sua presença permaneceu, um aviso de que estavam mais fortes. Kenai abaixou o bastão, o rosto suado, mas resoluto. "Eles estão com medo do que estamos construindo," disse, olhando para Itiberê. "Mas isso significa que estamos no caminho certo."
Itiberê olhou para Tayen, que segurava Kalyon com força, e para Soyala, cuja canção ainda ecoava. "Então vamos continuar," disse ele, a voz firme. "Pela mata, pela vila, por nós." A clareira ficou em silêncio, mas a luz do Coração da Mata brilhou mais forte, como se respondesse. E, no fundo do coração de Itiberê, ele sabia: a luta estava longe de acabar, mas a vila nunca estivera tão pronta.
Capítulo 29: A Força do Laço
O sol nascente banhava Santa Luzia com uma luz dourada, como se a mata agradecesse a resistência da vila na clareira. Itiberê acordou cedo, o colar quente contra o peito, um lembrete constante de sua conexão com a floresta. Tayen já estava na varanda, ninando Kalyon, que dormia tranquilo em seus braços, alheio às sombras que haviam ameaçado a vila na noite anterior. O menino, com seus olhos curiosos e riso fácil, parecia carregar uma centelha da própria mata, como se Anaíra o tivesse tocado ao nascer.
Na praça, Kenai reunia os moradores, o bastão entalhado firme em sua mão. Sua nova posição como Pagé ainda lhe pesava, mas ele a carregava com uma determinação que inspirava. Soyala, ao seu lado, organizava as crianças para reforçar as oferendas, ensinando-as a trançar cordas de cipó que seriam usadas para marcar os limites sagrados da clareira. Dona Raíra, com a sabedoria dos anos, supervisionava a preparação de um novo rito, um que reforçaria a união da vila contra os Esquecidos.
Itiberê aproximou-se de Kenai, sentindo o peso do que haviam enfrentado. "As sombras recuaram, mas não foram embora," disse ele, a voz baixa para não alarmar os que passavam. "O que fazemos agora, Pagé?" Kenai olhou para a mata, os olhos estreitos, como se tentasse enxergar além das árvores. "Nahely me disse, uma vez, que os Esquecidos só têm poder onde há fraqueza. A vila está forte, mas precisamos selar nosso laço com a mata. Vamos fazer um círculo de proteção na clareira, com todos juntos.
Tu, Tayen, Soyala... e até o pequeno Kalyon. A mata precisa sentir que somos um só." Tayen, que se aproximara com Kalyon no colo, assentiu. "Se a força vem da união, então que a vila inteira esteja lá," disse ela, o olhar firme. "Mas e os Esquecidos? Eles vão tentar nos deter de novo." Sua voz tinha um traço de preocupação, mas também uma coragem que fazia Itiberê sentir-se mais forte.
Soyala, que terminava de ensinar uma criança a amarrar um nó de cipó, juntou-se à conversa. "Eu senti algo na clareira ontem," confessou. "A canção de Ayra... ela não só afastou as sombras, mas fez o Coração da Mata brilhar mais forte. Talvez a chave esteja nas histórias, nos cantos. Eles nos conectam ao que veio antes, ao juramento." Itiberê olhou para os três Kenai, Tayen, Soyala e sentiu uma onda de gratidão.
"Então vamos fazer isso," disse. "Um círculo de proteção, com os cantos, as oferendas e a vila toda. Que os Esquecidos vejam que não vamos ceder." Ao cair da tarde, a vila marchou novamente para a clareira, mas dessa vez o clima era diferente. Havia menos medo, mais propósito. Cada morador carregava algo: cordas de cipó, flores, ou apenas a vontade de proteger o que era sagrado.
Kenai liderava, o bastão erguido, enquanto Soyala entoava uma nova canção, uma que misturava as melodias de Ayra com palavras que pareciam surgir da própria mata. Itiberê e Tayen caminhavam lado a lado, Kalyon entre eles, segurando uma pequena flor que insistia em levar como sua oferenda. Na clareira, a árvore-mãe parecia esperar por eles, o broto do Coração da Mata agora quase uma pequena árvore, suas folhas brilhando como estrelas.
Kenai traçou um círculo ao redor do broto com as cinzas que Nahely deixara, enquanto Soyala guiava os moradores a formar um anel humano, unindo as mãos. Itiberê segurou a mão de Tayen de um lado e a de Dona Raíra do outro, sentindo o calor do colar se espalhar pelo corpo. Kalyon, no centro com outras crianças, ria, como se a mata brincasse com ele. Quando Soyala começou o canto, algo mudou. O ar ficou mais leve, e a clareira pareceu pulsar com vida.
As cordas de cipó, colocadas ao redor do broto, brilharam com uma luz suave, como se a mata as abençoasse. Kenai ergueu o bastão e falou, sua voz ecoando com a força de um trovão. "Nós somos a vila de Santa Luzia. Somos a mata, o rio, a noite. Juramos protegê-la, como nossos antepassados prometeram. Que o Coração da Mata cresça, e que os Esquecidos saibam que aqui não têm lugar!"
A vila respondeu com um grito unificado, e o chão tremeu levemente, como se Anaíra ouvisse. Mas, no instante em que o canto atingiu seu ápice, um vento frio cortou a clareira, e as sombras voltaram. Não eram mais formas vagas, mas figuras escuras, quase humanas, com olhos que brilhavam como brasas. "Vós achais que um círculo de mãos pode nos deter?" sussurraram, suas vozes se misturando ao vento. "A mata é nossa tanto quanto vossa."
Itiberê sentiu o medo tentar se infiltrar, mas a mão de Tayen o ancorou. Kalyon, alheio ao perigo, apontou para o broto e riu, como se visse algo que os outros não viam. Soyala intensificou o canto, e Kenai bateu o bastão no chão, fazendo as cinzas brilharem com uma luz intensa. "Vós não têm poder aqui!" gritou ele. "A mata escolheu, e nós somos dela!" A luz do broto explodiu, envolvendo a clareira em um brilho quente que fez as sombras recuarem, gritando de fúria.
Não sumiram por completo, mas perderam força, dissolvendo-se como fumaça ao vento. Quando o silêncio voltou, a vila ainda estava de mãos dadas, o círculo intacto, o Coração da Mata brilhando mais forte que nunca. Itiberê olhou para Tayen, que sorria com lágrimas nos olhos, e para Kalyon, que agora dormia no colo da mãe, a flor ainda na mão. Kenai, ofegante, apoiou-se no bastão, enquanto Soyala terminava o canto com uma nota suave.
"Conseguimos," disse ela, a voz tremendo de emoção. "A mata está conosco." Mas Itiberê sabia, no fundo do coração, que os Esquecidos não haviam desistido. Eles voltariam, talvez mais fortes, talvez mais astutos. Mas a vila também estava mais forte, unida por um laço que nem as sombras podiam quebrar. Ele olhou para o broto, agora uma promessa viva de equilíbrio, e jurou, em silêncio, que protegeria aquele legado — por Kalyon, por Tayen, por todos.
Capítulo 30: O Chamado do Horizonte
A luz do amanhecer filtrava-se pelas copas, banhando Santa Luzia com um brilho que parecia renovar a vila a cada dia. Itiberê caminhava pela margem do rio, o colar quente contra o peito, enquanto observava Kalyon correr à frente, suas risadas ecoando como o canto dos pássaros. Tayen, ao seu lado, carregava uma cesta de frutas para as oferendas diárias, o rosto sereno, mas atento, como se também sentisse a calma frágil que envolvia a vila.
A vitória na clareira fortalecera a união dos moradores, mas o eco dos Esquecidos ainda pairava, um lembrete de que a mata exigia vigilância constante. Na praça, Kenai, agora plenamente estabelecido como Pagé, reunia um grupo pequeno para discutir os próximos passos. O bastão entalhado, que outrora pertencera a Nahely, parecia feito para suas mãos, e sua voz carregava uma autoridade natural.
Soyala, sempre próxima, anotava em um caderno de folhas de palha as histórias e canções que as crianças aprendiam, garantindo que o legado de Ayra não se perdesse. Dona Raíra, com sua energia incansável, supervisionava a construção de um novo espaço na vila, uma espécie de santuário onde as oferendas seriam guardadas antes de serem levadas à clareira.
Itiberê aproximou-se de Kenai, que examinava um mapa rudimentar desenhado por um dos anciãos, mostrando os limites da mata. "Tu achas que os Esquecidos vão tentar algo novo?" perguntou Itiberê, a voz baixa, enquanto Kalyon brincava perto, tentando imitar os gestos do pai com um graveto. Kenai franziu o cenho, os olhos fixos no mapa. "Eles estão quietos, mas não mortos," respondeu. "Nahely me alertou sobre os ciclos da mata.
Quando ela se fortalece, as sombras recuam, mas buscam outros caminhos. Acho que estão esperando algo... ou alguém." Ele olhou para Itiberê, uma pergunta silenciosa nos olhos. "Tu sentiste algo diferente no colar hoje?" Itiberê tocou o colar, que parecia pulsar com uma energia nova, quase ansiosa. "Sim," admitiu. "É como se a mata quisesse me chamar para além da clareira, para além do que conhecemos. Mas não sei para onde."
Tayen, que se aproximara, ouviu as palavras e segurou a mão dele, o olhar preocupado, mas firme. "Então precisamos descobrir," disse ela. "Se a mata está chamando, não é só por ti, Itiberê. É por todos nós. Kalyon, Soyala, a vila inteira." Ela olhou para o filho, que agora tentava empilhar pedras à beira do rio, e sorriu. "Ele já sente a mata, tu vês? Talvez ele também tenha um papel nisso."
Antes que Itiberê pudesse responder, Soyala correu até eles, o rosto pálido. "Venham à clareira, agora!" disse, a voz urgente. "Algo está acontecendo com o Coração da Mata." Sem hesitar, Itiberê, Tayen e Kenai seguiram-na, com Kalyon no colo da mãe. A vila, pressentindo a gravidade, começou a se reunir, murmurando enquanto seguia o grupo. Na clareira, o broto do Coração da Mata, agora uma jovem árvore, brilhava com uma intensidade quase ofuscante.
Suas folhas tremiam, mesmo sem vento, e o chão ao redor parecia vibrar. Kenai ajoelhou-se, tocando a terra com reverência, enquanto Soyala cantava uma melodia suave para acalmar os ânimos. Itiberê sentiu o colar queimar, e uma voz, clara como o dia, ecoou em sua mente= não era Anaíra, mas algo maior, como se a própria mata falasse. "Itiberê, a vila está pronta, mas o equilíbrio exige mais. Há um lugar além do rio, onde a mata se conecta ao horizonte.
Lá está a origem do Coração, e lá os Esquecidos planejam sua última investida. Leva os teus, e leva o menino. O futuro da mata depende de vós." Ele olhou para Tayen, que parecia ter ouvido algo semelhante, pois seus olhos estavam arregalados. "Tu ouviste?" perguntou ele, e ela assentiu, apertando Kalyon contra o peito. Kenai ergueu-se, o bastão brilhando em sincronia com o broto. "A mata está nos guiando," disse. "Mas para onde?"
Soyala, que terminara o canto, apontou para o norte, onde o rio se perdia em uma curva que poucos na vila haviam explorado. "As histórias de Ayra falavam de um lugar chamado a Nascente Viva," disse ela. "Um ponto onde o rio nasce, onde a mata é mais antiga que qualquer árvore que conhecemos. Talvez seja lá." Itiberê sentiu o coração disparar.
A ideia de deixar a vila, de levar Kalyon e Tayen para um lugar desconhecido, o assustava, mas o colar pulsava com uma certeza que ele não podia ignorar. "Então iremos," disse, olhando para os rostos ao redor. "Eu, Tayen, Kenai, Soyala. E Kalyon. A mata nos chama, e não podemos recusar."
A vila, reunida ao redor, ouviu em silêncio. Dona Raíra deu um passo à frente, os olhos brilhando com orgulho e medo. "Vós sois o coração de Santa Luzia," disse ela. "Levai nossa força convosco. A vila cuidará do Coração da Mata enquanto estiverdes fora." Os moradores assentiram, alguns levantando oferendas, outros murmurando preces.
Naquela noite, Itiberê e Tayen prepararam-se em casa, embrulhando mantimentos e amuletos que Nahely deixara. Kalyon, segurando uma pequena semente que Soyala lhe dera, parecia entender mais do que sua idade permitia. Kenai e Soyala juntaram-se a eles ao amanhecer, cada um carregando o peso de sua missão. O bastão de Kenai brilhava, e o caderno de Soyala estava cheio de anotações para o caminho.
E partiam, seguindo a curva do rio para o norte, Itiberê olhou para trás, vendo a vila desaparecer entre as árvores. A mata os envolvia, viva e expectante, mas o brilho escuro dos Esquecidos piscava ao longe, um aviso de que o maior teste ainda estava por vir.
Ele segurou a mão de Tayen, sentindo o calor do colar, e pensou em Kalyon, o futuro da vila. "Que a mata nos guie," murmurou, e o vento respondeu com um sussurro suave, como se Anaíra estivesse ao lado deles.
Capítulo 31: A Jornada para a Nascente Viva
O sol nascente tingia o céu de tons alaranjados, lançando longas sombras entre as árvores enquanto Itiberê, Tayen, Kenai, Soyala e Kalyon seguiam a trilha sinuosa ao longo do rio. O murmúrio da correnteza era o único som constante, misturado ao canto esporádico dos pássaros e ao farfalhar das folhas sob seus pés. O colar de Itiberê pulsava em um ritmo lento, como se acompanhasse o coração da mata, guiando-os para o norte, onde a Nascente Viva aguardava.
Kalyon, agora caminhando ao lado da mãe, segurava a semente que Soyala lhe dera, girando-a entre os dedos com curiosidade. Seus olhos, tão vivos quanto os de Tayen, observavam cada detalhe da floresta — uma borboleta que cruzava o caminho, uma pedra coberta de musgo brilhante, o brilho fugaz de um peixe no rio. "Pai, a mata fala com a semente?" perguntou ele, a voz cheia de uma inocência que escondia sabedoria.
Itiberê sorriu, ajoelhando-se para ficar na altura do filho. "Talvez, Kalyon. A mata fala com todos nós, de jeitos diferentes. Tua semente pode ser um pedaço dela, esperando pra crescer." Ele tocou o colar, que parecia responder com um leve aquecimento, como se confirmasse suas palavras. Tayen, observando a cena, segurou a mão do menino, mas seus olhos estavam fixos no horizonte, onde a curva do rio se tornava mais estreita, quase engolida pela vegetação densa.
Kenai caminhava à frente, o bastão entalhado firme em sua mão, os olhos atentos a cada sombra. Como Pagé, ele sentia a mata de forma mais profunda agora, os ecos de Nahely ainda ressoando em suas memórias. Ele parou subitamente, apontando para uma formação rochosa à margem do rio, coberta por trepadeiras que pareciam formar um padrão quase intencional. "Olhem isso," disse, a voz baixa. "Não é natural. A mata não desenha assim sozinha."
Soyala aproximou-se, o caderno de folhas de palha aberto em suas mãos. Ela comparou as marcas com anotações antigas, traçadas por Ayra anos atrás. "É um sinal," confirmou ela, franzindo a testa. "Ayra escreveu sobre 'os guardiões de pedra', marcos que protegiam o caminho para a Nascente Viva. Mas também avisou que esses lugares atraem os Esquecidos. Devemos ter cuidado."
Itiberê sentiu o colar vibrar, uma pulsação mais forte, quase urgente. Ele olhou para Tayen, que assentiu, apertando a cesta de oferendas contra o peito. "Se é um marco, estamos no caminho certo," disse ela. "Mas também significa que os Esquecidos sabem onde estamos." Kalyon, alheio à tensão, correu até as rochas, apontando para uma fenda onde uma luz suave, quase esverdeada, emanava. "Olha, mãe! Parece o Coração da Mata!"
Kenai foi até o menino rapidamente, puxando-o com cuidado para trás. "Não tão rápido, pequeno," disse, examinando a fenda. A luz pulsava em sincronia com o colar de Itiberê, e o chão ao redor vibrava levemente, como na clareira. Ele tocou a pedra, sentindo uma energia antiga, como se a própria mata estivesse viva dentro dela. "É um eco do Coração," murmurou. "A Nascente Viva deve estar próxima, mas isso também é um aviso. Os Esquecidos podem estar nos observando."
Naquela noite, acamparam perto do rio, sob a proteção de uma árvore gigantesca cujas raízes formavam um abrigo natural. Soyala cantava uma melodia suave, as palavras antigas de Ayra trazendo calma ao grupo. Kalyon adormeceu no colo de Tayen, a semente ainda segura em sua mão. Itiberê e Kenai mantinham vigília, os olhos fixos na escuridão além do brilho da fogueira. "Tu achas que a mata escolheu Kalyon por algum motivo?" perguntou Itiberê, a voz quase um sussurro.
Kenai olhou para o menino adormecido, depois para o bastão em suas mãos. "A mata escolhe quem carrega seu coração, Itiberê. Tu, eu, Tayen... e agora Kalyon. Ele é jovem, mas a semente que ele carrega não é comum. Soyala disse que veio do Coração da Mata, um presente que Nahely guardava para um momento como este." Ele fez uma pausa, os olhos brilhando com a luz do fogo. "A Nascente Viva vai nos mostrar o que ele deve fazer."
Ao amanhecer, continuaram a jornada, o rio ficando mais estreito e rápido, as árvores mais altas e antigas, com troncos que pareciam guardar segredos de séculos. O colar de Itiberê agora brilhava constantemente, e ele sentia uma conexão crescente com a mata, como se cada passo o fundisse mais com ela. Tayen, sempre atenta, notou pegadas frescas na margem não humanas, mas também não de animais conhecidos. "Os Esquecidos," disse ela, a voz firme, mas tensa. "Eles estão nos seguindo."
Soyala, consultando o caderno, apontou para uma passagem de Ayra: "Onde o rio canta mais alto, a Nascente Viva espera. Mas cuidado, pois as sombras dançam onde a luz é mais forte." De fato, o som do rio crescia, um rugido que ecoava entre as árvores. À frente, uma cortina de cipós bloqueava o caminho, mas através dela, um brilho intenso, quase cegante, escapava.
Itiberê abriu passagem com cuidado, o colar agora quente como brasa. Do outro lado, a Nascente Viva revelou-se: uma lagoa cristalina, cercada por rochas que pareciam pulsar com vida, alimentada por uma fonte que brotava do chão. No centro, uma árvore anciã, maior que qualquer outra que já viram, suas raízes mergulhando na água, brilhava com a mesma luz do Coração da Mata. Mas ao redor, sombras escuras moviam-se, formas indistintas dos Esquecidos, observando, esperando.
Kalyon, segurando a semente, deu um passo à frente, os olhos arregalados. "Ela quer crescer aqui," disse ele, apontando para a lagoa. Antes que Itiberê pudesse detê-lo, o menino correu até a margem, ajoelhando-se para plantar a semente na terra úmida. No instante em que a semente tocou o solo, a lagoa brilhou, e a árvore anciã tremeu, suas folhas soltando uma luz que afastou as sombras por um momento.
Mas as sombras voltaram, mais densas, mais agressivas, formando um círculo ao redor do grupo. Kenai ergueu o bastão, Soyala começou a cantar, e Tayen puxou Kalyon para trás, protegendo-o com o corpo. Itiberê tocou o colar, sentindo a voz da mata ecoar novamente: "A semente é a chave, Itiberê. Mas o preço será alto. Protege o menino, e a Nascente viverá. Falhe, e a mata cairá."
Com o colar ardendo e a luz da Nascente Viva iluminando o caminho, Itiberê olhou para sua família, para Kenai, para Soyala, e sentiu o peso da escolha. A batalha final estava apenas começando.
Capítulo 32: O Coração da Nascente
A luz da Nascente Viva banhava a lagoa com um fulgor que parecia vivo, pulsando em harmonia com o colar que eu, Itiberê, trazia ao peito. As sombras dos Esquecidos moviam-se em silêncio, um círculo de trevas que se fechava em torno de nós. Kenai, com o bastão entalhado erguido, mantinha os olhos fixos nas formas indistintas, enquanto Soyala, com sua voz suave, entoava um cântico antigo, cujas palavras pareciam acalmar a própria mata. Tayen, segurando Kalyon junto a si, protegia o menino com o corpo, mas seus olhos brilhavam com uma determinação que me fortalecia.
Eu sentia o colar arder, como se a mata me falasse diretamente ao coração. A voz, clara e profunda, ecoava em minha mente: A semente é a chave, Itiberê. Protege o menino, ou a mata perecerá. Olhei para Kalyon, que, com a semente ainda entre os dedos, parecia alheio ao perigo, fitando a árvore anciã no centro da lagoa com uma confiança que só uma criança poderia ter. Ele ergueu os olhos para mim e disse, com a voz firme: Pai, a semente quer ficar aqui. Eu sei.
Tayen, ouvindo as palavras do filho, apertou-lhe a mão, mas voltou-se para mim com um olhar que misturava temor e resolução. Itiberê, disse ela, se a mata escolheu Kalyon, devemos confiar. Mas não o deixarei enfrentar isto sozinho. Eu assenti, sentindo o peso da responsabilidade sobre meus ombros. A ti, Tayen, prometo que o protegerei com minha vida, respondi, e ela sorriu, um sorriso que me lembrou por que lutávamos.
Kenai, aproximando-se, tocou o chão com o bastão, e a terra vibrou levemente, como se respondesse ao seu chamado. A Nascente Viva é o coração da mata, disse ele, com a autoridade de quem agora compreendia os segredos de Nahely. Mas os Esquecidos sabem disso. Eles não permitirão que a semente cresça sem luta. Olhou para Soyala, que terminava seu cântico, e perguntou: As histórias de Ayra falam de como proteger a Nascente?
Soyala, segurando o caderno de folhas de palha, folheou-o com mãos trêmulas. Ayra escreveu que a Nascente só pode ser selada com a união de todos, respondeu ela. A semente precisa da luz do colar, do poder do bastão e da voz da mata, que vive em nossas canções. Mas há um preço. Alguém deve oferecer algo de si à Nascente. Ela olhou para mim, depois para Kalyon, e seus olhos revelavam o peso de suas palavras.
Eu senti o colar pulsar com mais força, como se me instasse a agir. Kalyon, sem hesitar, correu até a margem da lagoa, onde a semente tocara a terra antes. Ele ajoelhou-se e, com cuidado, colocou a semente no solo, murmurando palavras que eu não compreendi, mas que pareciam ecoar o cântico de Soyala. No instante em que a semente foi enterrada, a árvore anciã brilhou com uma luz tão intensa que as sombras dos Esquecidos recuaram, sibilando como se feridas.
Mas a vitória foi breve. As sombras reagruparam-se, mais densas, e avançaram com uma fúria que fez a terra tremer. Kenai ergueu o bastão, e uma onda de energia, como uma brisa quente, afastou as formas mais próximas. Soyala, retomando o cântico, posicionou-se ao lado de Kalyon, enquanto Tayen, com uma faca que sempre carregava, colocou-se entre o menino e as sombras. Eu, tocando o colar, senti a voz da mata novamente: Itiberê, a Nascente exige sacrifício. O que estás disposto a dar?
Eu olhei para minha família, para Kenai, que lutava com o poder do bastão, para Soyala, cuja voz mantinha as sombras a distância, e para Kalyon, cuja semente agora começava a brotar, uma luz verde escapando do solo. Eu sabia o que a mata pedia. O colar, que me guiara até aqui, era mais que um amuleto; era parte de mim, parte da minha ligação com a mata. Mas se a Nascente precisava dele, eu o entregaria.
Com um gesto firme, arranquei o colar do peito e caminhei até a lagoa. As sombras tentaram me deter, mas Kenai e Tayen as contiveram, enquanto Soyala cantava com mais força, sua voz agora unida à de Kalyon, que repetia as palavras com uma clareza surpreendente. Eu mergulhei o colar na água da Nascente, e a lagoa explodiu em luz, um brilho que envolveu a todos nós. As sombras gritaram, dissolvendo-se como fumaça, e a árvore anciã estremeceu, suas raízes brilhando como veias de luz.
Mas a luz exigiu seu preço. Eu senti uma fraqueza súbita, como se parte de minha força tivesse sido drenada. Caí de joelhos, e Tayen correu até mim, segurando-me. Itiberê, o que fizeste? perguntou ela, os olhos cheios de lágrimas. Eu sorri, fraco, mas aliviado. Dei o que a mata pediu, respondi. O colar era meu fardo, mas a semente de Kalyon é o futuro.
Kalyon, agora ao meu lado, tocou o broto que crescia na margem. Ele brilhava, como o Coração da Mata, e a lagoa parecia mais viva, suas águas cristalinas pulsando com energia. Kenai, aproximando-se, colocou a mão em meu ombro. A Nascente está selada, disse ele. Os Esquecidos não voltarão tão cedo. Mas a mata ainda nos observará, para garantir que honremos este sacrifício.
Soyala, fechando o caderno, olhou para a árvore anciã. Ayra estaria orgulhosa, disse ela. Vós protegestes o coração da mata. Kalyon, sorrindo, abraçou-me, e eu senti que, apesar do preço, a vila de Santa Luzia viveria. A jornada não terminara, mas, por ora, a Nascente Viva estava segura, e nós, unidos, éramos seu guardião.
Capítulo 33: O Regresso a Santa Luzia
O brilho da Nascente Viva ainda ecoava em nossos corações quando iniciamos o caminho de volta a Santa Luzia. Eu, Itiberê, sentia o vazio onde outrora o colar repousava, mas uma nova força crescia em mim, nascida da certeza de que a semente de Kalyon havia selado o equilíbrio da mata. Tayen caminhava ao meu lado, segurando a mão do menino, cujo rosto resplandecia com uma alegria serena. Kenai, com o bastão entalhado firme em sua mão, liderava o grupo, enquanto Soyala, com o caderno de folhas de palha sob o braço, cantarolava uma melodia suave, como se quisesse agradecer à mata por nossa vitória.
O rio, agora mais calmo, parecia acompanhar nosso passo, suas águas refletindo o céu crepuscular que se formava acima. Kalyon, segurando uma pequena pedra brilhante que encontrara na margem da Nascente, olhava para mim com olhos curiosos. Pai, perguntou ele, a mata vai ficar feliz agora? Eu sorri, pousando a mão em sua cabeça. Sim, Kalyon, respondi. A mata está em paz, e tu ajudaste a torná-la assim. Ele riu, correndo à frente para mostrar a pedra a Soyala, que lhe respondeu com uma história sobre as pedras vivas de Ayra.
Tayen, percebendo meu silêncio, aproximou-se e tomou minha mão. Itiberê, disse ela, sei que o colar era parte de ti. Sentes sua falta? Eu hesitei, pois a verdade era complexa. O colar era um peso, confessei, mas também uma guia. Agora, sem ele, sinto a mata de outro modo, como se ela confiasse em mim sem precisar de amuletos. Ela apertou minha mão, seus olhos brilhando com orgulho. A mata sempre confiou em ti, disse ela. O colar apenas te lembrou disso.
Kenai, que caminhava alguns passos adiante, parou subitamente, examinando o chão. Ele apontou para marcas na terra, não as pegadas estranhas dos Esquecidos, mas sinais de animais — cervos, talvez, ou capivaras. A mata está voltando à vida, disse ele, com um sorriso raro. Os Esquecidos se foram, e os animais sentem isso. A Nascente deve ter restaurado o equilíbrio além do que vimos. Soyala assentiu, anotando a observação no caderno. Ayra dizia que a Nascente é o coração de tudo, murmurou ela. Se ela vive, a mata inteira respira.
O caminho de volta foi mais leve, como se a mata, agora em harmonia, abrisse suas trilhas para nós. As árvores pareciam menos densas, e o canto dos pássaros enchia o ar. Contudo, eu sabia que a paz era frágil. A mata sempre exigiria vigilância, e a responsabilidade de Kalyon, ainda tão jovem, pesava em meu coração. Ele corria à frente, brincando com a pedra, mas eu via nele algo maior, uma conexão com a mata que nem ele próprio compreendia.
Ao chegarmos à vila, ao entardecer do terceiro dia, fomos recebidos por um silêncio cheio de expectativa. Dona Raíra, com seus olhos atentos, foi a primeira a nos avistar. Ela correu até nós, abraçando Tayen e Kalyon, enquanto os demais moradores se reuniam na praça. Vós vencestes, disse ela, não como uma pergunta, mas como uma certeza. Eu assenti, e Kenai ergueu o bastão, que brilhou suavemente sob a luz do crepúsculo. A Nascente Viva está selada, anunciou ele, e a semente de Kalyon é seu novo coração.
Os moradores explodiram em vivas, mas eu percebi, nos olhos de alguns anciãos, uma sombra de preocupação. Eles sabiam, como eu, que a mata nunca cessava de testar seus guardiões. Dona Raíra, tomando a palavra, olhou para mim. Itiberê, disse ela, a vila deve saber o que aconteceu. Conta-nos, para que o legado de Nahely e Ayra perdure. Eu respirei fundo, sentindo o peso do momento, e comecei a narrar a jornada, desde o chamado da mata até o sacrifício do colar.
Kalyon, sentado entre Tayen e Soyala, ouvia com atenção, como se minha história confirmasse o que ele já sentia. Quando mencionei a semente, ele ergueu a pedra brilhante, e os moradores murmuraram, maravilhados. Soyala, percebendo o momento, abriu o caderno e leu uma passagem de Ayra: Quando a Nascente brilhar novamente, um novo guardião surgirá, não com um colar, mas com a luz da mata em seu coração. Todos olharam para Kalyon, e eu soube que ele era esse guardião.
Naquela noite, a vila celebrou com cânticos e oferendas ao Coração da Mata, que agora crescia forte na clareira. Kenai, como Pagé, liderou as preces, enquanto Soyala ensinava às crianças uma nova canção, inspirada na Nascente Viva. Tayen e eu, sentados sob a luz da fogueira, observávamos Kalyon brincar com outras crianças, sua pedra brilhante refletindo o fogo. Ele é o futuro, disse Tayen, com a voz suave. E nós somos sua força, respondi, apertando-lhe a mão.
Mas, no fundo de minha alma, eu sentia um sussurro da mata, um lembrete de que a paz era apenas o começo. A Nascente Viva estava segura, mas outros desafios viriam. Eu olhei para o céu, onde as estrelas começavam a surgir, e murmurei uma prece a Anaíra, pedindo que nos guiasse. A mata, viva e eterna, parecia responder com o vento, e eu soube que Santa Luzia, com Kalyon à frente, jamais deixaria de lutar por seu coração.
Capítulo 34: Os Ventos do Brasil
A vila de Santa Luzia repousava em paz sob o céu estrelado, mas eu, Itiberê, sentia no peito uma inquietação que não explicava. A Nascente Viva, agora selada pela semente de Kalyon, parecia ter despertado algo maior, como se a mata, em sua sabedoria antiga, quisesse ligar nosso pequeno mundo a um tapete mais vasto, tecido por histórias e espíritos que cruzavam o Brasil. O vento, naquela noite, soprava diferente, trazendo sussurros que não pertenciam apenas à nossa floresta.
Kalyon, adormecido nos braços de Tayen, segurava a pedra brilhante, que pulsava com um leve fulgor, como se respondesse ao chamado distante. Eu olhava para ele, perguntando-me que papel a mata lhe reservava. Soyala, sentada perto da fogueira, folheava o caderno de Ayra, seus olhos percorrendo linhas que falavam de tempos imemoriais. Kenai, com o bastão entalhado ao lado, observava o horizonte, onde o rio se perdia na escuridão. Algo se aproxima, disse ele, com a voz grave. Não são os Esquecidos, mas algo... maior.
Eu assenti, pois sentia o mesmo. A mata, agora em equilíbrio, parecia querer nos guiar para além de suas fronteiras, como se Santa Luzia fosse apenas uma peça num mosaico de forças que cruzavam rios, serras e sertões. Dona Raíra, sempre atenta, juntou-se a nós, trazendo um velho mapa que os anciãos guardavam. Este mapa, disse ela, não mostra apenas nossa mata. Ele aponta caminhos que levam a outros corações, outras nascentes, espalhados pelo Brasil. A mata de Santa Luzia é forte, mas está ligada a outros espíritos, outras vozes.
Soyala, erguendo os olhos do caderno, leu uma passagem que fez todos silenciarem: Ayra escreveu que a mata não é uma só. Ela é irmã de outras forças, de outros guardiões, que habitam as águas do grande rio Amazonas, os ventos do sertão nordestino, as pedras das serras do Sul. Cada lugar tem seu coração, e todos estão unidos por um sopro antigo, que os povos primeiros chamavam de Yvyrá. Eu senti um arrepio, pois o nome Yvyrá, a árvore-mãe, ecoava nas histórias que Nahely me contara em segredo.
Tayen, segurando Kalyon com firmeza, olhou para mim. Itiberê, disse ela, se a mata nos chama para além do rio, talvez seja para encontrar esses outros corações. Kalyon pode ser o guardião da Nascente Viva, mas quem protege as outras terras? Eu não soube responder, mas o peso de suas palavras me fez compreender que nossa missão não terminara. A vila estava segura, mas o Brasil, com suas matas, rios e montanhas, parecia clamar por nós.
Kenai, tocando o bastão, falou com a autoridade de Pagé. Devemos partir, disse ele. Não para abandonar Santa Luzia, mas para entender o que a mata espera de nós. O bastão brilha quando falo de outros lugares, como se quisesse nos guiar. Soyala, fechando o caderno, concordou. Ayra dizia que Yvyrá conecta todos os povos, todas as terras. Talvez a semente de Kalyon seja apenas o começo. Talvez haja outras sementes, outros guardiões.
Eu olhei para o mapa de Dona Raíra, que marcava pontos distantes: o grande rio do Norte, onde diziam habitar um boto que falava com os homens; as terras secas do Nordeste, onde o vento contava histórias de um vaqueiro encantado; as montanhas do Sul, onde pedras antigas guardavam segredos de povos esquecidos. Cada marca parecia pulsar, como se a própria mata me chamasse para essas terras. Eu sabia que não podia ignorar esse chamado, mas temia levar Kalyon para perigos desconhecidos.
Kalyon, despertando nos braços de Tayen, ergueu a pedra brilhante e disse, com a voz clara: Pai, a pedra diz que devemos ir ao rio grande. Lá tem uma voz como a da Nascente. Eu e Tayen trocamos olhares, surpresos com a certeza do menino. Dona Raíra, sorrindo, pousou a mão em seu ombro. Ele é o guardião, Itiberê, disse ela. Confia nele, como confiaste na mata.
Na manhã seguinte, reunimos a vila na praça. Eu contei o que sentíamos, o chamado de Yvyrá, a conexão entre nossa mata e as terras distantes. Os moradores ouviram em silêncio, alguns com temor, outros com esperança. Um ancião, cuja voz raramente se ouvia, levantou-se. Há muito, disse ele, os povos primeiros falavam de guardiões que viajavam o Brasil, unindo os corações da terra. Se Kalyon é um deles, vós deveis ir. Santa Luzia vos aguardará.
Decidimos, então, que eu, Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala partiríamos. Dona Raíra ficaria liderando a vila e protegendo o Coração da Mata. Munimo-nos de mantimentos, amuletos e o caderno de Soyala, que agora incluía anotações sobre Yvyrá e os corações do Brasil. Kalyon, segurando sua pedra, parecia pronto, como se a mata já lhe tivesse mostrado o caminho. Seguimos o rio, rumo ao Norte, onde o grande Amazonas corria.
O vento trazia cheiros novos, sons de pássaros que não conhecíamos, e eu sentia, em meu coração, que estávamos entrando num Brasil maior, onde mitos e espíritos caminhavam vivos. A mata de Santa Luzia era nossa casa, mas agora éramos parte de algo imenso, um tecido de histórias que cruzava florestas, rios e sertões.
Eu segurei a mão de Tayen, sentindo a força de nossa união, e murmurei: Que Yvyrá nos guie. O vento respondeu, como se Anaíra, Ayra e Nahely estivessem conosco, sussurrando dos confins do Brasil.
Capítulo 35: Os Guardiões de Yvyrá
O grande rio Amazonas estendia-se diante de nós, suas águas escuras refletindo o céu como um espelho vivo, carregado de segredos. Eu, Itiberê, caminhava com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala pelas margens lamacentas, onde a mata se entrelaçava com o rio, formando um corredor verde que parecia pulsar com a força de Yvyrá, a árvore-mãe que unia os corações do Brasil. A pedra de Kalyon brilhava com mais intensidade, como se reconhecesse o poder daquele lugar, e ele, com olhos arregalados, apontava para as águas, dizendo: Pai, a voz está aqui, dentro do rio.
Tayen segurava a mão do menino, seus olhos atentos aos movimentos da floresta, enquanto Kenai, com o bastão entalhado firme em suas mãos, examinava as árvores, cujas raízes mergulhavam nas águas. Soyala, com o caderno de Ayra aberto, lia passagens que falavam dos espíritos que habitavam o Norte, guardiões antigos que protegiam os rios e as matas. Ela ergueu os olhos e disse: Ayra escreveu sobre o Boto, um espírito das águas que guia os perdidos, mas também engana os incautos. Ele pode ser amigo ou desafio, dependendo de nosso respeito.
Eu sentia a mata nos observar, não apenas a floresta de Santa Luzia, mas algo maior, um tecido de mitos que cruzava o Brasil, desde os igarapés do Amazonas até os sertões do Nordeste e as serras do Sul. A cada passo, o ar parecia carregado de vozes antigas, de povos que cantavam a Yvyrá antes mesmo que o nome fosse pronunciado. Kalyon, segurando sua pedra, parou subitamente, apontando para um remanso onde a água formava redemoinhos suaves. Olha, pai, disse ele, é ele!
Das águas emergiu uma figura, não um homem, mas também não um animal. Era o Boto, com olhos profundos como o rio e uma presença que misturava graça e mistério. Ele nos fitou, e sua voz, como um murmúrio das águas, ecoou em nossas mentes: Vós sois os guardiões da Nascente Viva. Por que vindes ao coração do Amazonas? Eu, tocando o espaço vazio onde outrora repousava o colar, respondi: A mata nos chamou, Boto. A semente de Kalyon selou a Nascente, mas Yvyrá nos guia para unir os corações do Brasil.
O Boto inclinou a cabeça, como se pesasse minhas palavras. Yvyrá é mais que uma árvore, disse ele. Ela é o sopro que conecta o Curupira, que guarda as matas do Centro; o Saci, que dança nos ventos do Sudeste; a Caipora, que protege os caminhos do Sul; e até o Boitatá, que ilumina as noites do sertão. Cada um guarda um coração da terra, mas nem todos estão em paz. Ele olhou para Kalyon, e seus olhos suavizaram. O menino carrega a luz de Yvyrá. Ele deve falar com os outros guardiões.
Tayen, protetora como sempre, puxou Kalyon para si. Ele é apenas uma criança, disse ela, com a voz firme, mas trêmula. O Boto sorriu, um sorriso que parecia carregar séculos. As crianças veem o que os adultos esquecem, respondeu ele. A pedra que ele segura é um fragmento de Yvyrá, dada aos primeiros povos. Ela o guiará, mas vós deveis protegê-lo. O equilíbrio do Brasil depende disso.
Kenai, erguendo o bastão, perguntou: Para onde devemos ir, Boto? Há outros corações em perigo? O espírito das águas apontou para o sul, onde o rio se encontrava com o horizonte. O Curupira clama por ajuda, disse ele. As matas do Centro estão sendo feridas, e ele não pode protegê-las sozinho. Levai o menino e a pedra. Mas cuidado: o Curupira não confia facilmente, e suas trilhas são traiçoeiras.
Soyala, anotando cada palavra no caderno, olhou para mim. Ayra falava do Curupira como um guardião feroz, disse ela, mas também justo. Ele testa aqueles que entram em seu domínio. Se Kalyon é o escolhido, devemos prepará-lo. Ela ajoelhou-se diante do menino, mostrando-lhe uma ilustração no caderno: um ser pequeno, de pés virados, com cabelos de fogo. Kalyon riu, sem medo, e disse: Ele parece engraçado. Posso falar com ele, Soyala. Eu assenti, mas meu coração apertava. O Brasil era vasto, e seus espíritos, poderosos.
Naquela noite, acampamos às margens do Amazonas, sob o olhar vigilante do Boto, que desapareceu nas águas, mas deixou um presente: uma concha brilhante, que Soyala guardou com cuidado. Ela disse que era um amuleto, um sinal de que o Boto nos protegia. Enquanto Kalyon dormia, Tayen e eu conversávamos em voz baixa. Itiberê, disse ela, este caminho é maior que Santa Luzia. O Brasil inteiro parece nos chamar. Estás pronto para isso? Eu segurei sua mão, sentindo a força que sempre me guiara. Contigo e com Kalyon, respondi, estou pronto para tudo.
Kenai, sentado perto do fogo, traçava mapas na terra com o bastão. O Centro é longe, disse ele. Passaremos por rios e matas, talvez até pelo Pantanal, onde dizem que o Boitatá serpenteia à noite. Devemos estar atentos, pois cada guardião tem seu próprio teste. Eu sabia que ele tinha razão. O Brasil não era apenas terra; era um mosaico de mitos, de espíritos como o Saci, que brincava com os ventos, ou a Iara, que cantava nas águas profundas. Cada um guardava um pedaço de Yvyrá, e nossa missão era uni-los.
Ao amanhecer, partimos, seguindo o curso do rio em direção ao Centro. Kalyon, com a pedra brilhante no bolso, caminhava à frente, como se soubesse o caminho. A mata parecia abrir-se para ele, e eu sentia, em cada passo, que estávamos entrando mais fundo no coração do Brasil, onde os mitos viviam e respiravam. A voz de Anaíra, Ayra e Nahely parecia ecoar no vento, misturada aos sussurros do Boto, do Curupira e de outros espíritos que ainda não conhecíamos. Yvyrá nos guiava, e eu sabia que, com Kalyon, Tayen, Kenai e Soyala, enfrentaríamos o que viesse, para proteger o equilíbrio de um Brasil antigo e eterno.
Capítulo 36: Os Ecos de Yvyrá
O amanhecer em Santa Luzia trazia um vento novo, que carregava consigo o perfume de terras distantes. Eu, Itiberê, sentia a mata pulsar com uma energia inquieta, como se ela sussurrasse segredos de além dos limites da vila. Kalyon, agora com sua pedra brilhante sempre ao alcance, brincava na praça, mas seus olhos, tão jovens, pareciam buscar algo no horizonte. Tayen, ao meu lado, preparava uma cesta de oferendas, enquanto Kenai, com o bastão entalhado, reunia os anciãos para discutir os sinais que a mata enviava.
Soyala, com seu caderno de folhas de palha, anotava cada detalhe, sabendo que as histórias de Ayra agora se entrelaçavam com algo maior. Na noite anterior, um sonho estranho visitara-me. Vi uma grande árvore, maior que qualquer outra, cujas raízes se estendiam por todo o Brasil, conectando rios, montanhas e florestas. Uma voz, não a da mata de Santa Luzia, mas algo mais antigo, falou-me: Itiberê, a Nascente Viva é apenas uma parte de Yvyrá, a árvore-mãe que sustenta a terra. Os guardiões de outros povos estão despertando.
Busca-os, pois os Esquecidos não pertencem só à vossa mata. Acordei com o coração acelerado, e o olhar de Kalyon, ao amanhecer, parecia confirmar que ele também sentira algo. Kenai, após ouvir meu relato, franziu o cenho. A mata sempre falou de Yvyrá, disse ele, mas nunca tão claro. As lendas de Nahely mencionavam outros guardiões, espalhados por terras distantes, cada um protegendo um pedaço da grande árvore. Talvez a Nascente tenha despertado algo maior. Soyala, folheando o caderno, encontrou uma passagem de Ayra:
Quando Yvyrá chamar, os guardiões do norte, do Sul, do Leste e do Oeste se unirão, pois a terra é uma só. Ela olhou para nós, os olhos brilhando. Devemos partir, disse ela. Não só por Santa Luzia, mas por todos os povos da terra. Tayen, segurando a mão de Kalyon, assentiu. Se a mata nos chama, disse ela, não podemos recusar. Mas levaremos Kalyon? Eu hesitei, pois o menino, embora ligado à mata, era ainda tão jovem. Contudo, seus olhos encontraram os meus, e ele disse, com uma firmeza que me surpreendeu: Eu vou, pai. A pedra brilha mais forte quando penso em ir.
Eu sorri, sabendo que a mata o escolhera tanto quanto a mim. Assim, decidimos partir, não apenas como guardiões de Santa Luzia, mas como emissários de Yvyrá. Dona Raíra, com sua energia incansável, organizou a vila para nossa ausência, prometendo proteger o Coração da Mata. Os moradores, reunidos, ofereceram preces e amuletos, e uma anciã entregou-me um mapa rudimentar, desenhado em couro, que mostrava caminhos para terras distantes, onde outros povos guardavam segredos da mata.
Nossa primeira jornada levou-nos ao norte, rumo à grande floresta amazônica, onde os rios pareciam veias da própria Yvyrá. Após dias de viagem, guiados pelo rio e pela intuição de Kalyon, chegamos a uma aldeia dos Yanomami, onde fomos recebidos por uma xamã chamada Davi. Seus olhos, profundos como a noite, fixaram-se na pedra de Kalyon. Vós sois os guardiões do sul, disse ela. A mata-mãe falou de vós. Aqui, protegemos o espírito de Yacumama, a serpente-mãe que guarda os rios. Davi levou-nos a um igarapé onde a água brilhava com reflexos dourados.
Ali, sob a luz da lua, ela contou a lenda de Yacumama, uma serpente colossal que nadava pelos rios, protegendo as águas de invasores. Mas os Esquecidos, disse ela, estão envenenando os rios, e Yacumama enfraquece. Kalyon, segurando sua pedra, aproximou-se da água e, para nossa surpresa, a pedra brilhou, e a água respondeu com um leve tremor. Davi sorriu. O menino carrega a luz de Yvyrá, disse ela. Ele pode chamar Yacumama. Sob a orientação de Davi, realizamos um ritual.
Soyala cantou uma melodia que misturava as canções de Ayra com as de seu povo, enquanto Kenai tocava o solo com o bastão. Eu e Tayen, ao lado de Kalyon, mergulhamos a pedra na água, e uma forma imensa emergiu, não como ameaça, mas como aliada. Yacumama, com escamas que refletiam o luar, ergueu a cabeça e pareceu reconhecer a luz da pedra. Davi, com lágrimas nos olhos, disse: A serpente-mãe está forte novamente. Vós sois bem-vindos entre nós. Mas a jornada não terminou ali. Davi falou de outros guardiões, em terras distantes.
No sul, nas coxilhas do pampa, o povo Guarani protegia a lenda de Jasy Jatere, o espírito da sesta que guardava os sonhos das crianças. No leste, nas praias do Nordeste, os pescadores reverenciavam Iemanjá, a rainha do mar, cuja força mantinha o equilíbrio das águas salgadas. E no oeste, nas montanhas de Minas Gerais, contavam histórias do Saci, um guardião travesso que protegia as matas com suas artimanhas.
Eu senti o peso dessa nova missão. A mata de Santa Luzia era apenas uma parte de um todo maior, e os Esquecidos, como sombras de um mal antigo, ameaçavam todo o Brasil. Kalyon, segurando minha mão, olhou para o horizonte. Pai, disse ele, a pedra quer ir ao mar. Quero ver Iemanjá. Tayen riu, mas seus olhos mostravam orgulho. Então iremos, disse ela. Por Yvyrá, por Kalyon, por todos.
Naquela noite, acampados sob as estrelas, Soyala escreveu no caderno as histórias de Yacumama, prometendo contar as próximas que encontraríamos. Kenai, olhando o mapa de couro, traçou o caminho para o leste, onde as ondas do mar nos esperavam. Eu, abraçando Tayen e Kalyon, senti a mata pulsar em meu peito, mesmo sem o colar. A jornada de Santa Luzia agora era a jornada do Brasil, e os ecos de Yvyrá nos guiariam.
Capítulo 37: As Sombras do Saci
O sol ardia sobre a mata, e o calor do meio-dia tornava o ar denso, como se a própria floresta respirasse com dificuldade. Eu, Itiberê, caminhava à frente do grupo, sentindo o peso do novo chamado que a mata nos impusera. Tayen, ao meu lado, segurava a mão de Kalyon, que, com seus olhos vivos, observava cada sombra entre as árvores, como se esperasse encontrar algo escondido.
Kenai, com o bastão entalhado firme em sua mão, mantinha-se alerta, enquanto Soyala, com o caderno de folhas de palha, anotava os sinais que a mata oferecia, buscando pistas sobre o caminho que Yvyrá indicara. A mensagem da grande árvore fora clara: além da Nascente Viva, outros espíritos do Brasil, guardiões de lendas antigas, estavam inquietos.
A mata de Santa Luzia, agora em equilíbrio, era apenas uma parte de um todo maior, um tecido de histórias que cruzava rios, montanhas e sertões. Yvyrá falara de um desequilíbrio no sul, onde o vento trazia risadas estranhas e os caminhos se tornavam confusos. Eu sabia, pelo pulsar da semente que Kalyon carregava, que nossa jornada estava longe de terminar.
Chegamos a uma clareira onde o rio se alargava, formando uma lagoa de águas escuras, cercada por capim alto e árvores retorcidas. O ar ali parecia diferente, carregado de uma energia travessa. Kalyon parou, apontando para uma sombra que dançava entre os galhos, rápida demais para ser um pássaro. Pai, disse ele, com a voz cheia de curiosidade, algo está brincando conosco.
Eu olhei para Tayen, que franziu o cenho, segurando a faca que sempre trazia consigo. Kenai, tocando o chão com o bastão, murmurou: É ele. O Saci. Soyala, folheando o caderno, confirmou com um aceno. As histórias de Ayra falam do Saci-Pererê, disse ela, um espírito da mata que zomba dos viajantes, confundindo seus caminhos com ventos e risadas. Ele não é mau, mas é astuto. Se queremos atravessar esta região, precisamos conquistá-lo ou enganá-lo.
Eu senti um arrepio, pois as lendas do Saci, contadas pelos anciãos de Santa Luzia, descreviam um ser pequeno, de uma perna só, com um gorro vermelho que lhe dava poderes. Perder-se em seus truques podia custar dias, ou algo pior. Subitamente, o vento soprou forte, e uma risada aguda cortou o ar, fazendo as folhas girarem em redemoinhos. Kalyon riu, como se achasse graça, mas Tayen puxou-o para perto. Itiberê, disse ela, precisamos agir com cautela.
Este lugar é dele, e ele sabe disso. Eu assenti, procurando sinais do Saci. Então, vi o brilho vermelho de seu gorro, movendo-se rápido entre as árvores, desaparecendo antes que eu pudesse fixar o olhar. Kenai, com a calma de um Pagé, ergueu o bastão e falou alto: Saci-Pererê, guardião desta mata, não viemos para desafiar-te, mas para seguir o chamado de Yvyrá. Mostra-te, e conversemos como iguais.
O vento parou por um instante, e a risada voltou, agora mais próxima. Num piscar de olhos, ele apareceu, sentado num toco, com um cachimbo na boca e o gorro vermelho brilhando como brasa. Era pequeno, com a pele escura como a noite e um sorriso travesso que revelava dentes brancos. Que querem vós com Yvyrá? perguntou o Saci, soprando uma baforada de fumaça que formou círculos no ar. A mata está em paz, mas vós, forasteiros, trazem inquietação.
Eu dei um passo à frente, mantendo a voz firme. Somos de Santa Luzia, respondi, e a grande árvore nos enviou para restaurar o equilíbrio. Há sombras além desta mata, e precisamos de tua ajuda para atravessar este caminho. O Saci riu, pulando do toco e girando num redemoinho que levantou poeira. Ajuda? disse ele, com a voz cheia de zombaria. O Saci não ajuda sem um preço. Resolvi um enigma meu, e talvez eu vos mostre o caminho.
Falhou, e vos perderei nesta mata até o próximo luar. Tayen olhou para mim, preocupada, mas Kalyon, com sua ousadia de criança, deu um passo à frente. Eu gosto de enigmas, disse ele, segurando a semente brilhante. Conta-nos, Saci! O espírito da mata sorriu, inclinando o gorro. Muito bem, pequeno, disse ele. Eis o enigma: Sou leve como pena, mas ninguém me segura. Passo por todos, mas não me veem.
Quem sou eu? Kalyon franziu o cenho, pensando, enquanto Soyala sussurrava algo sobre as histórias de Ayra. Eu olhei para Kenai, que parecia meditar, tocando o bastão. Então, Kalyon ergueu a cabeça, com um brilho nos olhos. És o vento! exclamou. O Saci riu alto, batendo palmas, e o vento soprou novamente, agora mais suave. Bem respondido, pequeno, disse o Saci. Vós tendes coragem e sabedoria. Por isso, vos deixarei passar.
Mas cuidado: além desta lagoa, há outros guardiões, e nem todos são tão amigáveis quanto eu. Ele apontou para o sul, onde a mata se tornava mais densa. Procurem a Mãe d'Água, na cachoeira dos três véus. Ela guarda o próximo passo de vossa jornada, mas suas águas são traiçoeiras. Antes que eu pudesse agradecer, o Saci girou num redemoinho e desapareceu, deixando apenas o eco de sua risada e uma trilha clara à nossa frente.
Soyala anotou o encontro no caderno, murmurando: O Saci é apenas o primeiro. As lendas dizem que a Mãe d'Água é mais exigente. Kenai assentiu, olhando para a trilha. Ela protege os rios, disse ele. Se queremos seguir o chamado de Yvyrá, precisaremos de mais que enigmas para conquistá-la. Tayen, segurando Kalyon, olhou para mim com firmeza. Itiberê, disse ela, a mata nos testa, mas confio em nós. Kalyon já venceu o Saci, e juntos venceremos o que vier.
Eu sorri, sentindo o calor de suas palavras. A ti, Tayen, prometo que não desistirei, respondi. Kalyon, segurando a semente, correu à frente, apontando para a trilha. Vamos encontrar a Mãe d'Água, pai! disse ele, com a voz cheia de entusiasmo.
Seguimos a trilha, com o riso do Saci ainda ecoando ao longe, e eu senti que a mata, viva com as lendas do Brasil, nos guiava para um destino maior. A Mãe d'Água, com seus véus de água e segredos, aguardava-nos, e eu sabia que nossa jornada estava apenas começando.
Capítulo 38: O Chamado da Mãe d'Água
O som da cachoeira ecoava como um cântico ancestral, enchendo o ar com uma névoa fina que brilhava sob os raios do sol poente. Eu, Itiberê, caminhava com cautela pela trilha que o Saci nos indicara, sentindo a umidade da mata envolver-nos como um abraço. Tayen, segurando a mão de Kalyon, mantinha-se atenta, enquanto o menino, com a semente brilhante entre os dedos, olhava para a frente, fascinado pelo rugido das águas.
Kenai, com o bastão entalhado firme em sua mão, examinava as rochas escorregadias que ladeavam o caminho, e Soyala, com o caderno de folhas de palha, anotava cada detalhe, como se temesse perder os segredos que a mata revelava. A trilha terminava na base da cachoeira dos três véus, um lugar onde a água caía em cortinas prateadas, formando uma lagoa de um azul tão profundo que parecia conter o céu.
As lendas de Ayra, que Soyala recitara na noite anterior, falavam da Mãe d'Água, a guardiã dos rios, uma figura de beleza incomparável, mas cujo coração era tão imprevisível quanto as correntezas. Ela protegia as águas, mas não tolerava aqueles que desrespeitavam seu domínio. Eu sabia que nosso encontro com ela seria um teste maior que o do Saci. Kalyon, com sua curiosidade infantil, aproximou-se da margem da lagoa, inclinando-se para tocar a água.
Cuidado, pequeno, disse Tayen, puxando-o suavemente para trás. Esta lagoa não é comum. Sentes o peso no ar? Eu assenti, pois o ambiente parecia carregado, como se a própria água observasse nossos movimentos. Kenai, ajoelhando-se junto à margem, tocou o bastão na superfície, e pequenas ondulações formaram-se, brilhando com uma luz suave. Mãe d'Água, chamou ele, com a voz firme de Pagé, viemos em nome de Yvyrá, buscando o equilíbrio da mata.
Mostra-te, e deixa-nos falar contigo. Por um momento, nada aconteceu. Então, a água da lagoa começou a girar, formando um redemoinho lento que subiu até revelar uma figura. Era ela, a Mãe d'Água, com cabelos longos que pareciam feitos de riachos e olhos que brilhavam como pedras de rio polidas. Sua voz, quando falou, era como o murmúrio de uma correnteza.
Quem sois vós, que ousais perturbar meu repouso? perguntou ela, flutuando sobre a lagoa. Que buscais nas águas que guardo? Eu dei um passo à frente, sentindo o olhar dela pesar sobre mim. Sou Itiberê, de Santa Luzia, respondi. Comigo vêm Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Yvyrá, a grande árvore, enviou-nos para restaurar o equilíbrio do Brasil. O Saci nos guiou até aqui, dizendo que tu guardas o próximo passo de nossa jornada.
A Mãe d'Água inclinou a cabeça, examinando-nos. Seu olhar deteve-se em Kalyon, que segurava a semente com firmeza. Essa luz, disse ela, apontando para a semente, é antiga. Pertence à mata, mas também às águas. Por que deveria permitir-vos seguir adiante? Soyala, com sua sabedoria, abriu o caderno e leu uma passagem. As histórias de Ayra dizem que a Mãe d'Água protege o coração dos rios, mas também guia aqueles que respeitam suas águas.
Viemos com humildade, e Kalyon traz a semente que selou a Nascente Viva. Queremos apenas cumprir o chamado de Yvyrá. A Mãe d'Água sorriu, um sorriso que era ao mesmo tempo gentil e enigmático. Respeito vós tendes, disse ela, mas a mata exige mais que palavras. Mostrai-me que compreendeis o valor da água. Kalyon, sem hesitar, deu um passo à frente, segurando a semente. Eu sei, disse ele, com a voz clara.
A água dá vida à mata, como a semente dá vida à terra. Sem ela, nada cresce. Ele olhou para a lagoa, depois para a Mãe d'Água. Posso dar-te algo, se quiseres. Ele abriu a mão, mostrando a pedra brilhante que o Saci lhe permitira guardar. É um presente da mata, disse ele. Queres guardá-la nas tuas águas? A Mãe d'Água riu, um som que ecoou como gotas caindo sobre pedras. Pequeno, disse ela, tua oferta é pura, mas a água não precisa de pedras.
Precisa de promessas. Jura-me que vós, guardiões de Santa Luzia, protegereis os rios, assim como protegestes a mata. Tayen, ajoelhando-se ao lado de Kalyon, falou com firmeza. A ti, Mãe d'Água, juramos. Santa Luzia honrará as águas, como honra a mata. Eu, Itiberê, e todos nós prometemos. A Mãe d'Água pareceu satisfeita, pois a lagoa brilhou com uma luz suave, e o redemoinho acalmou-se. Então, disse ela, vos darei passagem.
Porém sabeis que o próximo guardião é mais severo. No coração do sertão, onde o sol queima a terra, vive o Boitatá, a serpente de fogo que guarda os segredos das cinzas. Ele não se deixa enganar por palavras ou promessas. Levai a semente, e que ela vos proteja. Com um gesto, ela apontou para o sul, onde a mata dava lugar a uma planície seca, visível ao longe. A água da lagoa formou uma trilha clara, que se estendia como um convite.
Antes de desaparecer, a Mãe d'Água olhou para Kalyon. Pequeno, disse ela, guarda tua pedra. Ela ainda terá serventia. Então, mergulhou nas águas, e a lagoa voltou à sua calma natural. Kenai, segurando o bastão, olhou para a trilha. O Boitatá, murmurou ele. As lendas dizem que ele queima aqueles que mentem ou destroem a mata. Precisaremos de mais que coragem para enfrentá-lo. Soyala, anotando no caderno, assentiu.
Ayra falava do Boitatá como um juiz da verdade, disse ela. Ele verá nossos corações antes de nos deixar passar. Tayen, segurando Kalyon, olhou para mim. Itiberê, disse ela, a semente de Kalyon nos trouxe até aqui. Confio que nos levará ao Boitatá. Eu assenti, sentindo o peso do novo desafio. A ti, Tayen, prometo que seguiremos juntos, respondi. Kalyon, segurando a pedra e a semente, sorriu.
Vamos encontrar a serpente de fogo, pai, disse ele, com a ousadia que só uma criança possui. Seguimos a trilha da Mãe d'Água, deixando a cachoeira para trás. A mata, agora misturada com o calor do sertão que se aproximava, parecia nos observar, como se as lendas do Brasil, vivas em cada canto, aguardassem nosso próximo passo. O Boitatá, com seu fogo e sua verdade, seria nosso maior teste, e eu sabia que a semente de Kalyon seria a chave para conquistá-lo.
Capítulo 39: O Encontro com o Boitatá
O sol ardia alto quando eu, Itiberê, conduzia nosso grupo pelas terras secas que se estendiam além do rio, onde a mata densa cedia lugar a campos abertos e queimados pelo calor. Tayen caminhava comigo, seus olhos atentos ao horizonte, enquanto Kalyon, segurando a pedra brilhante da Nascente Viva, corria à frente, apontando para cada sombra que dançava na relva alta. Kenai, com o bastão entalhado firme na mão, observava o terreno com cautela, e Soyala, com seu caderno de folhas de palha, anotava os sinais que da terra, como se quisesse decifrar os segredos do caminho.
A mata nos guiara até aqui, após o encontro com a Mãe d'Água, com um sussurro que ecoava em nossos corações: um novo guardião precisava ser encontrado, um protetor das chamas que equilibra a vida nas terras ardentes. As histórias de Ayra, contadas por Soyala, falavam do Boitatá, a serpente de fogo que guarda os campos e pune aqueles que, por ganância, queimam a terra sem respeito. Eu sentia o peso dessa missão, pois, sem o colar, dependia agora da força de nossa união e da luz que Kalyon carregava.
O vento quente trazia o cheiro de cinzas, e o chão sob nossos pés estava marcado por sulcos negros, vestígios de incêndios antigos. Kalyon, curioso como sempre, parou diante de um círculo de terra queimada, onde a relva parecia evitar crescer. Pai, disse ele, apontando para o centro, ali brilha algo. Eu me aproximei, e, sob a luz do sol, vi faíscas minúsculas dançando no ar, como se a própria terra respirasse fogo. Kenai, franzindo o cenho, tocou o solo com o bastão, e as faíscas se intensificaram, formando um arco de luz que fez Kalyon recuar, assustado.
Soyala, folheando seu caderno, leu em voz alta: O Boitatá aparece onde a terra foi ferida, mas também onde a vida resiste. Ele é fogo, mas também guardião. Devemos mostrar respeito, ou sua chama nos consumirá. Tayen, segurando a mão de Kalyon, olhou para mim com firmeza. Itiberê, disse ela, se a mata nos trouxe aqui, é porque confia em nós. Mas o Boitatá não é como a Mãe d'Água. Ele não perdoa facilmente.
Eu assenti, sentindo o coração acelerar. Kalyon, com sua pedra brilhante, deu um passo à frente, como se chamado por algo que só ele via. Não tenhas medo, disse eu, colocando a mão em seu ombro. A pedra te protege, e nós estamos contigo. Ele sorriu, e, com uma coragem que me enchia de orgulho, ergueu a pedra ao céu. A luz dela brilhou, refletindo nas faíscas, e o chão tremeu suavemente, como se respondesse.
De repente, um rugido baixo, como o crepitar de uma fogueira, encheu o ar. Das cinzas ergueu-se uma forma sinuosa, uma serpente de chamas vivas, com olhos que pareciam brasas ardentes. O Boitatá nos encarava, seu corpo ondulando entre a fumaça e a luz. Quem sois vós, que ousais pisar nas terras queimadas? perguntou, com uma voz que parecia vir de dentro da terra. Eu dei um passo à frente, mantendo Kalyon atrás de mim.
Sou Itiberê, de Santa Luzia, respondi. Viemos guiados pela mata, em busca do equilíbrio. A semente de meu filho selou a Nascente Viva, e agora procuramos os guardiões do Brasil para proteger estas terras. O Boitatá inclinou a cabeça, seus olhos fixos na pedra de Kalyon. A luz da Nascente, sibilou ele. Ela brilha no menino, mas a terra que pisais está ferida. Homens queimam os campos por cobiça, e eu os puno.
Por que deveria confiar em vós? Soyala, com sua voz calma, deu um passo à frente. Ó Boitatá, disse ela, as histórias de Ayra falam de tua força e justiça. Não viemos ferir a terra, mas curá-la. Kalyon carrega a semente da mata, e nós trazemos o respeito dos guardiões. A serpente de fogo moveu-se, circulando-nos, suas chamas lambendo o ar sem nos tocar. Kalyon, sem hesitar, ergueu a pedra novamente e disse, com sua voz clara:
Eu quero ajudar a terra, como ajudei o rio. A pedra diz que tu és bom, mas estás zangado. O Boitatá parou, seus olhos brilhando com uma luz mais suave. Uma criança fala com a verdade da mata, disse ele. Mas a cura exige mais que palavras. Mostrai-me vossa força. Kenai, erguendo o bastão, tocou o solo, e uma onda de energia verde, como a luz do Coração da Mata, espalhou-se pelo círculo queimado.
A relva começou a brotar, tímida, onde antes só havia cinzas. Tayen, com a faca na mão, cortou uma mecha de seu cabelo e jogou-a ao chão, dizendo: Ofereço isto à terra, em sinal de nosso compromisso. Eu, sentindo o chamado da mata em meu peito, ajoelhei-me e toquei o solo, murmurando: A ti, Boitatá, prometemos proteger estas terras, como protegemos a Nascente.
O Boitatá observou em silêncio, e então, com um movimento rápido, mergulhou no solo, deixando um rastro de chamas que não queimavam. O círculo de terra escura floresceu, coberto de brotos verdes, e a serpente reapareceu, menor, suas chamas agora suaves como velas. Vós sois dignos, disse ele. A mata escolheu bem. Mas ouvi: outras terras clamam por guardiões. No norte, onde os rios se encontram, a Mula sem Cabeça galopa, perdida em sua ira.
Encontrai-a, e mostrai que a luz da Nascente pode guiá-la. Eu olhei para Tayen, que assentiu, e para Kalyon, que sorria, segurando a pedra com firmeza. Kenai guardou o bastão, e Soyala anotou as palavras do Boitatá em seu caderno. A ti, Boitatá, disse eu, agradecemos por tua confiança. Iremos ao norte, como nos pedes.
A serpente inclinou-se, suas chamas apagando-se no ar, e desapareceu, deixando apenas o perfume de terra nova. Naquela noite, acampamos sob as estrelas, com o campo agora verde ao nosso redor. Kalyon, deitado entre mim e Tayen, murmurou: Pai, o Boitatá gostou de nós, não é? Eu ri, apertando-lhe a mão.
Sim, Kalyon, respondi. E a mata também. Dorme agora, pois amanhã seguimos para o norte. Enquanto ele adormecia, eu olhei para o horizonte, onde a luz das estrelas parecia dançar. A Mula sem Cabeça nos aguardava, e eu sabia que a mata, com seus mistérios, continuava a nos guiar.
Capítulo 40: O Rastro da Mula sem Cabeça
O vento do norte trazia um calor úmido e o som distante de cascos batendo contra a terra seca, enquanto eu, Itiberê, guiava nosso grupo pelas trilhas sinuosas que cortavam os sertões. Tayen caminhava ao meu lado, segurando a mão de Kalyon, cuja pedra brilhante, herança da Nascente Viva, parecia pulsar com mais força a cada passo. Kenai, com o bastão entalhado firme na mão, examinava o horizonte, onde nuvens escuras se formavam, carregadas de um presságio que todos sentíamos.
Soyala, com o caderno de folhas de palha aberto, murmurava trechos das histórias de Ayra, buscando pistas sobre o que nos aguardava. O Boitatá nos enviara a estas terras, onde a Mula sem Cabeça, uma figura temida no folclore do Brasil, galopava em sua ira cega, espalhando medo e desordem. As lendas, contadas por Soyala, diziam que a Mula era um espírito preso, uma alma que, por um erro do passado, vagava sem rumo, com chamas saindo de onde deveria estar sua cabeça.
Ele sentia o peso dessa missão, pois, sem o colar, minha conexão com a mata dependia agora da união de nosso grupo e da luz que Kalyon carregava. O terreno era áspero, com arbustos espinhosos e pedras soltas sob nossos pés. Kalyon, sempre curioso, parou diante de um rastro queimado na terra, onde a relva estava carbonizada em linhas tortuosas. Pai, disse ele, apontando para o chão, parece que o fogo passou correndo. Eu me abaixei, tocando o rastro, ainda quente, e senti um arrepio. Era o sinal da Mula sem Cabeça, como Soyala descrevera.
Kenai, aproximando-se, tocou o solo com o bastão, e uma leve vibração percorreu a terra, como se ela respondesse ao seu chamado. Soyala, folheando seu caderno, leu em voz alta: A Mula sem Cabeça não pode ser enfrentada com força, mas com coragem e verdade. Ela é movida por um vazio que só a luz pode preencher. Devemos encontrá-la onde os ventos se cruzam, num lugar chamado Encruzilhada dos Ventos. Tayen, segurando Kalyon com firmeza, olhou para mim. Itiberê, disse ela, se a Mula é um espírito perdido, como a convencerei a ouvir-nos?
Eu respirei fundo, sentindo o peso de suas palavras. Não sei, confessei, mas a mata nos guia, e Kalyon tem a luz. Confiemos nisso. Seguimos o rastro, que nos levou a um descampado onde quatro trilhas se encontravam, formando uma cruz sob o céu agora escurecido. O vento uivava, levantando poeira, e o som de cascos tornou-se mais próximo, um galope furioso que fazia o chão tremer.
Kalyon, sem medo, ergueu a pedra brilhante, e sua luz cortou a penumbra, revelando uma figura assustadora. a Mula sem Cabeça, seu corpo de cavalo negro envolto em fumaça, com chamas azuis e vermelhas dançando onde deveria estar sua cabeça. Ela parou, como se a luz a confundisse, e seus relinchos ecoaram como gritos de angústia. Quem sois vós, que ousais cruzar meu caminho? perguntou uma voz rouca, vinda das chamas.
Eu dei um passo à frente, mantendo Kalyon atrás de mim. Sou Itiberê, de Santa Luzia, respondi. Viemos guiados pela mata, trazendo a luz da Nascente Viva. Não queremos lutar, mas ajudar-te a encontrar paz. A Mula recuou, suas chamas tremendo, e relinchou com fúria. Paz? exclamou. Não há paz para mim, condenada a vagar por erros que não compreendo! Soyala, com a voz firme, aproximou-se, segurando o caderno.
Óh! Mula sem Cabeça, disse ela, as histórias de Ayra falam de ti como guardiã dos caminhos, antes que a dor te consumisse. A luz de Kalyon pode guiar-te de volta ao equilíbrio. Mostra-nos teu coração, e nós te mostraremos o nosso. A Mula hesitou, seu galope diminuindo, e as chamas em seu pescoço pareceram enfraquecer. Kalyon, com a coragem de uma criança, deu um passo à frente, erguendo a pedra.
Tu estás triste, disse ele, mas a pedra diz que podes ser feliz de novo. Queres ver? Ele estendeu a mão, e a luz da pedra brilhou com tal força que até o vento parou. A Mula, como se hipnotizada, abaixou o corpo, e as chamas começaram a se apagar, revelando, por um instante, a forma vaga de uma mulher, com olhos cheios de lágrimas. Kenai, percebendo o momento, tocou o chão com o bastão.
E uma onda de energia verde, como a da Nascente Viva, envolveu a encruzilhada. Tayen, com lágrimas nos olhos, tirou um colar de sementes que sempre carregava e jogou-o ao chão, dizendo: Ofereço isto à terra, para que encontres teu caminho. Eu, sentindo o chamado da mata, ajoelhei-me e falei: A ti, Mula sem Cabeça, prometemos ouvir tua história e guiar-te com a luz da mata.
A Mula, agora quase sem chamas, relinchou suavemente, e a forma da mulher tornou-se mais clara. Eu fui uma guardiã, disse ela, com uma voz cheia de dor, mas traí a terra por amor cego. Agora, carrego este fardo. A luz do menino... ela me lembra quem fui. Kalyon, sorrindo, tocou o solo onde a Mula estava, e a pedra brilhou, fazendo brotar flores silvestres ao redor.
Mula inclinou-se, como em reverência, e sua forma dissolveu-se em uma brisa quente, deixando apenas o eco de um suspiro aliviado. Soyala anotou o ocorrido no caderno, enquanto Kenai olhava para o horizonte. A mata está satisfeita, disse ele, mas outros guardiões nos aguardam. As lendas falam do Curupira, nos confins da floresta, onde os rios nascem. Ele protege as árvores, mas sua ira é grande contra os que desrespeitam a mata.
Eu assenti, olhando para Kalyon, que guardava a pedra com cuidado. A ti, Curupira, murmurei, iremos com respeito. Naquela noite, acampamos na encruzilhada, sob um céu agora claro. Kalyon, deitado entre mim e Tayen, perguntou: Pai, a Mula ficou feliz? Eu sorri, apertando-lhe a mão. Sim, Kalyon, respondi. E a mata também.
Dorme agora, pois a floresta nos chama. Enquanto ele adormecia, eu senti o vento trazer um novo sussurro, como se a mata preparasse nosso próximo desafio. O Curupira nos aguardava, e eu sabia que nossa jornada pelo Brasil apenas começava.
Capítulo 41: O Segredo do Curupira
O sol ardia alto quando eu, Itiberê, guiava nosso grupo pelas trilhas sinuosas que se estendiam para além do rio, rumo ao coração da floresta onde os anciãos de Yvyrá diziam habitar o Curupira. O ar era denso, carregado de um silêncio que parecia vigiar cada passo nosso. Tayen caminhava comigo, segurando a mão de Kalyon, cuja curiosidade o fazia olhar para todos os lados, como se esperasse ver algo surgir entre as árvores.
Kenai, com o bastão entalhado firme em sua mão, mantinha-se atento, enquanto Soyala, com o caderno de folhas de palha, anotava cada detalhe do caminho, temendo perder as pistas que a mata nos oferecia. A lenda do Curupira, contada por Dona Raíra antes de partirmos, ecoava em minha mente. Ele é o guardião das matas, dissera ela, com pés virados para trás, enganando os caçadores e protegendo os animais.
Mas, se lhe fores sincero, Itiberê, ele pode revelar segredos que nem Yvyrá conhece. Eu sentia o peso dessa missão, pois as visões de Kalyon, cada vez mais vívidas, sugeriam que o Curupira sabia algo sobre o equilíbrio da mata, algo que poderia proteger Santa Luzia e as vilas aliadas de novas ameaças. Kalyon, segurando a pedra brilhante da Nascente Viva, parou subitamente, apontando para uma clareira onde as árvores formavam um círculo quase perfeito.
Pai, disse ele, aqui é diferente. A mata está falando. Eu olhei para Tayen, que assentiu, seus olhos atentos ao redor. Kenai, aproximando-se, tocou o chão com o bastão, e a terra pareceu responder com um leve tremor. Ele está perto, murmurou Kenai. O Curupira não se mostra a menos que queira. Soyala, folheando o caderno, leu uma passagem que Ayra registrara: O Curupira dança com o vento, e seus rastros confundem os desavisados.
Oferecei-lhe respeito, e ele vos guiará. Seguindo o conselho, eu me adiantei, ajoelhando-me no centro da clareira. Ó Curupira, guardião da mata, clamei, viemos em paz, buscando tua sabedoria para proteger nossas vilas. Minha voz ecoou, e um vento súbito agitou as folhas, trazendo consigo um assobio agudo, como uma risada travessa. De repente, ele apareceu.
Um vulto pequeno, de pele morena como a terra, cabelos vermelhos como o fogo, e pés virados para trás, que pareciam dançar sobre o solo sem tocá-lo. Seus olhos brilhavam, astutos, e ele girava um cajado de madeira retorcido, como se testasse nossa coragem. Quem sois vós, que ousais chamar-me? perguntou, com uma voz que parecia vir de todas as direções. Eu, Itiberê, respondi, e estes são Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala, de Santa Luzia.
Viemos pedir teu auxílio, pois a mata enfrenta perigos que não compreendemos. O Curupira riu, saltando de uma árvore a outra com uma agilidade que desafiava a vista. Perigos, dizes tu? A mata sempre tem perigos, mas poucos são os que me ouvem antes de cortar suas árvores ou caçar seus bichos. Ele parou, fixando os olhos em Kalyon. Este menino, porém, tem a luz da Nascente. Por que o trouxeste? Eu hesitei, mas Kalyon, sem medo, deu um passo à frente.
Eu vejo coisas, disse ele. A mata me mostra caminhos, e acho que tu sabes para onde eles levam. O Curupira inclinou a cabeça, intrigado, e aproximou-se do menino. Tu és pequeno, mas a mata fala contigo, disse ele. Talvez sejas digno de meu segredo. Ele girou o cajado, e o vento trouxe um murmúrio que fez as árvores estremecerem. Há um lugar, continuou ele, onde a mata guarda sua memória, um lugar chamado o Coração Escondido.
Lá, as lendas do Brasil se cruzam, e a força da mata se renova. Mas o caminho é traiçoeiro, e os que não respeitam a floresta nunca o encontram. Tayen, segurando Kalyon com firmeza, perguntou: Como acharemos esse lugar, Curupira? Ele riu novamente, saltando para trás. Segui os rastros que não entendem, respondeu. Meus pés enganam, mas a mata guia os sinceros. Devolvei à floresta o que lhe tomaram, e o Coração Escondido se revelará. Antes que eu pudesse perguntar mais, ele soprou um assobio agudo, e um redemoinho de folhas o envolveu, fazendo-o desaparecer.
Kenai, franzindo o cenho, olhou para o chão, onde os rastros do Curupira formavam um padrão confuso, apontando em direções opostas. Ele nos testa, disse Kenai. Mas Kalyon tem razão: a mata nos guia. Soyala, anotando rapidamente, sugeriu: Talvez devamos seguir o que ele disse sobre devolver à floresta. Em Yvyrá, os anciãos falavam de oferendas, não apenas de frutas, mas de promessas.
Eu assenti, sentindo que o Curupira nos dera uma chave, ainda que enigmática. Naquela noite, acampamos na clareira, sob a luz das estrelas. Kalyon, segurando sua pedra, murmurou: A mata quer que a gente prometa protegê-la sempre. Eu olhei para ele, maravilhado com sua intuição, e prometi, com todos ouvindo: À mata, juro que a defenderei, com Kalyon, Tayen, Kenai e Soyala.
A floresta pareceu responder, com um vento suave que trouxe o som de risos distantes, como se o Curupira aprovasse. Ao amanhecer, seguimos os rastros confusos, guiados pela intuição de Kalyon e pelas anotações de Soyala. A mata parecia abrir-se para nós, revelando trilhas que antes não víamos.
Eu sabia que o Coração Escondido nos aguardava, mas também sentia que o Curupira nos observava, pronto para testar nossa sinceridade. Com Tayen ao meu lado, Kalyon à frente, e Kenai e Soyala vigilantes, seguimos em frente, prontos para descobrir o que a mata reservava para nós.
Capítulo 42: A Dança do Boto
O rio, agora mais largo e profundo, serpenteava entre as margens cobertas de vegetação densa, onde a luz do sol mal tocava a terra. Eu, Itiberê, caminhava com cuidado, sentindo o peso da missão que a mata nos confiara. Tayen, ao meu lado, segurava a mão de Kalyon, que carregava a pedra brilhante da Nascente Viva, seus olhos atentos a cada som da floresta. Kenai, com o bastão entalhado firme em sua mão, observava o horizonte, enquanto Soyala, com o caderno de folhas de palha, anotava os sinais que a mata nos oferecia.
O vento trazia um murmúrio diferente, como se o próprio rio cantasse uma história antiga. Havíamos deixado para trás as chamas da Mula sem Cabeça, mas a mata, em sua sabedoria, parecia guiar-nos para um novo desafio. Yvyrá, a árvore-mãe que conectava os espíritos do Brasil, sussurrava em nossos corações, e eu sentia que o próximo guardião do folclore nos aguardava. Kalyon, com sua intuição infantil, apontou para o rio. Pai, disse ele, algo está olhando para nós. Eu segui seu olhar e vi, na superfície da água, um brilho prateado que não era reflexo do sol.
Tayen, sempre alerta, apertou minha mão. Itiberê, murmura ela, é o Boto. As histórias falam dele, um encantador que dança nas águas e seduz os corações. Devemos ter cautela. Eu assenti, lembrando as lendas que os anciãos de Santa Luzia contavam: o Boto, um ser das águas que, em noites de lua cheia, tomava forma humana para dançar entre os mortais, levando consigo aqueles que se deixavam enfeitiçar. Mas eu sabia que, como os outros guardiões, ele não era apenas uma ameaça; ele guardava um segredo da mata.
Kenai, aproximando-se da margem, tocou o bastão na água, e pequenas ondas se formaram, como se o rio respondesse. Soyala, folheando o caderno, leu em voz baixa: Ayra escreveu que o Boto é o guardião dos rios, aquele que protege o equilíbrio das águas. Mas ele testa os viajantes, oferecendo-lhes beleza para desviar-lhes do caminho. Se queremos seu respeito, devemos mostrar que não nos deixamos enganar. Ela olhou para mim, e eu soube que a prova seria minha. À noite, sob a luz prateada da lua cheia, o rio ganhou vida.
Uma melodia suave, como o som de flautas distantes, ecoou pela floresta, e eu vi, ao longe, uma figura surgir da água. Era um homem, jovem e de beleza incomum, com cabelos negros que brilhavam como o rio e olhos que pareciam carregar o reflexo das estrelas. Ele vestia roupas brancas, simples mas elegantes, e sorria com uma graça que convidava a segui-lo. Kalyon, fascinado, deu um passo à frente, mas Tayen segurou-o com firmeza. Não, meu filho, disse ela. Ele não é como nós.
O Boto, percebendo nossa resistência, aproximou-se, seus pés mal tocando o chão. Vós sois os guardiões de Yvyrá, disse ele, com uma voz que parecia fluir como o rio. Eu sou o Boto, dançarino das águas, e venho testar-vos. A mata me confiou a guarda deste rio, mas só os de coração puro podem atravessá-lo sem perder-se. Ele estendeu a mão, e a melodia tornou-se mais forte, quase hipnótica. Venham dançar comigo, e provarei se sois dignos.
Eu senti o peso do convite, mas o olhar de Tayen me ancorou. A ti, Boto, respondi, não viemos para dançar, mas para proteger. A mata nos guia, e Yvyrá nos chama. Mostra-nos o caminho, ou enfrentaremos teu teste com a força de nossa união. O Boto riu, um som leve como o vento, e bateu palmas. A água ao seu redor brilhou, e figuras dançantes, feitas de gotas reluzentes, surgiram, girando em uma coreografia que parecia viva.
Kalyon, segurando a pedra brilhante, ergueu-a, e a luz dela cortou a ilusão como um raio. As figuras de água desfizeram-se, e o Boto, surpreso, inclinou a cabeça. O menino carrega a luz da Nascente, disse ele. Vós sois mais fortes do que pensei. Mas o teste não terminou. Ele apontou para o rio, onde uma correnteza súbita se formou, rápida e perigosa. Atravessai o rio sem ceder à minha dança, e eu vos revelarei o próximo passo de vossa jornada.
Kenai, com o bastão, tocou a água novamente, e a correnteza acalmou-se por um instante, mas eu sabia que a travessia seria arriscada. Soyala, entoando uma canção que Ayra lhe ensinara, caminhou à frente, sua voz firme contra a melodia do Boto. Tayen, segurando Kalyon, seguiu-a, enquanto eu e Kenai protegíamos a retaguarda. O rio parecia vivo, com ondas que tentavam nos puxar, mas a luz da pedra de Kalyon e o cântico de Soyala mantinham-nos firmes.
Quando alcançamos a outra margem, exaustos, o Boto reapareceu, agora sem o sorriso sedutor. Vós vencestes, disse ele. A mata escolheu bem seus guardiões. O rio vos levará ao próximo, mas cuidado: o guardião que vem é astuto e não se revela facilmente. Ele entregou-me uma concha brilhante, que pulsava com a energia do rio. Leva-a, Itiberê. Ela vos guiará ao Caipora, senhor das trilhas escondidas.
Eu tomei a concha, sentindo sua energia fluir em minhas mãos. A ti, Boto, agradeci, e ele desapareceu nas águas, deixando apenas o som de sua melodia, agora suave, como uma bênção. Kalyon, sorrindo, correu até mim. Pai, disse ele, o rio gostou de nós! Eu ri, abraçando-o, enquanto Tayen e Soyala trocavam um olhar de alívio. Kenai, segurando o bastão, apontou para o norte, onde a mata se tornava mais densa.
O Caipora nos espera, disse ele. E eu sei que ele não será tão gentil quanto o Boto. Enquanto caminhávamos, a concha em minha mão parecia pulsar, guiando-nos por trilhas que a mata abria. Eu sentia Yvyrá, a árvore-mãe, observando-nos, e sabia que cada guardião, cada teste, nos aproximava de seu coração. A mata, viva e cheia de segredos, confiava em nós, e eu, com minha família ao lado, estava pronto para enfrentar o que viesse.
Capítulo 43: O Enigma do Caipora
A mata tornava-se mais densa a cada passo, com cipós entrelaçados e raízes que pareciam mover-se sob nossos pés. Eu, Itiberê, segurava a concha brilhante que o Boto me entregara, sentindo seu pulsar suave como um guia na escuridão verdejante. Tayen, ao meu lado, mantinha Kalyon próximo, os olhos do menino brilhando de curiosidade enquanto ele segurava sua pedra reluzente. Kenai, com o bastão entalhado em mãos, caminhava à frente, atento aos menores sinais da floresta.
Soyala, com o caderno de folhas de palha, murmurava histórias que Ayra deixara, buscando pistas sobre o próximo guardião: o Caipora, senhor das trilhas escondidas. O ar estava pesado, carregado de um silêncio que não era natural. Os pássaros, antes tão presentes, calaram-se, e até o vento parecia hesitar entre as árvores. Kalyon, apontando para uma trilha que mal se via, disse com sua voz clara: Pai, ali tem algo olhando para nós. Eu segui seu olhar, mas nada vi além de sombras dançantes.
Tayen, com a mão firme na faca que sempre carregava, sussurrou: Itiberê, o Caipora não se mostra facilmente. Ele gosta de brincar com os viajantes. Kenai, parando subitamente, tocou o chão com o bastão. A terra vibrou levemente, e uma risada aguda, quase infantil, ecoou ao nosso redor. Quem sois vós, que ousais pisar minhas trilhas? perguntou uma voz, vinda de todos os lados e de lugar nenhum. Eu ergui a concha, que brilhou com mais força, e respondi: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, e estes são minha família e meus companheiros.
Viemos em nome de Yvyrá, buscando proteger o equilíbrio da mata. Mostra-te, Caipora, e deixa-nos provar nosso intento. A risada ecoou novamente, e, de repente, ele apareceu. Era pequeno, não maior que Kalyon, com pele escura como a terra úmida e cabelos vermelhos como brasas. Seus pés, voltados para trás, deixavam pegadas que confundiam o caminho, e ele segurava um cachimbo que soltava uma fumaça leve. Seus olhos, astutos, fixaram-se em mim. Vós tendes a concha do Boto, disse ele, mas isso não vos torna dignos.
A mata é minha, e só passo quem resolve meu enigma. Falhou, e a trilha vos engolirá. Tayen, sempre resoluta, deu um passo à frente. A ti, Caipora, disse ela, não tememos teus jogos. Fala teu enigma, e provaremos nossa força. O Caipora sorriu, soprando uma baforada de fumaça que formou figuras no ar: um jaguar, uma árvore, um rio. Ele falou, com voz que parecia dançar: Sou guardião, mas não sou visto. Corro com o vento, mas não tenho pés para frente. Protejo a mata, mas não sou árvore. Quem sou eu? Respondei, ou a trilha se fechará.
Eu senti o peso da pergunta, e os olhos de Kalyon, brilhando com a pedra em mãos, voltaram-se para mim. Soyala, folheando o caderno, murmurou: Ayra escreveu sobre o Caipora. Ele é o espírito das trilhas, aquele que confunde os caçadores e protege os animais. Mas o enigma... Ela hesitou, e Kenai, com o bastão firme, disse: Ele descreve a si mesmo, mas a resposta deve ser mais que seu nome. A mata é o coração do enigma.
Eu pensei nas histórias de Santa Luzia, nas lendas que os anciãos contavam. O Caipora não era apenas um guardião; ele era a própria mata em movimento, o equilíbrio que mantinha os caminhos vivos. Voltei-me para ele e disse: Tu és o Caipora, mas teu enigma fala da mata viva. És o espírito que guia os animais, que confunde os caminhos dos que ferem a floresta. És a própria trilha, que vive e respira com Yvyrá.
O Caipora riu, batendo palmas, e a fumaça dissipou-se. Boa resposta, Itiberê, disse ele. Mas palavras não bastam. Ele apontou para Kalyon. O menino carrega a luz da Nascente. Que ele prove seu valor. Antes que eu pudesse protestar, Kalyon deu um passo à frente, segurando a pedra. Eu sei o que a mata quer, disse ele, com uma certeza que me surpreendeu. Ele colocou a pedra no chão, e uma trilha nova se abriu, como se a mata respondesse ao seu toque.
O Caipora, impressionado, inclinou-se diante do menino. A mata fala por ti, pequeno, disse ele. Vós sois dignos. Ele soprou o cachimbo, e a fumaça formou um caminho claro à nossa frente. Segui esta trilha, e encontrareis o último guardião de Yvyrá. Mas cuidado: o Negrinho do Pastoreio não é como eu. Ele busca os perdidos, mas só ajuda quem carrega verdade no coração. O Caipora entregou-me uma pena vermelha, quente ao toque.
Leva-a, Itiberê. Ela vos mostrará o caminho. Eu tomei a pena, sentindo sua energia pulsar como a concha do Boto. A ti, Caipora, agradeci, e ele desapareceu com uma risada, deixando apenas o som de seus passos ao contrário. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim com orgulho. Ele é mais forte do que pensamos, disse ela. Eu assenti, mas meu coração pesava.
O Negrinho do Pastoreio, segundo as lendas, era um espírito gentil, mas sua história era marcada por dor e busca. Que teste ele nos reservava? Enquanto seguíamos a trilha, com a pena brilhando em minha mão, a mata parecia nos observar, expectante.
Soyala, anotando no caderno, murmurou: O Negrinho é o guardião dos que se perdem, aquele que encontra o que foi esquecido. Talvez ele seja o último passo para Yvyrá. Kenai, segurando o bastão, apontou para o horizonte, onde a trilha se perdia em uma clareira distante."
Capítulo 44: O Encontro com o Negrinho do Pastoreio
A trilha aberta pelo Caipora estendia-se diante de nós, serpenteando por entre árvores antigas cujas copas formavam um teto de sombras. Eu, Itiberê, segurava a pena vermelha que ele me entregara, sentindo seu calor pulsar em minha mão, como se apontasse o caminho. Tayen, com Kalyon ao seu lado, mantinha os olhos atentos, enquanto o menino, segurando a pedra brilhante da Nascente Viva, parecia pressentir algo na mata.
Kenai, com o bastão entalhado firme, caminhava à frente, e Soyala, com o caderno de folhas de palha, murmurava histórias que Ayra deixara, buscando nelas a sabedoria para o que viria. O ar tornava-se mais leve, quase etéreo, e um silêncio suave envolveu-nos, quebrado apenas pelo som distante de um riacho. Kalyon, com sua voz clara, apontou para a frente. Pai, disse ele, ali tem uma luz pequena, como uma vela.
Eu segui seu olhar e vi, entre as árvores, um brilho suave, não maior que uma chama, movendo-se como se nos chamasse. Tayen, segurando a mão do menino, sussurrou: Itiberê, é o Negrinho do Pastoreio. As lendas falam dele, um espírito que ajuda os perdidos, mas sua história é de dor. Devemos respeitá-lo. Kenai, parando à beira da clareira onde a luz dançava, tocou o chão com o bastão.
A terra respondeu com um leve tremor, e a luz aproximou-se, revelando a figura de um menino, não muito maior que Kalyon. Sua pele era escura como a noite, e seus olhos brilhavam com uma bondade que escondia uma tristeza antiga. Ele segurava uma vela que não se apagava, e sua presença parecia acalmar a mata. Vós sois os guardiões de Yvyrá, disse ele, com uma voz suave, mas firme. Eu sou o Negrinho do Pastoreio, aquele que encontra o que foi perdido.
Por que viestes até mim? Eu ergui a pena do Caipora, que brilhou em resposta à luz da vela. A ti, Negrinho, respondi, viemos em nome da mata, guiados por Yvyrá. A pena, a concha do Boto e a luz da Nascente Viva nos trouxeram até aqui. Buscamos proteger o equilíbrio da floresta e pedimos tua ajuda. Ele inclinou a cabeça, examinando-nos, e seus olhos demoraram-se em Kalyon. O menino carrega a luz da mata, disse ele. Mas a mata exige mais que luz.
Exige verdade. Soyala, abrindo o caderno, leu em voz baixa: Ayra escreveu que o Negrinho é o guardião dos que sofrem, aquele que encontra o que foi esquecido, mas só ajuda quem carrega um coração puro. Ele não pede provas de força, mas de honestidade. Ela olhou para mim, e eu soube que o teste seria diferente dos outros. O Negrinho, apontando para a clareira, disse: A mata perdeu algo há muito tempo, algo que os homens esqueceram.
Encontrai-o, e eu vos levarei ao coração de Yvyrá. Falhou, e a mata vos julgará. A clareira, agora iluminada pela vela do Negrinho, revelou marcas no chão, como se algo tivesse sido arrastado. Kalyon, sem hesitar, correu até o centro, segurando a pedra brilhante. Ele ajoelhou-se e tocou a terra, e a pedra emitiu um brilho que revelou um objeto enterrado: um colar de sementes, velho e coberto de musgo, mas pulsante com a energia da mata.
senti um arrepio, pois o colar lembrava o que eu sacrificara na Nascente Viva. Kalyon ergueu-o, dizendo: Pai, isto pertence à mata. Ela quer ele de volta. O Negrinho, aproximando-se, sorriu com uma tristeza que partiu meu coração. Esse colar, disse ele, foi feito pelos primeiros guardiões, aqueles que prometeram proteger Yvyrá, mas o abandonaram por medo. Vós o encontrastes, e isso prova vossa verdade.
Ele tomou o colar das mãos de Kalyon e soprou sobre ele, fazendo-o brilhar como se fosse novo. Entregou-o a mim, dizendo: Leva-o, Itiberê. Ele vos guiará ao coração de Yvyrá, mas cuidado: o último passo é o mais perigoso, pois a árvore-mãe não se revela sem sacrifício. Eu tomei o colar, sentindo sua energia fluir em mim, como se ele fosse uma extensão do que eu perdera. A ti, Negrinho, agradeci, e ele inclinou a cabeça, sua vela brilhando mais forte.
Vós sois dignos, disse ele. Segui a trilha que a mata abrirá, e encontrareis Yvyrá. Mas lembrai-vos: a mata não esquece, e nem todos os guardiões são tão gentis quanto eu. Com isso, ele desapareceu, deixando apenas a luz da vela, que se apagou no vento. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim com firmeza. Itiberê, disse ela, estamos tão perto. Mas sinto que o próximo teste será o maior. Eu conssenti, segurando o colar de sementes.
Kenai, apontando para uma trilha que se formava à nossa frente, disse: A mata nos chama. Yvyrá está próxima, mas algo me diz que o último guardião não será como os outros. Soyala, anotando no caderno, murmurou: Ayra falava de um guardião final, um que não tem nome, mas é a própria sombra da mata. Enquanto caminhávamos, o colar em minha mão pulsava, e a trilha parecia viva, guiando-nos para o coração da floresta.
Kalyon, segurando a pedra, corria à frente, como se soubesse o caminho. Eu sentia Yvyrá, a árvore-mãe, cada vez mais próxima, mas também um peso no ar, como se a mata nos observasse com expectativa. O último guardião, fosse ele quem fosse, nos aguardava, e eu sabia que nossa jornada estava prestes a alcançar seu ápice.
Capítulo 45: O Legado de Yvyrá
O amanhecer tingia o céu com tons de fogo quando eu, Itiberê, conduzindo nosso grupo, senti a pena vermelha do Caipora pulsar em minha mão. A trilha, agora mais clara, serpenteava por entre colinas suaves, onde a mata cedia lugar a campos abertos salpicados de capim alto. Tayen, segurando a mão de Kalyon, observava o horizonte com olhos atentos, enquanto o menino, com sua pedra brilhante, apontava para borboletas que dançavam ao redor. Kenai, com o bastão entalhado firme, caminhava em silêncio, mas seus olhos buscavam sinais do último guardião.
Soyala, com o caderno de folhas de palha, anotava cada detalhe, murmurando trechos das histórias de Ayra sobre o Negrinho do Pastoreio. A brisa trazia um som leve, como o tilintar de sinos distantes, e a pena em minha mão aqueceu-se ainda mais. Kalyon, sempre o primeiro a perceber, parou e disse: Pai, ele está aqui. Olhei ao redor, mas os campos pareciam vazios, exceto por uma árvore solitária, um ipê-amarelo cujas flores brilhavam como ouro sob o sol nascente. Tayen, com a voz firme, falou: Itiberê, o Negrinho aparece para quem precisa. Talvez devamos chamá-lo.
Eu ergui a pena, que agora brilhava com a mesma luz da concha do Boto, e disse em voz alta: Negrinho do Pastoreio, guardião dos perdidos, somos de Santa Luzia, guiados por Yvyrá. Viemos para proteger o equilíbrio da mata. Mostra-te a nós, pois trazemos a verdade em nossos corações. O vento soprou mais forte, e as flores do ipê caíram, formando um caminho dourado que levava à árvore.
De trás do tronco, ele surgiu: um menino pequeno, com pele negra reluzente e olhos que pareciam carregar a sabedoria de séculos. Vestia roupas simples, rasgadas, e segurava um laço de couro que brilhava como se fosse tecido de luz. Eu vos esperava, disse ele, com uma voz suave que ecoava como o vento nos campos. A mata me contou de vós, Itiberê, Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Mas para completar o ciclo de Yvyrá, deveis encontrar o que foi perdido.
Kenai, aproximando-se, tocou o bastão no chão, e a terra respondeu com um leve tremor. A ti, Negrinho, perguntou ele, o que perdemos? O menino sorriu, apontando para Kalyon. O pequeno carrega a luz da Nascente, mas Yvyrá não é apenas a mata. É o coração do Brasil, os rios, os campos, as gentes. Perdeu-se a união entre os guardiões. Ele olhou para mim. Itiberê, a pena, a concha e a pedra são chaves, mas falta uma.
Eu senti um vazio no peito, como se a ausência do colar ainda doesse. Contudo, Kalyon, sem hesitar, correu até o Negrinho e mostrou sua pedra brilhante. Esta é minha parte, disse ele. Mas o que falta? O Negrinho ajoelhou-se diante do menino, tocando a pedra com reverência. Falta o laço, disse ele, que une todos os guardiões. Ele ergueu o laço de luz, que flutuou no ar, formando um círculo brilhante.
Cada guardião deixou sua marca: a Mãe d'Água, o Boitatá, a Mula sem Cabeça, o Curupira, o Caipora. Agora, vós deveis selar o laço com a verdade de Santa Luzia. Soyala, folheando o caderno, encontrou uma passagem de Ayra. Ela escreveu que Yvyrá vive enquanto os guardiões estiverem unidos, leu ela. O laço é o equilíbrio, mas exige um juramento. Tayen, com a mão no ombro de Kalyon, olhou para mim.
Itiberê, disse ela, somos nós que devemos fazer esse juramento. Por Santa Luzia, por Kalyon, pela mata. Eu concordei, sentindo a responsabilidade pesar, mas também a força de nossa união. Juntos, colocamos as mãos sobre o laço de luz. Eu ergui a pena, Kenai o bastão, Soyala o caderno, Tayen sua faca, e Kalyon sua pedra. O Negrinho, sorrindo, disse: Jurai proteger Yvyrá, não só a mata, mas os campos, os rios, as histórias do Brasil.
Jurai manter a união dos guardiões, para que nada se perca. Nós juramos, em uníssono, e o laço brilhou intensamente, envolvendo-nos em sua luz. As flores do ipê subiram ao céu, como estrelas diurnas, e a terra sob nossos pés pareceu pulsar com vida. O Negrinho, satisfeito, entregou-me o laço, agora um cordão leve que brilhava com todas as cores dos guardiões. Levai-o a Santa Luzia, disse ele. Ele vos lembrará do juramento.
Mas sabei: Yvyrá sempre vos chamará, pois o Brasil é vasto, e suas lendas nunca dormem. Ele desapareceu, deixando apenas o som de sinos no vento e o ipê florido como testemunha. Enquanto voltávamos à vila, com o laço em minhas mãos, senti a presença de todos os guardiões a Mãe d'Água, o Boitatá, a Mula sem Cabeça, o Curupira, o Caipora, o Boto, e agora o Negrinho. Kalyon, correndo à frente, ria, sua pedra brilhando como um farol.
Tayen, ao meu lado, disse: Itiberê, a mata nos guiou, mas agora somos guardiões de algo maior. Eu assenti, olhando para o horizonte. Sim, respondi, somos guardiões do Brasil. Ao chegarmos a Santa Luzia, os moradores nos receberam com olhares de espanto e alegria. Dona Raíra, vendo o laço, exclamou: Vós trouxestes o coração de Yvyrá!
Naquela noite, sob a luz da fogueira, contamos a história dos guardiões, e Soyala anotou cada palavra no caderno. Kalyon, com sua pedra, sentou-se entre as crianças, ensinando-as a canção do Negrinho. A mata, os campos e os rios pareciam ouvir, e eu soube que nossa jornada, embora completa por ora, era o começo do legado de Yvyrá.
Capítulo 46: O Chamado do Mapinguari
A vila de Santa Luzia repousava sob um céu de estrelas, o laço de luz do Negrinho do Pastoreio guardado com reverência na clareira, onde o Coração da Mata brilhava em harmonia com ele. Eu, Itiberê, sentia uma paz rara, sentado com Tayen e Kalyon à beira do rio, enquanto o menino jogava pedrinhas na água, sua pedra brilhante repousando ao seu lado.
Kenai, na praça, ensinava os jovens a entalhar madeira, e Soyala, com seu caderno, narrava as façanhas dos guardiões às crianças. Contudo, a calma da noite foi quebrada por um rugido grave, vindo das profundezas da mata, que fez o chão tremer e os pássaros fugirem em revoada. Tayen, segurando Kalyon, olhou para mim com preocupação. Itiberê, disse ela, esse som não é da mata que conhecemos. É algo antigo, algo que Yvyrá guardou por séculos.
Eu toquei o laço, que pulsava com uma energia inquieta, e senti um chamado, não da mata, mas de algo maior, como se o próprio Brasil sussurrasse. Kenai, correndo até nós com o bastão em mãos, disse: É o Mapinguari, o guardião das florestas profundas. As lendas dizem que ele aparece quando a terra está ferida. Soyala, juntando-se a nós, abriu o caderno e leu uma passagem de Ayra.
O Mapinguari é o grito da mata, um protetor que não perdoa os que a profanam. Seu rugido é um aviso, mas também uma convocação. Quem o ouve deve enfrentá-lo, ou a floresta sofrerá. Ela olhou para mim, seus olhos cheios de determinação. Itiberê, a ti cabe liderar-nos novamente. O laço nos uniu aos guardiões, e agora o Mapinguari nos chama. Eu assenti, sentindo o peso do juramento que fizemos ao Negrinho.
Kalyon, com sua coragem de menino, segurou minha mão e disse: Pai, vamos encontrar o Mapinguari. Ele quer nossa ajuda. Tayen, embora relutante, concordou com um aceno. A ti, Itiberê, e a Kalyon, confio, disse ela. Mas a mata é perigosa onde o Mapinguari caminha. Eu prometi protegê-lo, e juntos nos preparamos para a jornada. Ao amanhecer, partimos, levando o laço, a pena do Caipora, a concha do Boto e a pedra de Kalyon.
A trilha levava a uma parte da mata que poucos em Santa Luzia haviam explorado, onde as árvores eram tão altas que bloqueavam o sol, e o ar cheirava a terra úmida e musgo. O rugido ecoava esporadicamente, guiando-nos como um farol. Kenai, com o bastão, abria caminho, enquanto Soyala cantava uma melodia suave para acalmar os espíritos da floresta. Após horas de caminhada, encontramos marcas na terra: pegadas enormes, de uma criatura com um só pé.
Árvores arrancadas como se fossem gravetos. Kalyon, apontando para um rastro de folhas queimadas, disse: Ele passou por aqui, pai. Olha como a mata está machucada. Eu vi, então, o que ele descrevia: cipós cortados, raízes expostas, como se algo tivesse rasgado a floresta em fúria. De repente, o rugido soou tão próximo que fez meu coração disparar. Diante de nós, emergiu o Mapinguari!
Uma criatura imensa, coberta de pelos vermelhos, com um único olho brilhante no centro da testa e uma boca no ventre que exalava um odor fétido. Ele segurava um tronco como se fosse um cajado, e seus passos faziam a terra tremer. Quem sois vós, que invadeis meu domínio? rugiu ele, com uma voz que parecia vir do fundo da terra. Eu ergui o laço, que brilhou com as cores dos guardiões, e respondi:
Sou Itiberê, de Santa Luzia, com minha família e companheiros. Viemos em nome de Yvyrá, guiados pelo teu chamado. A mata está ferida, e queremos ajudar. O Mapinguari inclinou a cabeça, seu olho fixo em Kalyon, que segurava a pedra com firmeza. O menino tem a luz da Nascente, disse ele. Mas a ferida não é apenas da mata. Homens vieram do sul, com machados e fogo, cortando o coração de Yvyrá. Eles não ouvem os guardiões.
Tayen, com a faca em mãos, perguntou: A ti, Mapinguari, como podemos deter esses homens? A criatura apontou para o laço. Vós tendes o juramento dos guardiões, disse ele. Mas falta a força da terra. Leva-me ao lugar onde a mata sangra, e eu vos mostrarei o caminho. Ele virou-se, e seguimos suas pegadas, que nos conduziram a um descampado devastado, onde árvores queimadas jaziam e o solo estava coberto de cinzas.
Kalyon, com lágrimas nos olhos, ajoelhou-se e tocou a terra com a pedra. Ela brilhou, e um broto verde surgiu, pequeno, mas socializing: mas vivo. O Mapinguari rugiu suavemente, como se aprovasse. O menino entende a mata, disse ele. Plantai mais sementes como esta, e a ferida sarará. Mas os homens com machados estão próximos. Deveis enfrentá-los.
Kenai, com o bastão, disse: Não lutaremos sozinhos. O laço nos une aos guardiões. Podemos chamá-los? O Mapinguari assentiu. O laço é a voz de Yvyrá. Usai-o, e os guardiões virão. Eu segurei o laço, que pulsava com energia, e senti a presença do Curupira, do Caipora, do Boto e dos outros. Juntos, seguimos o Mapinguari até um acampamento de lenhadores, onde o cheiro de fumaça pairava no ar.
Com o laço erguido, chamei os guardiões, e a mata respondeu: o Curupira surgiu com seus pés invertidos, o Caipora com seu cachimbo, e o Boto, em forma humana, com um sorriso astuto. Os lenhadores, assustados, largaram seus machados ao verem o Mapinguari e os guardiões. Eu falei com firmeza: Esta terra é de Yvyrá. Ide embora, ou a mata vos julgará. Eles fugiram, e a mata pareceu suspirar de alívio.
O Mapinguari, antes de partir, entregou-me uma semente negra, quente como carvão. Plantai-a em Santa Luzia, disse ele. Ela fortalecerá o Coração da Mata. Agradeci-lhe, e ele desapareceu na floresta, seu rugido ecoando como uma promessa.
De volta à vila, plantamos a semente ao lado do Coração da Mata, e um novo broto surgiu, forte e vibrante. Kalyon, segurando a pedra, disse: Pai, Yvyrá está feliz agora. Tayen abraçou-o, e eu, olhando para o laço, soube que nossa missão como guardiões do Brasil jamais terminaria.
Capítulo 47: O Mistério do Corpo-Seco
A luz da lua cheia banhava Santa Luzia, refletindo-se no rio que corria sereno, como se a própria Yvyrá repousasse após nossa vitória com o Mapinguari. Eu, Itiberê, segurava o laço de luz, agora um símbolo de nossa união com os guardiões, enquanto observava Kalyon dormir, sua pedra brilhante ao lado, pulsando suavemente. Tayen, sentada comigo à porta de nossa casa, entrelaçou seus dedos nos meus. Itiberê, disse ela, a mata está em paz, mas meu coração sente que Yvyrá ainda nos reserva desafios. Eu assenti, pois o laço, em minha mão, parecia inquieto, como se pressentisse algo.
Kenai, que vigiava a clareira com o bastão entalhado, aproximou-se com Soyala, cujo caderno de folhas de palha estava aberto em uma página nova. Itiberê, disse Kenai, os anciãos falam de um silêncio estranho nas fazendas ao sul. Os animais fogem, e as plantas murcham sem motivo. Soyala, com a voz grave, leu uma passagem de Ayra: Quando a terra rejeita a vida, o Corpo-Seco desperta, um espírito amaldiçoado que suga a força da natureza. Ele não é guardião, mas um aviso do que acontece quando o equilíbrio é quebrado.
Kalyon, despertando com o som de nossas vozes, correu até nós, segurando a pedra. Pai, disse ele, a mata está triste. Eu sinto ela na minha pedra. Eu olhei para Tayen, que assentiu com firmeza. A ti, Itiberê, disse ela, cabe liderar-nos novamente. Não podemos deixar a mata sofrer. Eu ergui o laço, sentindo a presença dos guardiões, e disse: Então partiremos ao sul, ao encontro do Corpo-Seco, para restaurar o que ele destrói.
Ao amanhecer, seguimos a trilha que levava às fazendas, guiados pelo laço e pela intuição de Kalyon. A paisagem mudou à medida que avançávamos: os campos, antes verdes, estavam secos, com árvores retorcidas e o solo rachado como se a vida tivesse sido drenada. O ar era pesado, com um odor de podridão que fez Tayen cobrir o nariz de Kalyon com um pano. Kenai, tocando o chão com o bastão, disse: A terra está viva, mas fraca. O Corpo-Seco esteve aqui.
Soyala, consultando o caderno, murmurou: As lendas dizem que o Corpo-Seco é um homem que, em vida, feriu a terra por ganância, e agora, amaldiçoado, vagueia como um espectro seco, consumindo a vida ao seu redor. Ela olhou para mim. Itiberê, ele não pode ser derrotado com força, mas com restauração. Devemos curar a terra. Kalyon, segurando a pedra, apontou para uma árvore morta no centro do campo. Ali, pai, disse ele. Ele está lá.
Eu segui seu olhar e vi, encostado à árvore, uma figura esquelética, com pele seca como casca, olhos fundos que brilhavam com um vazio faminto. O Corpo-Seco ergueu-se, sua voz um sussurro rouco: Quem sois vós, que ousais entrar em meu domínio? A terra me pertence, pois ela me rejeitou. Eu ergui o laço, que brilhou com as cores dos guardiões, e respondi: Sou Itiberê, de Santa Luzia, com meus companheiros. Viemos em nome de Yvyrá, para curar o que tu destruíste.
O Corpo-Seco riu, um som que fez as folhas murchas caírem ao chão. Curar? disse ele. A terra me amaldiçoou, e agora eu a castigo. Não há cura para mim. Tayen, com a faca em mãos, deu um passo à frente. A ti, Corpo-Seco, disse ela, não cabe julgar a terra. Yvyrá é maior que tua dor. Kalyon, sem medo, aproximou-se da árvore e tocou o tronco com sua pedra. Um brilho verde emanou, e um broto pequeno surgiu, desafiando a seca.
O Corpo-Seco recuou, como se a luz o ferisse. Kenai, erguendo o bastão, disse: A terra pode ser restaurada, mas precisas renunciar à tua vingança. Soyala, cantando uma melodia antiga, aproximou-se com o caderno e leu: A terra perdoa quando o coração se rende. Oferece ao Corpo-Seco algo que ele perdeu. Eu pensei nas lendas e percebi: o Corpo-Seco era um homem que perdera sua conexão com a vida.
Eu tirei a semente negra do Mapinguari do bolso e aproximei-me do espectro. A ti, Corpo-Seco, disse eu, ofereço esta semente, um presente de Yvyrá. Planta-a, e a terra te acolherá novamente. Ele hesitou, seus olhos fundos fixos na semente. Kalyon, com a pedra brilhando, disse: Ela vai te ajudar a voltar para a mata. O Corpo-Seco, tremendo, tomou a semente e a pressionou contra o solo.
A terra estremeceu, e uma árvore jovem brotou, suas raízes envolvendo o Corpo-Seco. Ele gritou, mas não de dor era um grito de alívio. Seu corpo dissolveu-se em poeira, que a árvore absorveu, e o campo ao redor começou a reverdecer. Flores surgiram, e o ar perdeu o odor de podridão. Kalyon, sorrindo, disse: A mata perdoou ele, pai. Kenai, tocando o tronco da nova árvore com o bastão, disse: Yvyrá é generosa, mas exige sacrifício.
Soyala anotou a história no caderno, murmurando: Ayra ficaria orgulhosa. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Itiberê, disse ela, cada guardião nos ensina algo. O Corpo-Seco nos mostrou o perdão. Eu assenti, segurando o laço, que pulsava com uma nova energia. Ao voltarmos a Santa Luzia, a vila nos recebeu com cânticos.
A nova árvore do Corpo-Seco foi celebrada como um símbolo de redenção. Kalyon, com sua pedra, contou às crianças como a mata perdoara um espírito perdido. Eu, olhando para o laço, soube que Yvyrá ainda tinha mais lendas a nos revelar, e que nossa missão como guardiões do Brasil apenas começava.
Capítulo 48: A Canção do Iara
A vila de Santa Luzia despertava com o canto dos pássaros, e o laço de luz, guardado na clareira, parecia pulsar em harmonia com o Coração da Mata. Eu, Itiberê, sentia uma inquietação no peito, como se Yvyrá sussurrasse um novo chamado. Tayen, ao meu lado, preparava uma cesta de frutas, enquanto Kalyon, segurando sua pedra brilhante, brincava à beira do rio, tentando imitar o som das águas com assobios. Kenai, polindo o bastão entalhado, observava o horizonte, e Soyala, com o caderno de folhas de palha, lia histórias às crianças sob a sombra de uma árvore.
O silêncio da manhã foi rompido por uma melodia distante, doce e envolvente, que parecia vir do próprio rio. Kalyon parou, os olhos arregalados. Pai, disse ele, o rio está cantando. Eu senti o laço em minha mão aquecer, e a pena do Caipora, guardada em meu bolso, vibrou levemente. Tayen, deixando a cesta, aproximou-se. Itiberê, disse ela, essa canção não é comum. É a Iara, a mãe das águas. Soyala, ouvindo-nos, abriu o caderno e leu uma passagem de Ayra: A Iara canta para guiar ou enganar. Seu chamado é um teste, pois só os de coração puro resistem à sua voz.
Kenai, erguendo o bastão, disse: Devemos ir ao rio. Se a Iara nos chama, é porque Yvyrá precisa de nós. Eu assenti, sentindo o peso do laço. A ti, Tayen, disse eu, prometo proteger Kalyon. Ela segurou minha mão, com um olhar firme. E eu a ti, Itiberê, respondeu ela. Juntos, seguimos o som da melodia, que nos levou a uma curva do rio onde as águas brilhavam com um tom esmeralda, refletindo o céu como um espelho.
À margem, sob a sombra de um salgueiro, vimos a Iara. Era uma mulher de beleza estonteante, com cabelos longos como algas, olhos verdes que pareciam o fundo do rio, e uma cauda reluzente que mergulhava nas águas. Sua voz, ao cantar, fazia o ar vibrar, e eu senti meu coração acelerar, como se quisesse seguir a melodia. Quem sois vós, que ousais ouvir meu canto? perguntou ela, com uma voz que era ao mesmo tempo suave e poderosa.
Eu ergui o laço, que brilhou com as cores dos guardiões, e respondi: Sou Itiberê, de Santa Luzia, com minha família e companheiros. Viemos em nome de Yvyrá, guiados pela tua canção. Queremos proteger o equilíbrio do Brasil. A Iara sorriu, nadando até a margem. Seu olhar fixou-se em Kalyon, que segurava a pedra com firmeza. O menino carrega a luz da Nascente, disse ela. Mas o rio está doente. Algo o envenena, e Yvyrá sofre.
Provai que sois dignos, ou minha canção vos levará para sempre. Tayen, com a faca em mãos, disse: A ti, Iara, prometemos curar o rio. Mostra-nos o que o fere. A Iara apontou para o norte, onde o rio se estreitava. Lá, disse ela, homens despejam venenos que matam os peixes e as plantas. Levai o laço e a pedra, e purificai as águas. Mas cuidado: minha canção testará vossos corações. Ela mergulhou, e a melodia tornou-se mais forte, puxando-nos como um ímã.
Seguimos o rio, com Kalyon à frente, sua pedra brilhando intensamente. A melodia da Iara ecoava em nossas mentes, e eu senti uma vontade de parar e ouvir para sempre. Kenai, batendo o bastão na terra, disse: Resistamos. A Iara testa nossa vontade. Soyala, cantando uma melodia de Ayra, ajudou-nos a manter o foco, sua voz contrapondo-se à da Iara. Kalyon, alheio ao encanto, apontou para uma clareira onde o rio estava turvo, e amarelada e peixes mortos boiando.
No local, encontramos tonéis abandonados, vazando um líquido fétido. Homens, com ferramentas estranhas, trabalhavam ali, alheios ao dano. Eu ergui o laço e chamei os guardiões. O Curupira surgiu, confundindo os homens com suas pegadas invertidas; o Caipora soprou fumaça que os fez tossir; e o Boto, em forma humana, convenceu-os a fugir com palavras astutas. Kalyon, sem hesitar, mergulhou a pedra na água, e um brilho verde se espalhou, purificando o rio.
A espuma dissipou-se, e os peixes voltaram a nadar. A Iara emergiu, sua cauda brilhando. Vós sois dignos, disse ela. O rio vive novamente, e Yvyrá vos agradece. Ela entregou-me uma pérola reluzente, fria ao toque. Levai-a a Santa Luzia, disse ela. Ela protegerá vosso rio. Agradeci-lhe, e ela desapareceu nas águas, sua canção agora suave, como uma bênção. De volta à vila, colocamos a pérola junto ao Coração da Mata, e o rio ao redor pareceu brilhar mais forte.
Kalyon, contando a história às crianças, disse: A Iara é amiga da mata, como nós. Tayen, abraçando-o, olhou para mim. Itiberê, disse ela, Yvyrá nos guia, e nós a protegemos. Eu sei respondi, segurando o laço, sabendo que novas lendas nos esperavam, pois o Brasil, com suas águas e florestas, sempre teria guardiões a chamar.
Capítulo 49: O Guardião do Anhanguera
A mata, agora mais silenciosa, parecia conter o fôlego enquanto avançávamos por uma trilha sinuosa, guiados pela concha brilhante que pulsava em minha mão. Eu, Itiberê, sentia o peso de cada passo, como se a própria Yvyrá testasse nossa determinação. Tayen, segurando Kalyon pela mão, mantinha os olhos atentos às sombras que dançavam entre as árvores. O menino, com sua pedra reluzente, parecia enxergar além do que nós víamos, apontando para pequenos sinais uma pena caída, um galho quebrado que indicavam o caminho. Kenai, com o bastão entalhado firme, caminhava à frente, e Soyala, com o caderno de folhas de palha, anotava cada detalhe, como se temesse que a história se perdesse.
O ar tornou-se quente, quase sufocante, e um rugido baixo, como o ronco de uma tempestade distante, fez a terra tremer sob nossos pés. Kalyon, sem medo, ergueu a pedra e disse: Pai, é ele. O Anhanguera está perto. Eu troquei um olhar com Tayen, cujo rosto misturava receio e coragem. As lendas de Santa Luzia falavam do Anhanguera, o velho do fogo, um espírito que habitava as entranhas da terra, guardião das chamas que moldaram o coração de Yvyrá. Dizia-se que ele surgia como um homem coberto de brasas, com olhos que ardiam como fogueiras, testando aqueles que ousavam perturbar o equilíbrio.
Kenai, tocando o bastão no chão, fez a terra vibrar novamente, como se respondesse ao chamado. A ti, Anhanguera, gritou ele, nós viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. Mostra-te, e deixa-nos provar nosso valor! O rugido cresceu, e, de uma clareira à frente, uma figura emergiu, envolta em fumaça e fagulhas. Era alto, com a pele crepitando como lenha seca, e seus olhos, de fato, brilhavam como chamas vivas. Em sua mão, segurava uma tocha que não se apagava, mesmo sob o orvalho da mata.
Quem sois vós, que ousais invocar meu nome? perguntou o Anhanguera, com uma voz que parecia o estalar de um incêndio. Eu dei um passo à frente, erguendo a concha do Boto, que brilhou em resposta à tocha dele. Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, respondi. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. A mata nos guiou até aqui, através do Saci, da Iara, do Corpo-Seco e tantos outros. Viemos para selar o equilíbrio de Yvyrá, e pedimos teu auxílio.
O Anhanguera riu, um som grave que fez as folhas ao redor tremerem. O equilíbrio não se pede, disse ele. Conquista-se. A mata ardeu outrora, e eu a salvei com meu fogo. Mas vós, o que tendes a oferecer? Seus olhos fixaram-se em Kalyon, que, sem hesitar, ergueu a pedra reluzente. Eu trouxe isto, disse o menino, com a voz firme. A Nascente Viva me deu, e a Iara disse que ela fala com todos os guardiões. O Anhanguera inclinou-se, examinando a pedra com interesse. Um brilho da Nascente, murmurou ele. Talvez vós sejais dignos.
Ele apontou a tocha para o chão, e uma linha de fogo traçou um círculo ao nosso redor, sem nos queimar. Este é meu teste, disse ele. Dentro deste círculo, deveis contar uma história que prove vosso amor pela mata. Mas cuidado: se a história for falsa, o fogo vos consumirá. Soyala, com o caderno em mãos, deu um passo à frente. A ti, Anhanguera, disse ela, contarei a história de Ayra, que uniu Santa Luzia à mata. Ela narrou, com voz clara, como Ayra dançava com os ventos, como ensinava as crianças a ouvir as árvores, e como seu legado vivia em Kalyon.
Enquanto Soyala falava, o fogo do círculo diminuía, como se o Anhanguera escutasse com atenção. Kalyon, segurando a pedra, acrescentou: E eu prometo cuidar da mata, como Ayra fez. O Anhanguera, satisfeito, apagou a tocha, e o círculo de fogo desapareceu. Vós falais com verdade, disse ele. A mata reconhece vosso coração. Ele entregou-me um pequeno carvão quente, que não queimava a mão. Leva isto, Itiberê. É a chama de Yvyrá. Quando o último guardião vos chamar, esta chama vos guiará.
Eu tomei o carvão, sentindo seu calor pulsar em harmonia com a concha e a pena do Caipora. A ti, Anhanguera, agradeci, e ele sorriu, seus olhos faiscando. O próximo guardião é o último, disse ele. O Lobisomem, senhor da noite, vos espera onde a mata encontra a lua cheia. Ele não é como eu. Sua força vem da solidão, e seu teste será o mais duro. Cuidado, pois ele não perdoa os fracos.
O Anhanguera dissolveu-se em fumaça, deixando apenas o eco de seu rugido. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim com firmeza. Itiberê, disse ela, o Lobisomem é uma lenda temida. Como enfrentaremos um guardião que vive nas sombras? Eu respirei fundo, segurando o carvão. Com a verdade, respondi. A mata nos guiou até aqui, e Kalyon é nossa luz. Kenai, erguendo o bastão, assentiu. A lua cheia está próxima, disse ele. Devemos nos preparar.
Enquanto seguíamos a trilha, guiados pelo brilho da concha e do carvão, Soyala anotava as palavras do Anhanguera. A mata parecia nos observar, expectante, e eu sentia que o último teste seria diferente de todos os outros. O Lobisomem, segundo as lendas, era um ser de força bruta, mas também de tristeza profunda. Eu olhei para Kalyon, que caminhava com a pedra reluzente, e soube que ele, mais uma vez, seria a chave para o coração de Yvyrá.
Capítulo 50: O Encontro com o Lobisomem
A lua cheia erguia-se no céu, banhando a mata com um brilho prateado que tornava cada sombra viva e inquieta. Eu, Itiberê, segurava o carvão quente do Anhanguera, cujo pulsar parecia sincronizar-se com a concha do Boto e a pena do Caipora, guiando-nos por uma trilha onde as árvores pareciam curvar-se em reverência. Tayen, com Kalyon ao seu lado, mantinha a mão firme na faca, os olhos atentos a cada ruído. O menino, segurando a pedra reluzente, caminhava com uma confiança que me enchia de orgulho, mas também de temor.
Kenai, com o bastão entalhado, abria o caminho, enquanto Soyala, com o caderno de folhas de palha, murmurava histórias antigas, buscando pistas sobre o Lobisomem, o último guardião de Yvyrá. O ar estava carregado, e um uivo longo e grave ecoou, fazendo os pássaros fugirem em revoada. Kalyon, sem hesitar, ergueu a pedra, que brilhou com mais força, como se respondesse ao chamado. Pai, ele está vindo disse o menino, com a voz calma, mas firme. Eu troquei um olhar com Tayen, que assentiu, apertando-lhe a mão.
Itiberê, o Lobisomem é um espírito solitário, murmurou ela. As lendas dizem que ele carrega a dor de uma maldição. Devemos falar com seu coração, não com sua força. Kenai, tocando o bastão no chão, fez a terra vibrar, como se chamasse o guardião. A ti, Lobisomem, guardião da noite, nós nos apresentamos! gritou ele. Somos de Santa Luzia, guiados por Yvyrá para proteger a mata. Mostra-te, e deixa-nos provar nosso intento!
O uivo tornou-se mais próximo, e, de repente, ele surgiu. Era uma figura imensa, meio homem, meio fera, com pelos negros que brilhavam sob a lua e olhos amarelos que pareciam atravessar a alma. Suas garras arranhavam o chão, mas havia, em sua postura, uma tristeza que pesava mais que sua força. Quem sois vós, que perturbais minha solidão? perguntou o Lobisomem, com uma voz rouca, como se carregasse séculos de lamento.
Eu ergui o carvão, a concha e a pena, que brilharam em uníssono. Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia respondi. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. A mata nos guiou através do Saci, do Boto, da Iara, do Anhanguera e tantos outros. Viemos selar o equilíbrio de Yvyrá, e pedimos tua bênção. O Lobisomem rosnou, mas seus olhos fixaram-se em Kalyon, que deu um passo à frente, segurando a pedra reluzente.
Eu trouxe isto disse o menino, com a voz clara. A Nascente Viva me deu, e todos os guardiões disseram que ela fala com Yvyrá. Tu também és parte dela, não és? O Lobisomem hesitou, seus olhos suavizando-se por um instante. Uma criança com a luz da Nascente murmurou ele. Talvez vós tragais esperança onde só vejo sombras. Ele ergueu a cabeça, uivando para a lua, e a mata estremeceu. Meu teste não é de força, mas de verdade disse ele.
Cada guardião vos deu um presente: a pena, a concha, o carvão. Mas eu exijo algo mais. Um de vós deve oferecer o que mais teme perder. Só então saberei se sois dignos de Yvyrá. Eu senti um frio no peito, pois sabia o que ele pedia. Olhei para Tayen, que segurava Kalyon com força, e para Kenai, que apertava o bastão. Soyala, com o caderno, deu um passo à frente. A ti, Lobisomem, ofereço meu caderno disse ela, com a voz trêmula, mas decidida.
Nele estão as histórias de Ayra, o legado de Santa Luzia. É o que mais temo perder, pois sem ele, as vozes da mata podem se apagar. O Lobisomem inclinou-se, examinando o caderno. Palavras são poderosas, mas frágeis disse ele. Estás disposta a confiar que a mata guardará tuas histórias sem estas folhas? Soyala assentiu, e, com lágrimas nos olhos, entregou o caderno. O Lobisomem tocou-o e o caderno dissolveu-se em luz, absorvido pela pedra de Kalyon.
Vós sois verdadeiros disse o Lobisomem, com a voz mais suave. A mata reconhece vosso sacrifício. Ele estendeu a mão, e uma corrente de prata, com um pingente em forma de lua, caiu em minha palma. Leva isto, Itiberê. É o último presente de Yvyrá. Com ele, a mata estará unida, mas apenas se todos vós permanecerdes juntos. Ele olhou para Kalyon. O menino é o futuro, mas vós sois sua força.
Eu tomei a corrente, sentindo seu peso leve, mas profundo. A ti, Lobisomem, agradecemos lhe disse eu. Ele uivou novamente, mas agora era um som de despedida, não de ameaça. Ide, guardiões de Yvyrá disse ele. A mata está segura, mas seus segredos nunca cessam. Ele desapareceu na escuridão, deixando apenas o eco de seu uivo. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Itiberê, o que faremos agora? perguntou ela.
Eu segurei a corrente, a concha, a pena e o carvão, sentindo a energia de Yvyrá pulsar em mim. Voltaremos a Santa Luzia respondi. Mas a mata nos mudou. Levaremos seus presentes e contaremos suas histórias, para que Kalyon e os que vierem depois nunca esqueçam. Kenai, erguendo o bastão, assentiu. A vila precisa saber disse ele. Soyala, apesar da perda do caderno, sorriu. As histórias vivem em nós disse ela. E em Kalyon.
O menino, segurando a pedra agora brilhante com a luz do caderno, riu. A mata é nossa casa disse ele, e eu soube que ele estava certo. Enquanto caminhávamos sob a lua cheia, a trilha parecia mais clara, como se Yvyrá nos guiasse de volta. A mata, viva e eterna, sussurrava ao nosso redor, e eu senti que nossa jornada, embora completa, era apenas o começo de um novo ciclo para Santa Luzia.
Capítulo 51: O Segredo do Matinta Pereira
A brisa da mata soprou fria ao amanhecer, trazendo consigo um assobio agudo que fez as folhas tremerem. Eu, Itiberê, segurava a corrente de prata com o pingente em forma de lua, sentindo seu pulsar em harmonia com a concha do Boto, a pena do Caipora e o carvão do Anhanguera. Tayen caminhava ao meu lado, com Kalyon segurando sua mão, a pedra reluzente brilhando em seu peito como um farol.
Kenai, com o bastão entalhado, observava a trilha à frente, enquanto Soyala, agora sem o caderno, contava histórias de memória, sua voz ecoando como um canto que a mata parecia ouvir. O assobio tornou-se mais próximo, um som que não era de pássaro nem de vento, mas algo vivo, inquieto. Kalyon, apontando para a escuridão entre as árvores, disse com sua voz clara: Pai, é o Matinta Pereira. Ele está nos chamando.
Eu senti um arrepio, pois as lendas de Santa Luzia falavam do Matinta como um espírito travesso, um pássaro noturno que exigia oferendas e confundia os viajantes com seus assobios. Tayen, com a faca na cintura, olhou para mim. Itiberê, devemos ser cautelosos, disse ela. O Matinta não ataca, mas gosta de testar a paciência. Kenai, tocando o bastão no chão, fez a terra vibrar suavemente. A ti, Matinta Pereira, guardião das noites, nós nos apresentamos, gritou ele.
Somos de Santa Luzia, guiados por Yvyrá para proteger a mata. Mostra-te, e deixa-nos provar nosso intento. O assobio parou, e uma figura surgiu, não como pássaro, mas como um velho encurvado, com olhos que brilhavam como estrelas e um manto de penas escuras. Ele segurava um galho retorcido, e sua presença parecia sugar a luz ao redor. Quem sois vós, que ousais cruzar minhas sombras? perguntou o Matinta, com uma voz que parecia um sussurro do vento.
Eu ergui a corrente de prata, que brilhou sob a luz da manhã. Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, respondi. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. A mata nos guiou através do Lobisomem, do Anhanguera, da Iara e tantos outros. Viemos para honrar Yvyrá, e pedimos teu segredo. O Matinta riu, um som que fez as árvores balançarem. Honrar Yvyrá exige mais que presentes, disse ele. Eu sou o guardião dos segredos, aquele que ouve os sussurros da mata.
Para passar, deveis me oferecer algo que nunca foi pedido antes. Seus olhos fixaram-se em Kalyon, que, sem temor, deu um passo à frente, segurando a pedra reluzente. Eu tenho isto, disse o menino. A pedra guarda a luz da Nascente e as histórias de todos os guardiões. Posso te dar uma história nova. O Matinta inclinou-se, examinando a pedra com curiosidade. Uma história nova, murmurou ele. Isso é raro. Conta-me, pequeno, e que seja verdadeira.
Kalyon, com a confiança que só uma criança possui, começou a falar. Ele contou como a mata o escolhera, como enfrentara o Saci, a Mula sem Cabeça, o Lobisomem, e como cada guardião deixara um pedaço de Yvyrá em seu coração. Eu quero que a mata viva para sempre, disse ele, e prometo contar suas histórias para todos em Santa Luzia. O Matinta, silencioso, ouviu com atenção, e a mata ao redor pareceu aquietar-se.
Tu falas com o coração, pequeno, disse ele. Mas uma história não basta. Ele olhou para mim. Itiberê, tu carregas os presentes de Yvyrá. Dize-me, o que a mata significa para ti? Eu respirei fundo, sentindo o peso de suas palavras. A mata é nossa casa, respondi. É a vida de Kalyon, o canto de Soyala, a força de Kenai, o amor de Tayen. Sem ela, não somos nada. O Matinta assentiu, e suas penas brilharam, como se refletissem a luz da pedra de Kalyon.
Vós sois dignos, disse ele. Ele estendeu o galho retorcido, e uma pequena semente negra caiu em minha mão. Leva isto, Itiberê. É o segredo do Matinta, a semente que guarda os sussurros de Yvyrá. Planta-a em Santa Luzia, e a mata falará convosco para sempre. Mas cuidado: há um último teste, um guardião que não se mostra, o Jurupari. Ele é o juiz final, e só aparece quando a mata está em perigo.
Eu tomei a semente, sentindo seu peso leve, mas profundo. A ti, Matinta Pereira, agradeci, disse eu. Ele riu novamente, e, com um assobio, transformou-se em um pássaro negro que voou para a escuridão. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Itiberê, o Jurupari é uma lenda temida, disse ela. Como enfrentaremos um guardião que ninguém vê? Eu segurei a semente, sentindo sua energia pulsar com os outros presentes. Confiaremos na mata, respondi.
Ela nos guiou até aqui. Kenai, erguendo o bastão, apontou para a trilha que se abria à frente. Devemos voltar a Santa Luzia, disse ele. A semente precisa ser plantada. Soyala, com um sorriso, começou a recitar a história de Kalyon, como se já a guardasse de cor. A mata vive em nós, disse ela. E em ti, Kalyon. O menino, segurando a pedra, riu. Vamos plantar a semente, pai, disse ele, e eu soube que ele estava pronto para o que viesse.
Enquanto caminhávamos, a mata parecia nos envolver, seus sussurros ecoando como o assobio do Matinta. Eu sentia que o Jurupari nos observava, escondido, esperando o momento de se revelar. A corrente, a concha, a pena, o carvão e agora a semente pulsavam em minhas mãos, e eu sabia que Santa Luzia seria o palco do último teste de Yvyrá.
Capítulo 52: O Enigma do Jurupari
A mata parecia pulsar com uma energia antiga, como se Yvyrá, agora fortalecida pelos presentes dos guardiões, respirasse em cada folha e galho. Eu, Itiberê, segurava a corrente de prata com o pingente em forma de lua, que o Lobisomem me entregara, sentindo seu peso leve, mas carregado de promessas. Ao meu lado, Tayen mantinha Kalyon próximo, o menino segurando a pedra reluzente que agora brilhava com a luz de todos os guardiões. Kenai, com o bastão entalhado, caminhava à frente, seus olhos atentos às trilhas que se formavam e desfaziam sob a copa densa.
Soyala, mesmo sem o caderno, cantava baixinho uma melodia que parecia ecoar as vozes de Ayra, guiando-nos por um caminho que nenhum de nós conhecia. O ar tornou-se quente e úmido, e um silêncio inquietante envolveu a floresta. Os pássaros calaram-se, e até o vento parecia hesitar. Kalyon, apontando para uma clareira onde a luz do sol mal tocava o chão, disse com sua voz clara: Pai, ali tem algo escondido. Eu sinto a pedra tremendo. Eu olhei para a pedra em suas mãos, que pulsava com um brilho verde, e assenti. A ti, Kalyon, confio, respondi. Mostra-nos o caminho.
Kenai tocou o bastão na terra, e uma vibração suave ecoou, como se a mata respondesse. Quem sois vós, que ousais entrar no domínio do Jurupari? perguntou uma voz profunda, que parecia vir do próprio chão. Eu ergui a corrente, a concha, a pena e o carvão, que brilharam em uníssono. Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, disse eu. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, guiados pelos guardiões, para proteger o equilíbrio da mata. Revela-te, Jurupari, e deixa-nos provar nosso intento.
Um vulto emergiu da clareira, alto e esguio, com olhos que brilhavam como estrelas em um rosto sem traços claros. O Jurupari, segundo as lendas, era o guardião das leis da mata, aquele que punia os que desrespeitavam suas regras. Sua presença era ao mesmo tempo majestosa e assustadora, como se ele fosse a própria justiça de Yvyrá. Vós carregais os presentes dos guardiões, disse ele, com uma voz que ecoava como trovão distante. Mas o Jurupari não se curva a presentes. Meu enigma testará vossa união. Falhai, e a mata vos julgará.
Tayen, com a coragem que sempre a marcava, deu um passo à frente. Fala teu enigma, Jurupari, disse ela. Somos um, e a mata nos guia. O guardião ergueu a mão, e a clareira transformou-se. Árvores moveram-se, formando um círculo, e o chão revelou símbolos estranhos, como se a mata escrevesse sua própria história. Meu enigma é este, disse o Jurupari. A mata vive pela união, mas cada um de vós carrega um fardo. Dizei-me, o que une vossos corações à Yvyrá? Respondei um por um, ou a clareira vos prenderá.
Eu senti o peso da pergunta, pois o Jurupari não buscava apenas palavras, mas a verdade de nossas almas. Olhei para meus companheiros, e Kenai foi o primeiro a falar. A mim, Yvyrá deu o bastão, disse ele. Ele me uniu à mata, pois carrego a responsabilidade de guiar e proteger. Minha força é para Santa Luzia e para os que virão depois. O Jurupari assentiu, e um dos símbolos no chão brilhou.
Soyala, com os olhos marejados, falou em seguida. Eu dei meu caderno, disse ela, mas Yvyrá me uniu à mata pelas histórias que guardo no coração. Sou a voz de Ayra, e minha missão é manter viva a memória da floresta. Outro símbolo acendeu-se, e a clareira pareceu respirar aliviada. Tayen, segurando a mão de Kalyon, olhou para o guardião. A mim, Yvyrá uniu pelo amor, disse ela. Protejo meu filho e minha vila, e a mata me ensinou que a força vem da família. O terceiro símbolo brilhou, e o Jurupari voltou seus olhos para Kalyon.
O menino, sem hesitar, ergueu a pedra reluzente. Yvyrá fala comigo, disse ele. Eu sou pequeno, mas a mata me escolheu para carregar sua luz. Quero que ela viva para sempre. A clareira inteira estremeceu, e todos os símbolos brilharam, exceto um. O Jurupari fixou-se em mim. E tu, Itiberê? perguntou ele. O que te une à Yvyrá? Eu segurei a corrente de prata, sentindo a energia dos guardiões pulsar em mim. A mata me guiou desde o colar, disse eu. Perdi-o, mas ganhei a certeza de que Yvyrá vive em nós.
Minha união é com minha família, minha vila e a promessa de protegê-las, custe o que custar. O último símbolo acendeu-se, e a clareira abriu-se, revelando uma trilha nova. Vós sois dignos, disse o Jurupari. A mata reconhece vossa união. Ele estendeu a mão, e uma flauta de madeira, entalhada com símbolos da floresta, caiu em minhas mãos. Leva-a, Itiberê. Com ela, podereis chamar os guardiões em tempos de necessidade. Mas lembrai-vos: Yvyrá só vive enquanto vós permanecerdes juntos.
A ti, Jurupari, agradecemos, disse eu, segurando a flauta com reverência. Ele desapareceu, dissolvendo-se na luz da clareira, e a mata voltou a cantar com os sons de pássaros e rios. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Cada guardião nos testa, disse ela, mas cada um também nos fortalece. Para onde iremos agora? Kenai, examinando a trilha, respondeu: A flauta é um chamado. Talvez Yvyrá queira que voltemos a Santa Luzia, para unir todos os presentes.
Soyala, sorrindo, acrescentou: As lendas falam de um lugar onde os guardiões se reúnem, um coração de Yvyrá. Talvez a flauta nos leve lá. Kalyon, segurando a pedra, riu. A mata vai nos mostrar, disse ele, e eu soube que ele falava a verdade. Enquanto seguíamos a trilha, com a flauta em minhas mãos, senti que a jornada estava longe de terminar. Yvyrá, viva e eterna, ainda guardava segredos, e nós, seus guardiões, estávamos prontos para descobri-los.
Capítulo 53: O Mistério do Muiraquitã
A trilha sob nossos pés parecia pulsar com a vida de Yvyrá, como se a mata, agora fortalecida pela união dos guardiões, guiasse cada um de nossos passos. Eu, Itiberê, segurava a flauta entalhada que o Jurupari me entregara, sentindo sua madeira quente vibrar em harmonia com a corrente de prata, a concha do Boto, a pena do Caipora e o carvão do Anhanguera. Tayen, ao meu lado, mantinha Kalyon próximo, o menino segurando a pedra reluzente que brilhava com uma luz suave, como se respondesse ao chamado da floresta.
Kenai, com o bastão entalhado, caminhava à frente, seus olhos atentos às sombras que dançavam entre as árvores. Soyala, com a memória das histórias de Ayra no coração, cantava baixinho, sua voz misturando-se ao murmúrio do vento. O ar tornou-se fresco, e o som de um rio próximo encheu a mata. Uma brisa trouxe um aroma de água e musgo, e Kalyon, apontando para a margem que se formava adiante, disse com entusiasmo: Pai, a pedra está brilhando mais forte. Olha, ali tem algo na água!
Eu segui seu olhar e vi, entre as raízes de uma árvore gigantesca, um brilho verde que pulsava como um coração. Tayen, com a faca na mão, murmurou: Itiberê, as lendas falam do Muiraquitã, um amuleto das águas. Talvez seja ele que nos chama. Kenai tocou o bastão na terra, e a vibração fez as águas do rio tremularem. Quem sois vós, guardiões de Yvyrá? perguntou uma voz suave, que parecia vir das profundezas do rio. Eu ergui a flauta, que ressoou com uma nota baixa, e respondi: Sou Itiberê, de Santa Luzia, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala.
Os guardiões nos guiaram até aqui, e buscamos o equilíbrio da mata. Revela-te, espírito do Muiraquitã, e deixa-nos provar nossa missão. Das águas emergiu uma figura etérea, uma mulher com cabelos longos como algas e olhos que brilhavam como esmeraldas. Em sua mão, segurava um amuleto verde, esculpido em forma de sapo, que pulsava com a mesma luz da pedra de Kalyon. Eu sou a guardiã do Muiraquitã, disse ela. Este amuleto carrega a força das águas de Yvyrá, mas só será entregue a quem provar sua coragem.
Vós enfrentastes o Saci, o Boto, o Lobisomem e outros, mas meu teste é diferente. Ele exige sacrifício de coração. Eu senti um peso no peito, pois cada guardião pedia algo de nós. Tayen, com a voz firme, deu um passo à frente. Fala teu teste, guardiã, disse ela. A mata nos uniu, e estamos prontos. A mulher sorriu, e o rio ao seu redor brilhou. Meu teste é simples, mas cruel, disse ela. O Muiraquitã protege quem o carrega, mas exige que deis algo que vos dá força. Um de vós deve abrir mão de seu presente mais querido.
Olhei para a flauta em minhas mãos, para o bastão de Kenai, para a pedra de Kalyon, e meu coração apertou-se. Soyala, com a memória de seu caderno ainda fresca, falou primeiro. Eu já dei as histórias de Ayra, disse ela. Mas se a mata pede mais, ofereço minha voz, que canta suas lendas. A guardiã balançou a cabeça. Tua voz é parte de Yvyrá, disse ela. Não é o que peço. Kenai, erguendo o bastão, disse: Este bastão é minha força, minha ligação com Nahely. Se for preciso, eu o entrego. A guardiã, novamente, recusou. O bastão é teu dever, disse ela. Não é teu coração.
Kalyon, com a pedra reluzente, deu um passo à frente. Eu dou minha pedra, disse ele, com a voz firme apesar da pouca idade. Ela me guia, mas a mata é mais importante. A guardiã olhou para ele, seus olhos suavizando-se. Tua luz é pura, pequeno, disse ela. Mas a pedra é teu destino. Não posso tomá-la. Finalmente, ela voltou-se para mim. Itiberê, disse ela, tu entregaste o colar na Nascente Viva. O que mais tens a oferecer?
Eu hesitei, pois a corrente, a concha, a pena, o carvão e a flauta eram todos presentes da mata. Mas então olhei para Tayen, que segurava minha mão, e compreendi. Minha força é minha família, disse eu. Se Yvyrá exige, prometo que nunca me afastarei de Tayen e Kalyon, mesmo que a mata me chame para longe. Tayen, com lágrimas nos olhos, apertou minha mão. Itiberê, disse ela, isso é mais que um presente. É nossa vida.
A guardiã sorriu, e o Muiraquitã brilhou com mais força. Vosso amor é o sacrifício que Yvyrá buscava, disse ela. O Muiraquitã não exige que deis nada, mas que prometais protegê-lo com vossa união. Ela entregou o amuleto a Kalyon, que o tomou com reverência. Leva-o, pequeno, disse ela. Ele vos guardará nas águas de Yvyrá. E a vós, Itiberê, digo: a mata está quase completa, mas um último guardião vos espera. Buscai o Caboclo d'Água, onde os rios se encontram.
A ti, guardiã, agradecemos, disse eu, enquanto o amuleto brilhava na mão de Kalyon. A mulher dissolveu-se nas águas, e o rio voltou a fluir, calmo e cristalino. Soyala, com um suspiro, disse: Cada guardião nos ensina algo novo. O Muiraquitã fala de união. Kenai, examinando o bastão, acrescentou: E o Caboclo d'Água será o último teste. Devemos estar prontos. Kalyon, segurando o Muiraquitã junto à pedra, riu.
A mata gosta de nós, disse ele. Eu sorri, mas senti que o peso da jornada crescia. Enquanto seguíamos a trilha, com o rio cantando ao nosso lado, a flauta em minhas mãos vibrou, como se soubesse que o encontro com o Caboclo d'Água seria o maior desafio de Yvyrá. A mata, viva e eterna, aguardava, e nós, seus guardiões, avançávamos com coragem.
Capítulo 54: O Encontro com o Caboclo d'Água
O rio alargava-se diante de nós, suas águas correndo com uma força que parecia carregar os segredos de Yvyrá. Eu, Itiberê, segurava a flauta do Jurupari, sentindo sua melodia silenciosa vibrar em harmonia com a corrente de prata, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera e o Muiraquitã, agora pendurado no pescoço de Kalyon. Tayen, com o menino ao seu lado, mantinha os olhos fixos na confluência dos rios, onde as águas se encontravam em redemoinhos que dançavam sob o sol poente.
Kenai, com o bastão entalhado, examinava as margens, atento a qualquer sinal. Soyala, com o coração cheio das histórias de Ayra, caminhava em silêncio, como se ouvisse a mata sussurrar. O ar tornou-se denso, e um som grave, como um tambor distante, ecoou pelas águas. Kalyon, segurando o Muiraquitã, olhou para mim com olhos brilhantes. Pai, a água está cantando, disse ele, apontando para o centro do rio, onde bolhas subiam à superfície. Eu senti a flauta aquecer-se em minhas mãos, e um pressentimento cresceu em meu peito.
Tayen, com a faca na mão, murmurou: Itiberê, o Caboclo d'Água é o guardião dos rios. As lendas dizem que ele é feroz, mas justo. Devemos respeitá-lo. Kenai bateu o bastão na margem, e as águas tremeram, como se respondessem ao chamado. Quem sois vós, que ousais perturbar o coração dos rios? perguntou uma voz grave, que parecia surgir das profundezas. Eu ergui a flauta, que tocou uma nota suave sem que eu soprasse, e respondi: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Os guardiões de Yvyrá nos conduziram até ti, Caboclo d'Água.
Viemos proteger o equilíbrio da mata. Mostra-te, e deixa-nos provar nossa missão. As águas se agitaram, e dele emergiu o Caboclo d'Água, uma figura imponente, com pele escura como o leito do rio e olhos que brilhavam como pedras molhadas. Seu corpo era coberto de escamas que reluziam ao sol, e ele segurava uma lança feita de madeira retorcida, que parecia viva. Vós sois os últimos a chegar, disse ele. Os guardiões falaram de vós: o menino com a luz, o homem com a flauta, a mulher com coragem, o pagé com o bastão, a contadora de histórias.
Mas o rio não se curva a presentes. Meu teste é o último, e dele depende o coração de Yvyrá. Eu senti o peso de suas palavras, pois cada guardião nos testara à sua maneira. A ti, Caboclo, disse eu, estamos prontos. Fala teu teste. Ele cravou a lança na água, e os redemoinhos pararam, revelando um espelho límpido no centro do rio. Olhai para o rio, disse ele. Ele mostra vossas verdades. Cada um de vós deve enfrentar o que teme no fundo de seu coração. Só então o último presente de Yvyrá será vosso.
Tayen olhou para o espelho d'água, e seus olhos encheram-se de lágrimas. Eu vejo Kalyon perdido, disse ela, com a voz trêmula. Meu maior medo é não protegê-lo. O Caboclo assentiu. Tua coragem é maior que teu medo, disse ele. O rio aceita tua verdade. A água brilhou, e Tayen respirou aliviada. Kenai foi o próximo. Eu vejo o bastão falhando, disse ele. Temo não ser forte o suficiente para guiar a vila. O Caboclo olhou para ele. Teu dever é tua força, disse ele. O rio te reconhece. A água brilhou novamente, e Kenai baixou a cabeça, aliviado.
Soyala, com o coração pesado, falou: Eu vejo as histórias de Ayra esquecidas, disse ela. Sem meu caderno, temo que a mata perca sua memória. O Caboclo sorriu. Tua voz carrega a mata, disse ele. O rio guarda tuas histórias. A água brilhou, e Soyala sorriu, com lágrimas nos olhos. Kalyon, segurando o Muiraquitã, olhou para o rio. Eu vejo a pedra apagada, disse ele. Temo que Yvyrá pare de falar comigo. O Caboclo inclinou-se diante dele. Pequeno, tua luz é eterna, disse ele. O rio te abençoa. A água brilhou com mais força, e Kalyon riu, confiante.
Por fim, o Caboclo voltou-se para mim. E tu, Itiberê? perguntou ele. Eu olhei para o espelho e vi Santa Luzia em chamas, a mata destruída. Meu maior medo é falhar com a vila, disse eu. Perdi o colar, mas temo não ser suficiente sem ele. O Caboclo cravou a lança na água, e o espelho brilhou. Tua força nunca esteve no colar, disse ele. Está em teu coração e em tua união com os teus. O rio te aceita. As águas rugiram, e do centro do rio emergiu um colar de conchas, brilhando com a luz de todos os presentes dos guardiões. Este é o Coração de Yvyrá, disse o Caboclo.
Leva-o, Itiberê, e voltai a Santa Luzia. A mata está unida, mas sua proteção depende de vós. Eu tomei o colar, sentindo seu peso leve, mas profundo. A ti, Caboclo d'Água, agradecemos, disse eu. Ele mergulhou nas águas, desaparecendo com um último brilho. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Itiberê, disse ela, a jornada terminou? Eu balancei a cabeça. A jornada nunca termina, respondi. Mas agora sabemos que Yvyrá vive em nós. Kenai, erguendo o bastão, disse: Devemos voltar e mostrar à vila o que conquistamos.
Soyala, sorrindo, acrescentou: E contar as histórias, para que nunca sejam esquecidas. Kalyon, segurando o Muiraquitã, correu à frente, rindo. A mata está feliz, disse ele. Eu sorri, segurando o colar de conchas, e senti que ele falava a verdade. Enquanto caminhávamos de volta, com o rio cantando ao nosso lado, Yvyrá parecia nos envolver, viva e eterna, pronta para novos desafios que, eu sabia, ainda viriam.
Capítulo 55: A Chama do Alamoa
A trilha de volta a Santa Luzia parecia mais leve, como se Yvyrá, agora unida pelos presentes dos guardiões, abrisse seus caminhos com uma promessa de paz. Eu, Itiberê, segurava o colar de conchas do Caboclo d'Água, sentindo sua energia pulsar em harmonia com a flauta do Jurupari, a corrente do Lobisomem, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera e o Muiraquitã que Kalyon carregava. Tayen, caminhando ao meu lado, mantinha o menino próximo, seus olhos atentos à mata que nos envolvia.
Kenai, com o bastão entalhado, liderava com passos firmes, enquanto Soyala, com a memória das histórias de Ayra viva em seu coração, cantarolava uma melodia que parecia acalmar até os ventos. O crepúsculo tingia o céu de vermelho quando um brilho estranho, como uma chama flutuante, apareceu entre as árvores. Kalyon, segurando o Muiraquitã, parou subitamente e apontou. Pai, olha, disse ele, com a voz cheia de curiosidade. É uma luz que não é do sol. A pedra dele brilhou com mais força, e eu senti o colar de conchas aquecer-se em minhas mãos.
Tayen, com a faca na mão, murmurou: Itiberê, as lendas falam da Alamoa, um espírito que guia ou engana os viajantes. Devemos ter cuidado. Kenai tocou o bastão na terra, e a chama flutuante aproximou-se, dançando como se tivesse vida. Quem sois vós, que cruzais a mata ao anoitecer? perguntou uma voz suave, mas com um tom que escondia mistério. Eu ergui o colar de conchas, que brilhou em resposta, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Os guardiões de Yvyrá nos conduziram, e carregamos seus presentes para proteger a mata.
Revela-te, Alamoa, e deixa-nos conhecer teu intento. A chama cresceu, e dela emergiu uma figura de mulher, com cabelos dourados que pareciam feitos de fogo e olhos que brilhavam como brasas. A Alamoa, segundo as lendas, era um espírito das florestas e montanhas, que atraía os viajantes com sua luz, ora para guiá-los, ora para perdê-los. Vós sois os guardiões de Yvyrá, disse ela, com um sorriso que era ao mesmo tempo gentil e enigmático. Carregais o peso da mata, mas a Alamoa não se deixa convencer por presentes.
Meu teste é de escolha. Segui-me, e provareis vossa sabedoria. Eu hesitei, pois as histórias falavam de viajantes que seguiam a Alamoa e nunca mais retornavam. A ti, Alamoa, disse eu, confiamos na mata, mas queremos saber teu teste. Ela riu, e a chama ao seu redor dançou. O caminho para Santa Luzia está próximo, disse ela, mas a mata esconde segredos. Escolhei: seguir minha luz, que pode vos levar à vila ou a um lugar perdido, ou permanecerdes na trilha, sem minha guia. Decidi agora, ou a noite vos engolirá.
Tayen olhou para mim, seus olhos cheios de determinação. Itiberê, disse ela, a Alamoa testa nossa fé em Yvyrá. Os guardiões nos guiaram até aqui. Devemos confiar em nós mesmos. Kenai, segurando o bastão, assentiu. Os presentes de Yvyrá são nossa luz, disse ele. Não precisamos da chama da Alamoa. Soyala, com a voz firme, acrescentou: As histórias de Ayra dizem que a Alamoa respeita quem escolhe com o coração. Devemos seguir a trilha.
Kalyon, segurando o Muiraquitã, olhou para a Alamoa e disse: Tua luz é bonita, mas a mata é minha casa. Eu sei o caminho. A Alamoa riu, e sua chama brilhou com mais força. Uma criança fala com a voz de Yvyrá, disse ela. Vós escolhestes bem. Minha luz vos guiaria, mas vossa união é mais forte que qualquer chama. Ela estendeu a mão, e uma pequena esfera de luz, como uma brasa viva, caiu em minhas mãos. Leva-a, Itiberê, disse ela. É a Chama de Yvyrá.
Quando a noite for mais escura, ela vos mostrará o caminho. A ti, Alamoa, agradecemos, disse eu, segurando a esfera, que pulsava com calor suave. Ela desapareceu, e a chama flutuante dissolveu-se, deixando a trilha clara sob a luz da lua. Tayen, abraçando Kalyon, sorriu. Ele sempre sabe, disse ela. Eu assenti, sentindo o peso dos presentes crescer, mas também a certeza de que estávamos mais próximos de Santa Luzia.
Kenai, examinando o bastão, disse: A Alamoa nos testou, mas Yvyrá nos protege. Devemos chegar à vila antes que a mata revele outro guardião. Soyala, com um brilho nos olhos, acrescentou: Cada presente é uma história. Quando voltarmos, contarei a chama da Alamoa às crianças. Kalyon, segurando o Muiraquitã, correu à frente, rindo.
A mata está esperando, disse ele. Enquanto seguíamos a trilha, com a esfera de luz em minhas mãos, senti que Yvyrá nos observava, satisfeita, mas sempre vigilante. A vila estava próxima, mas a mata, viva e cheia de mistérios, ainda guardava desafios. Eu apertei a mão de Tayen, e juntos avançamos, prontos para o que Yvyrá nos reservasse.
Capítulo 56: A Sombra da Pisadeira
A noite caíra sobre a mata, e a trilha para Santa Luzia tornava-se mais estreita, como se Yvyrá testasse nossa determinação. Eu, Itiberê, segurava a esfera de luz da Alamoa, cujo brilho suave iluminava o caminho, pulsando em harmonia com o colar de conchas, a flauta do Jurupari, a corrente do Lobisomem, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera e o Muiraquitã que Kalyon carregava. Tayen, com o menino ao seu lado, mantinha a mão na faca, seus olhos atentos às sombras que se moviam entre as árvores.
Kenai, com o bastão entalhado, caminhava à frente, enquanto Soyala, com as histórias de Ayra no coração, murmurava palavras que pareciam acalmar a mata. O ar ficou pesado, e um silêncio opressivo envolveu-nos. Um vento frio soprou, trazendo um som estranho, como unhas arranhando madeira. Kalyon, segurando o Muiraquitã, parou e olhou para o alto de uma árvore. Pai, disse ele, com a voz trêmula, algo está nos olhando. A pedra dele brilhou, e a esfera da Alamoa aqueceu-se em minhas mãos.
Tayen, aproximando-se, sussurrou: Itiberê, as lendas falam da Pisadeira, um espírito que pesa sobre os que dormem. Mas aqui, na mata, ela pode estar nos testando. Kenai bateu o bastão na terra, e o som ecoou, como se desafiasse a escuridão. Quem sois vós, que espreitais na noite? perguntou ele. Sou Itiberê, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala, guardiões de Yvyrá. Mostra-te, Pisadeira, e revela teu intento. Um riso seco, como folhas quebrando, respondeu, e uma figura esguia apareceu no topo de uma árvore.
Era a Pisadeira, com cabelos longos e emaranhados, olhos fundos que brilhavam na escuridão e unhas compridas que reluziam como lâminas. Seu corpo parecia leve, mas sua presença era um peso que fazia o peito apertar. Vós sois os guardiões, disse ela, com uma voz que parecia rastejar. Carregais os presentes de Yvyrá, mas a Pisadeira não se impressiona com luzes ou amuletos. Meu teste é da mente.
Enfrentai vossos medos mais profundos, ou nunca deixareis esta mata. Eu senti um frio percorrer-me, pois as lendas diziam que a Pisadeira trazia pesadelos que paralisavam os corações. A ti, Pisadeira, disse eu, estamos prontos. Fala teu teste. Ela riu, e a mata escureceu, como se a lua se escondesse. Cada um de vós verá um pesadelo, disse ela. Enfrentai-o, ou ficareis presos em vossas próprias mentes. Ela estalou os dedos, e a escuridão envolveu-nos.
Eu vi, diante de mim, a vila de Santa Luzia destruída, as casas queimadas, os rios secos. Temi ter falhado com Yvyrá. Mas então, a esfera da Alamoa brilhou, e eu lembrei-me das palavras do Caboclo d'Água: minha força estava na união. Eu sou Itiberê, disse eu, e a mata vive em mim. O pesadelo dissolveu-se, e a Pisadeira assentiu. Tayen, com os olhos arregalados, enfrentou seu medo. Vi Kalyon desaparecer na mata, disse ela. Mas sei que ele é a luz de Yvyrá.
Eu o protegerei sempre. A Pisadeira sorriu, e a visão de Tayen desvaneceu-se. Kenai viu o bastão quebrar-se, sua força esvaindo-se. Sou o pagé de Santa Luzia, disse ele. Minha força vem da mata, não apenas do bastão. A Pisadeira inclinou a cabeça, e o pesadelo dele sumiu. Soyala enfrentou o silêncio, onde as histórias de Ayra foram esquecidas. Minha voz é a memória de Yvyrá, disse ela. Nunca deixarei as lendas morrerem.
A Pisadeira riu, e a visão dela clareou. Kalyon, segurando o Muiraquitã, viu a pedra apagar-se. Eu sei que Yvyrá fala comigo, disse ele, com a voz firme. A pedra é só um pedaço dela. A Pisadeira, impressionada, desceu da árvore. Uma criança enfrenta o medo com coragem, disse ela. Vós sois dignos.
Ela estendeu a mão, e uma pulseira de cipós, entrelaçada com pedras escuras, caiu em minhas mãos. Leva-a, Itiberê, disse ela. É a Sombra de Yvyrá. Quando o medo vier, ela vos lembrará de vossa coragem. A ti, Pisadeira, agradecemos, disse eu, segurando a pulseira, que pulsava com uma energia fria, mas firme.
A Pisadeira desapareceu, e a mata voltou a respirar, com o canto dos grilos enchendo o ar. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Cada guardião nos faz mais fortes, disse ela. Eu assenti. Mas também nos lembra que Yvyrá exige tudo de nós, respondi.
Kenai, segurando o bastão, disse: Estamos quase em Santa Luzia. A vila precisa saber o que enfrentamos. Soyala, com um sorriso, acrescentou: E as crianças ouvirão a história da Pisadeira, para que aprendam a enfrentar seus medos. Kalyon, segurando o Muiraquitã, riu. A mata gosta de brincar, disse ele, mas nós somos mais fortes.
Enquanto seguíamos a trilha, com a pulseira de cipós em meu pulso, senti que Yvyrá estava satisfeita, mas vigilante. Santa Luzia estava próxima, mas a mata, cheia de mistérios, ainda guardava seus segredos. Eu apertei a mão de Tayen, e juntos avançamos, prontos para o que Yvyrá nos reservasse.
Capítulo 57: O Canto do Uirapuru
A mata, sob a luz do amanhecer, parecia saudar-nos com um brilho suave, como se Yvyrá celebrasse nossa jornada. Eu, Itiberê, segurava a pulseira de cipós da Pisadeira, sentindo sua energia fria pulsar em harmonia com o colar de conchas, a flauta do Jurupari, a corrente do Lobisomem, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera e o Muiraquitã que Kalyon carregava. Tayen, com o menino ao seu lado, caminhava com passos firmes, seus olhos fixos na trilha que nos levava cada vez mais perto de Santa Luzia.
Kenai, com o bastão entalhado, abria o caminho, enquanto Soyala, com as histórias de Ayra vivas no coração, observava as árvores com uma reverência silenciosa. Um som doce, como uma melodia que tocava a alma, interrompeu o silêncio da mata. Era um canto tão puro que fez os pássaros calarem-se, como se rendessem homenagem. Kalyon, segurando o Muiraquitã, parou e olhou para o alto. Pai, disse ele, com a voz cheia de maravilha, é o Uirapuru. A pedra dele brilhou intensamente, e a pulseira em meu pulso aqueceu-se, como se respondesse ao chamado. Tayen, com a faca na mão, murmurou: Itiberê, o Uirapuru é um pássaro sagrado.
Seu canto é um presente, mas também um desafio. Devemos encontrá-lo. Kenai tocou o bastão na terra, e a melodia tornou-se mais clara, como se nos guiasse. Quem sois vós, que ouvis o canto do Uirapuru? perguntou uma voz suave, que parecia vir de todas as árvores ao mesmo tempo. Eu ergui a pulseira de cipós, que brilhou com a luz da manhã, e respondi: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Os guardiões de Yvyrá nos conduziram, e carregamos seus presentes para proteger a mata. Revela-te, Uirapuru, e deixa-nos provar nossa missão.
Das copas desceu um pássaro pequeno, de penas vermelhas e olhos que pareciam carregar a sabedoria da floresta. O Uirapuru, segundo as lendas, era o rei dos cantos, cuja melodia trazia sorte e verdade, mas também testava os corações dos que a ouviam. Vós sois os guardiões de Yvyrá, disse ele, com uma voz que parecia uma canção. Carregais os presentes da mata, mas meu teste é diferente. Meu canto revela a verdade, mas exige que vós reveleis vossa essência. Cantai comigo, e a mata julgará vossa alma.
Eu senti um peso no peito, pois nunca fora cantor, mas a flauta do Jurupari vibrou em minhas mãos, como se me instasse a tentar. A ti, Uirapuru, disse eu, não sabemos cantar como tu, mas nossos corações pertencem à mata. Fala como podemos provar nossa essência. O pássaro voou ao redor de nós, seu canto enchendo o ar. Cada um de vós deve oferecer uma verdade, disse ele. Um segredo que guardais, algo que a mata precisa saber. Falai, ou meu canto vos calará para sempre.
Tayen foi a primeira a falar, com a voz firme, mas suave. Meu segredo é o medo de não ser suficiente para Kalyon, disse ela. Temo que minha força não baste para protegê-lo. O Uirapuru cantou uma nota doce, e a mata pareceu suspirar. Tua verdade é tua força, disse ele. A mata te ouve. Kenai, segurando o bastão, falou em seguida. Temo que o peso de ser pagé me afaste da vila, disse ele. Quero servir, mas às vezes desejo apenas ser um de vós. O Uirapuru voou sobre ele, cantando. Teu dever é tua união, disse ele. A mata te aceita.
Soyala, com os olhos brilhando, revelou: Temo que, sem meu caderno, eu esqueça as histórias de Ayra. Mas guardo-as em mim, e isso me assusta. O Uirapuru pousou em seu ombro, cantando suavemente. Tua memória é a voz de Yvyrá, disse ele. A mata te guarda. Kalyon, segurando o Muiraquitã, olhou para o pássaro. Às vezes, sinto a mata falar tão alto que não entendo, disse ele. Temo não ser forte o suficiente para ouvi-la sempre. O Uirapuru cantou uma melodia tão clara que a mata brilhou. Tua luz é a de Yvyrá, pequeno, disse ele. A mata te guia.
Por fim, o Uirapuru voltou-se para mim. E tu, Itiberê? perguntou ele. Eu segurei a flauta, sentindo o peso de todos os presentes. Temo que a mata peça mais do que posso dar, disse eu. Perdi o colar, mas temo que minha vida não baste para proteger Santa Luzia. O Uirapuru cantou, e a melodia envolveu-me como um abraço. Tua verdade é tua entrega, disse ele. A mata te reconhece.
Ele voou ao centro da clareira, e de suas penas caiu uma pluma vermelha, brilhante como o sol nascente. Leva-a, Itiberê, disse ele. É o Canto de Yvyrá. Quando a mata parecer silenciosa, ela vos lembrará de sua voz. A ti, Uirapuru, agradecemos, disse eu, tomando a pluma com reverência. O pássaro alçou voo, seu canto ecoando enquanto desaparecia entre as copas. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Cada guardião nos faz mais fortes, disse ela.
Eu assenti. E nos lembra que Yvyrá vive em nós, respondi. Kenai, segurando o bastão, disse: Santa Luzia está próxima. Devemos levar esses presentes à vila. Soyala, sorrindo, acrescentou: E contar a história do Uirapuru, para que as crianças nunca esqueçam sua canção. Kalyon, segurando o Muiraquitã, correu à frente, rindo.
A mata canta comigo, disse ele. Eu sorri, sentindo a pluma do Uirapuru pulsar em minha mão. A trilha para Santa Luzia estava clara, mas Yvyrá, viva e cheia de mistérios, ainda guardava seus segredos. Apertei a mão de Tayen, e juntos seguimos, prontos para o que a mata nos reservasse.
Capítulo 58: O Desafio do Cuca
A mata, banhada pela luz suave do meio-dia, parecia vibrar com a energia de Yvyrá, como se cada folha e galho celebrasse nossa jornada rumo a Santa Luzia. Eu, Itiberê, segurava a pluma do Uirapuru, cujo brilho vermelho pulsava em harmonia com o colar de conchas, a flauta do Jurupari, a corrente do Lobisomem, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, o Muiraquitã de Kalyon e a pulseira de cipós da Pisadeira. Tayen, com o menino ao seu lado, caminhava com passos firmes, sua mão na faca, atenta aos sussurros da floresta.
Kenai, com o bastão entalhado, liderava o caminho, enquanto Soyala, com as histórias de Ayra no coração, observava o entorno com um misto de reverência e cautela. Um odor estranho, como de ervas queimadas, envolveu a trilha, e uma risada aguda, quase infantil, cortou o ar. Kalyon, segurando o Muiraquitã, parou e apontou para uma clareira coberta de musgo. Pai, disse ele, com a voz cheia de curiosidade, algo está escondido ali. A pedra dele brilhou intensamente, e a pluma do Uirapuru aqueceu-se em minha mão.
Tayen, com os olhos estreitados, murmurou: Itiberê, as lendas falam do Cuca, um espírito que vive nas sombras e engana os viajantes. Devemos estar alerta. Kenai bateu o bastão na terra, e o som ecoou, como se desafiasse a clareira. Quem sois vós, que espreitais na mata? perguntou ele. Sou Itiberê, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala, guardiões de Yvyrá. Revela-te, Cuca, e mostra teu intento. A risada ecoou novamente, e uma figura estranha surgiu do musgo. Era o Cuca, com corpo de jacaré, olhos brilhantes e um sorriso astuto que revelava dentes afiados.
Segundo as lendas, ele era um guardião temido, que sequestrava os descuidados e guardava os segredos mais profundos da mata. Vós sois os guardiões de Yvyrá, disse o Cuca, com uma voz que misturava zombaria e sabedoria. Carregais muitos presentes, mas o Cuca não se deixa impressionar. Meu teste é da astúcia. Respondei meu enigma, ou a mata vos esconderá de Santa Luzia para sempre. Eu senti um aperto no peito, pois as lendas diziam que o Cuca era mestre em confundir os corações.
A ti, Cuca, disse eu, estamos prontos. Fala teu enigma. Ele riu, e a clareira pareceu girar, com sombras dançando ao nosso redor. Sou velho como a mata, mas ninguém me vê crescer, disse ele. Durmo nas sombras, mas vivo nos sonhos. Meus olhos enxergam o coração, mas minha boca guarda segredos. Quem sou eu? Respondei, ou a trilha desaparecerá. Eu olhei para meus companheiros, buscando a resposta. Soyala, com a memória das histórias de Ayra, murmurou: As lendas dizem que o Cuca é mais que um monstro. Ele é a mata que observa, o guardião que testa a verdade.
Kenai, segurando o bastão, acrescentou: O enigma fala dele mesmo, mas também de Yvyrá. Talvez a resposta seja a própria mata. Kalyon, segurando o Muiraquitã, deu um passo à frente. Eu sei, disse ele, com a voz clara. Tu és o Cuca, mas também és Yvyrá. Vives nos sonhos da mata, guardas seus segredos e testas quem a ama. O Cuca riu, batendo as garras no chão. Uma criança enxerga o que os adultos hesitam, disse ele. Mas a resposta exige mais. Cada um de vós deve oferecer um segredo que guardais, algo que a mata merece saber.
Tayen, com a voz firme, falou primeiro. Temo às vezes desejar uma vida simples, longe da mata, disse ela. Mas sei que meu lugar é com Kalyon e Yvyrá. O Cuca assentiu, e a clareira brilhou levemente. Teu coração é verdadeiro, disse ele. Kenai, segurando o bastão, confessou: Temo que meu papel como pagé me isole dos que amo, disse ele. Mas a mata é minha família. O Cuca sorriu. Tua força é tua lealdade, disse ele, e a clareira brilhou novamente.
Soyala, com lágrimas nos olhos, falou: Temo que minhas histórias não sejam suficientes para honrar Ayra, disse ela. Mas juro nunca parar de contá-las. O Cuca inclinou a cabeça. Tua voz é a alma de Yvyrá, disse ele. Kalyon, segurando o Muiraquitã, disse: Temo crescer e esquecer o que a mata me ensinou, disse ele. Mas prometo sempre ouvir. O Cuca riu, com um som quase gentil. Tua luz é o futuro, pequeno, disse ele.
Por fim, o Cuca voltou-se para mim. E tu, Itiberê? perguntou ele. Eu segurei a pluma do Uirapuru, sentindo todos os presentes pulsarem. Temo que a mata peça mais do que posso dar, disse eu. Mas enquanto viver, serei seu guardião. O Cuca assentiu, e a clareira brilhou com força. Vós sois dignos, disse ele. A mata vos aceita. Ele estendeu a garra, e um colar de dentes de jacaré, preso por um fio de cipó, caiu em minhas mãos. Leva-o, Itiberê, disse ele.
É o Segredo de Yvyrá. Quando a dúvida vier, ele vos lembrará de vossa verdade. A ti, Cuca, agradecemos, disse eu, segurando o colar com reverência. O Cuca desapareceu, dissolvendo-se no musgo, e a clareira voltou à calma. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Cada guardião nos ensina, disse ela. Eu assenti. E nos prepara para proteger Santa Luzia, respondi. Kenai, segurando o bastão, disse: A vila está tão perto.
Devemos levar esses presentes ao coração da mata. Soyala, sorrindo, acrescentou: E contar a história do Cuca, para que as crianças aprendam sua astúcia. Kalyon, segurando o Muiraquitã, correu à frente, rindo. A mata confia em nós, disse ele.
Eu sorri, sentindo o colar de dentes pulsar em minha mão. A trilha para Santa Luzia estava clara, mas Yvyrá, viva e cheia de mistérios, ainda guardava seus desafios. Apertei a mão de Tayen, e juntos seguimos, prontos para o que a mata nos reservasse.
Capítulo 59: O Fogo do Anhangá
A mata, sob o sol ardente do meio-dia, parecia vibrar com a força de Yvyrá, como se cada galho e folha sussurrasse os segredos dos guardiões que nos guiaram. Eu, Itiberê, segurava o colar de dentes do Cuca, cujo peso leve pulsava em harmonia com a pluma do Uirapuru, o colar de conchas, a flauta do Jurupari, a corrente do Lobisomem, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, o Muiraquitã de Kalyon e a pulseira de cipós da Pisadeira. Tayen, com Kalyon ao seu lado, caminhava com olhos atentos, sua mão firme na faca.
Kenai, com o bastão entalhado, abria a trilha, enquanto Soyala, com as histórias de Ayra no coração, observava a mata com uma reverência silenciosa. Um calor súbito envolveu-nos, e uma luz avermelhada brilhou entre as árvores, como se um fogo invisível dançasse. Kalyon, segurando o Muiraquitã, parou e apontou para uma clareira onde a terra parecia chamuscada. Pai, disse ele, com a voz cheia de curiosidade, algo está brilhando ali. A pedra dele reluziu com força, e o colar de dentes aqueceu-se em minha mão.
Tayen, com a voz baixa, murmurou: Itiberê, as lendas falam do Anhangá, um espírito que protege a mata com fogo e sombra. Ele pode ser amigo ou inimigo. Devemos ser cautelosos. Kenai bateu o bastão na terra, e o calor intensificou-se, como se a mata respondesse com vida própria. Quem sois vós, que ousais cruzar o domínio do Anhangá? perguntou uma voz grave, que parecia surgir do próprio chão. Eu ergui o colar de dentes, que brilhou com a luz do sol, e respondi: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala.
Os guardiões de Yvyrá nos guiaram, e carregamos seus presentes para proteger a mata. Revela-te, Anhangá, e deixa-nos provar nossa missão. Das sombras da clareira emergiu uma figura imponente, envolta em fumaça e chamas que não queimavam. O Anhangá, segundo as lendas, era o guardião dos animais e das florestas, um espírito que castigava os que feriam a mata, mas recompensava os puros de coração. Seus olhos brilhavam como brasas, e sua forma oscilava entre homem e fera. Vós sois os guardiões de Yvyrá, disse ele, com uma voz que ressoava como trovão.
Carregais os presentes da mata, mas o Anhangá exige prova de vossa determinação. Meu teste é do fogo. Enfrentai-o, ou a mata vos consumirá. Eu senti o peso de suas palavras, pois cada guardião testara-nos à sua maneira. A ti, Anhangá, disse eu, estamos prontos. Fala teu teste. Ele estendeu a mão, e uma chama viva formou-se no centro da clareira, pulsando como um coração. Cada um de vós deve tocar o fogo, disse ele. Não vos queimará se vossa determinação for pura. Mas se duvidardes, a chama vos julgará.
Tayen, com a coragem que sempre a marcava, foi a primeira. Minha determinação é proteger Kalyon e a mata, disse ela, estendendo a mão para a chama. A luz envolveu seus dedos, mas não a feriu. O Anhangá assentiu. Tua força é verdadeira, disse ele. Kenai, segurando o bastão, aproximou-se. Minha determinação é guiar Santa Luzia com a sabedoria da mata, disse ele. Ele tocou a chama, e ela brilhou sem machucá-lo. O Anhangá olhou para ele. Teu dever é tua chama, disse ele.
Soyala, com os olhos brilhando, falou: Minha determinação é manter as histórias de Yvyrá vivas, disse ela. Ela tocou a chama, e a luz dançou ao seu redor, intocada. O Anhangá sorriu. Tua voz é o fogo da mata, disse ele. Kalyon, segurando o Muiraquitã, olhou para a chama sem medo. Eu quero que a mata viva para sempre, disse ele, tocando a chama com a pedra. A luz brilhou intensamente, e o Anhangá inclinou-se. Tua luz é a esperança de Yvyrá, disse ele.
Por fim, o Anhangá voltou-se para mim. E tu, Itiberê? perguntou ele. Eu segurei o colar de dentes, sentindo todos os presentes pulsarem. Minha determinação é proteger a mata e minha família, custe o que custar, disse eu. Toquei a chama, e ela envolveu minha mão, quente, mas sem dor. O Anhangá assentiu. Teu coração é o fogo de Yvyrá, disse ele. Ele ergueu a mão, e uma pequena tocha, feita de madeira que não se consumia, caiu em minhas mãos. Leva-a, Itiberê, disse ele. É o Fogo de Yvyrá. Quando a escuridão vier, ela vos guiará. A ti, Anhangá, agradecemos, disse eu, segurando a tocha com reverência.
O Anhangá dissolveu-se em fumaça, e a clareira voltou à calma, com o sol brilhando suavemente. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Cada guardião nos fortalece, disse ela. Eu assenti. E nos lembra que Yvyrá confia em nós, respondi. Kenai, segurando o bastão, disse: Santa Luzia está tão perto. Devemos levar esses presentes ao coração da vila. Soyala, sorrindo, acrescentou: E contar a história do Anhangá, para que as crianças saibam de sua proteção.
Kalyon, segurando o Muiraquitã, correu à frente, rindo. A mata está brilhando, disse ele. Eu sorri, sentindo a tocha pulsar em minha mão. A trilha para Santa Luzia estava clara, mas Yvyrá, viva e cheia de mistérios, ainda guardava seus segredos. Apertei a mão de Tayen, e juntos seguimos, prontos para o que a mata nos reservasse.
Capítulo 60: A Sombra do Gorjala
A mata, sob a luz dourada do entardecer, parecia pulsar com a energia de Yvyrá, como se cada árvore e riacho celebrasse nossa proximidade com Santa Luzia. Eu, Itiberê, segurava a tocha do Anhangá, cujo fogo suave brilhava em harmonia com o colar de dentes do Cuca, a pluma do Uirapuru, o colar de conchas, a flauta do Jurupari, a corrente do Lobisomem, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, o Muiraquitã de Kalyon e a pulseira de cipós da Pisadeira.
Tayen, com Kalyon ao seu lado, caminhava com passos firmes, sua mão na faca, atenta às sombras que se alongavam na trilha. Kenai, com o bastão entalhado, liderava com determinação, enquanto Soyala, com as histórias de Ayra no coração, observava a mata com olhos cheios de reverência. Um silêncio súbito envolveu a floresta, e um vento frio trouxe um som estranho, como um lamento abafado. Kalyon, segurando o Muiraquitã, parou e olhou para uma ravina coberta de trepadeiras. Pai, disse ele, com a voz cheia de curiosidade, algo está chorando ali.
A pedra dele brilhou intensamente, e a tocha do Anhangá aqueceu-se em minha mão. Tayen, com a voz baixa, murmurou: Itiberê, as lendas falam do Gorjala, um espírito que vive nas sombras e assusta os viajantes. Ele pode ser um teste final antes da vila. Kenai bateu o bastão na terra, e o lamento tornou-se mais claro, como se a mata respondesse. Quem sois vós, que espreitais na escuridão? perguntou ele. Sou Itiberê, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala, guardiões de Yvyrá. Revela-te, Gorjala, e mostra teu intento.
Um vulto emergiu da ravina, uma figura esguia coberta por um manto de folhas secas, com olhos que brilhavam como brasas apagadas. O Gorjala, segundo as lendas, era um espírito que vagava pela mata, assustando os que se aventuravam à noite, mas também guiando os que mereciam sua confiança. Vós sois os guardiões de Yvyrá, disse ele, com uma voz que parecia um sussurro carregado de tristeza. Carregais os presentes da mata, mas o Gorjala não se deixa enganar por amuletos. Meu teste é da perseverança. Enfrentai minha sombra, ou nunca vereis Santa Luzia.
Eu senti um peso no peito, pois as lendas diziam que o Gorjala trazia medo e dúvida aos corações. A ti, Gorjala, disse eu, estamos prontos. Fala teu teste. Ele estendeu a mão, e a ravina escureceu, como se a luz do entardecer fosse engolida. Cada um de vós verá uma sombra de si mesmo, disse ele. Enfrentai-a, ou ela vos seguirá para sempre. As trepadeiras moveram-se, e diante de cada um de nós surgiu uma figura sombria, um reflexo distorcido de nossas formas.
Minha sombra era eu, mas com olhos vazios e o colar de conchas quebrado. Tu falhaste, Itiberê, disse ela. A mata perecerá por tua fraqueza. Eu segurei a tocha do Anhangá, que brilhou intensamente. Não falhei, disse eu. Minha força é minha família e Yvyrá. A sombra dissolveu-se, e o Gorjala assentiu. Tayen enfrentou uma sombra que segurava Kalyon, mas com mãos frias. Tu não o protegerás, disse a sombra.
Tayen, com lágrimas nos olhos, respondeu: Meu amor por Kalyon é mais forte que qualquer sombra. A figura sumiu, e o Gorjala inclinou a cabeça. Kenai viu uma sombra com o bastão partido. Tu não és pagé, disse ela. Kenai, firme, respondeu: Meu dever é maior que o bastão. Sou a voz de Yvyrá. A sombra desapareceu, e o Gorjala sorriu levemente. Soyala enfrentou uma sombra sem rosto, que sussurrava: Tuas histórias estão perdidas.
Ela, com a voz firme, disse: As histórias de Ayra vivem em mim, e nunca as esquecerei. A sombra desvaneceu-se, e o Gorjala olhou para ela com respeito. Kalyon viu uma sombra pequena, com a pedra apagada. Tu és apenas uma criança, disse ela. Kalyon, segurando o Muiraquitã, respondeu: A mata me escolheu, e eu sou sua luz. A sombra sumiu, e o Gorjala riu, um som quase gentil.
Vós sois perseverantes, disse o Gorjala. A mata reconhece vossa força. Ele estendeu a mão, e uma pequena bolsa de couro, cheia de sementes que brilhavam como estrelas, caiu em minhas mãos. Leva-a, Itiberê, disse ele. É a Semente de Yvyrá. Plantai-a em Santa Luzia, e a mata crescerá mais forte. A ti, Gorjala, agradecemos, disse eu, segurando a bolsa com reverência.
O Gorjala dissolveu-se nas trepadeiras, e a ravina clareou, com o sol voltando a brilhar. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim. Cada guardião nos testa, disse ela, mas também nos une. Eu assenti. Yvyrá nos prepara para proteger a vila, respondi. Kenai, segurando o bastão, disse: Estamos quase em casa. Devemos plantar essas sementes no coração da mata. Soyala, sorrindo, acrescentou: E contar a história do Gorjala, para que as crianças saibam de sua sombra.
Kalyon, segurando o Muiraquitã, correu à frente, rindo. A mata está feliz, disse ele. Eu sorri, sentindo as sementes pulsarem na bolsa. A trilha para Santa Luzia estava clara, mas Yvyrá, viva e cheia de mistérios, ainda guardava seus segredos. Apertei a mão de Tayen, e juntos seguimos, prontos para o que a mata nos reservasse.
Capítulo 61: O Voo do Urutau
A mata, sob o véu prateado do amanhecer, parecia sussurrar com a voz de Yvyrá, como se cada galho e folha celebrasse nossa jornada rumo a Santa Luzia. Eu, Itiberê, segurava a bolsa de sementes do Gorjala, sentindo seu pulsar suave em harmonia com a tocha do Anhangá, o colar de dentes do Cuca, a pluma do Uirapuru, o colar de conchas, a flauta do Jurupari, a corrente do Lobisomem, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, o Muiraquitã de Kalyon e a pulseira de cipós da Pisadeira.
Tayen, com Kalyon ao seu lado, caminhava com olhos atentos, sua mão na faca, pronta para qualquer sinal da floresta. Kenai, com o bastão entalhado, abria o caminho com passos firmes, enquanto Soyala, com as histórias de Ayra no coração, observava a mata com um brilho de reverência. Um canto melancólico, como um lamento que tocava a alma, ecoou entre as árvores, fazendo-nos parar. Kalyon, segurando o Muiraquitã, olhou para o alto, onde a luz do sol mal atravessava as copas. Pai, disse ele, com a voz cheia de assombro, é o Urutau.
A pedra dele brilhou com força, e a bolsa de sementes aqueceu-se em minha mão. Tayen, com a voz baixa, murmurou: Itiberê, as lendas dizem que o Urutau é o guardião da noite, cujo canto traz saudade, mas também verdade. Devemos encontrá-lo com cuidado. Kenai bateu o bastão na terra, e o canto tornou-se mais claro, como se nos chamasse. Quem sois vós, que ouvis o lamento do Urutau? perguntou uma voz suave, que parecia flutuar no ar. Eu ergui a bolsa de sementes, que brilhou com a luz da manhã, e respondi:
Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia, com Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Os guardiões de Yvyrá nos guiaram, e carregamos seus presentes para proteger a mata. Revela-te, Urutau, e deixa-nos provar nossa missão. Das copas desceu um pássaro cinzento, com olhos grandes que pareciam enxergar além do visível. O Urutau, segundo as lendas, era o espírito da saudade, cujo canto fazia os corações lembrarem o que haviam perdido, mas também os guiava à verdade. Vós sois os guardiões de Yvyrá, disse ele, com uma voz que parecia um sussurro da mata.
Carregais os presentes da floresta, mas meu teste é da memória. Recordai o que vos trouxe até aqui, ou meu canto vos prenderá na saudade. Eu senti um peso no peito, pois o Urutau não pedia força, mas introspecção. A ti, Urutau, disse eu, estamos prontos. Fala teu teste. Ele abriu as asas, e a mata escureceu, como se a luz do amanhecer se curvasse à sua vontade. Cada um de vós deve recordar uma memória que vos liga à mata, disse ele. Falai a verdade, ou a saudade vos consumirá. Tayen foi a primeira a falar, com a voz firme, mas suave.
Lembro-me do dia em que Kalyon nasceu, disse ela. A mata cantou para ele, e soube que meu coração pertencia a Yvyrá. O Urutau cantou uma nota triste, mas clara, e a mata brilhou. Tua memória é pura, disse ele. Kenai, segurando o bastão, falou em seguida. Lembro-me da primeira vez que toquei este bastão, disse ele. A mata falou comigo, e soube que meu caminho era protegê-la. O Urutau voou sobre ele, cantando. Tua memória é forte, disse ele.
Soyala, com lágrimas nos olhos, recordou: Lembro-me de ouvir Ayra contar suas histórias sob a luz da fogueira, disse ela. Foi quando jurei manter viva a voz de Yvyrá. O Urutau pousou em uma árvore próxima, cantando suavemente. Tua memória é a alma da mata, disse ele. Kalyon, segurando o Muiraquitã, olhou para o pássaro. Lembro-me da Nascente Viva, disse ele. A mata me abraçou, e soube que era parte dela.
O Urutau cantou uma melodia tão clara que a mata estremeceu. Tua memória é a luz de Yvyrá, disse ele. Por fim, o Urutau voltou-se para mim. E tu, Itiberê? perguntou ele. Eu segurei a bolsa de sementes, sentindo todos os presentes pulsarem. Lembro-me do dia em que o colar me escolheu, disse eu. A mata confiou em mim, e jurei nunca falhar com ela. O Urutau cantou, e a melodia envolveu-me como um vento suave. Tua memória é a promessa de Yvyrá, disse ele.
Ele voou ao centro da clareira, e de suas asas caiu uma pena cinzenta, que brilhou com a luz do amanhecer. Leva-a, Itiberê, disse ele. É a Memória de Yvyrá. Quando a dúvida vier, ela vos lembrará de vossas raízes. A ti, Urutau, agradecemos, disse eu, tomando a pena com reverência. O pássaro alçou voo, seu canto ecoando enquanto desaparecia entre as copas. Tayen, abraçando Kalyon, olhou para mim.
Cada guardião nos faz lembrar quem somos, disse ela. Eu assenti. E nos prepara para proteger Santa Luzia, respondi. Kenai, segurando o bastão, disse: A vila está tão perto. Devemos levar essas memórias ao coração da mata. Soyala, sorrindo, acrescentou: E contar a história do Urutau, para que as crianças saibam de sua saudade.
Kalyon, segurando o Muiraquitã, correu à frente, rindo. A mata lembra de nós, disse ele. Eu sorri, sentindo a pena do Urutau pulsar em minha mão. A trilha para Santa Luzia estava clara, mas Yvyrá, viva e cheia de mistérios, ainda guardava seus segredos. Apertei a mão de Tayen, e juntos seguimos, prontos para o que a mata nos reservasse.
Capítulo 62: O Encontro com a Cobra Grande
O rio que cruzava nosso caminho parecia pulsar com uma energia antiga, suas águas escuras refletindo o brilho dourado do entardecer. Eu, Itiberê, segurava a pena do Urutau, que ainda tremia com a melodia triste do pássaro, enquanto os outros presentes de Yvyrá, a concha do Boto, o carvão do Anhanguera e a corrente do Lobisomem, repousavam seguros comigo. Tayen caminhava ao meu lado, com Kalyon entre nós, o menino segurando a pedra reluzente que agora parecia carregar a luz de todos os guardiões que encontramos.
Kenai, com o bastão entalhado, examinava as margens do rio, enquanto Soyala, sem o caderno, mas com a memória viva, murmurava histórias que Ayra contara sobre as águas profundas. A mata estava silenciosa, mas não de um modo tranquilo. Era como se algo nos observasse, algo que fazia o próprio rio hesitar em seu curso. Kalyon, apontando para a água, disse com sua voz clara: Pai, ali tem algo grande. Eu olhei, e vi as águas se agitarem, formando redemoinhos que não eram naturais. Tayen, com a faca na mão, aproximou-se do menino.
Itiberê, murmura ela, as lendas falam da Cobra Grande, a guardiã dos rios. Se ela aqui está, não será sem razão. Kenai, tocando o bastão na margem, fez a terra vibrar, e o rio respondeu com um rugido baixo, como se a própria água vivesse. De súbito, ela emergiu. A Cobra Grande era imensa, seu corpo coberto de escamas que brilhavam como o sol nas águas, os olhos vermelhos fixos em nós. Sua cabeça ergueu-se acima das árvores, e sua voz, grave e ecoante, fez o chão tremer. Quem sois vós, que ousais perturbar meu rio? perguntou ela.
Eu ergui a pena do Urutau, que brilhou com uma luz suave, e respondi: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. A Cobra Grande baixou a cabeça, os olhos examinando-nos com cuidado. Vós tendes os presentes dos guardiões, disse ela. Mas o rio é meu domínio, e só passa quem prova seu respeito. Kalyon, sem temor, deu um passo à frente, segurando a pedra reluzente. Eu sei respeitar o rio, disse ele. A Nascente Viva me ensinou.
Ele tocou a pedra na água, e uma luz verde espalhou-se, acalmando os redemoinhos. A Cobra Grande inclinou-se, surpresa. Uma criança com a luz da Nascente, murmurou ela. Talvez vós sejais dignos. Ela ergueu o corpo, e o rio se abriu, revelando uma trilha de pedras que levava a uma caverna escondida na margem oposta. Meu teste é simples, disse a Cobra Grande. Na caverna, há uma flor que cresce apenas onde o rio encontra a mata. Traga-a a mim, sem ferir o rio ou a terra. Mas cuidado: o caminho é traiçoeiro, e o rio não perdoa quem o desrespeita.
Eu troquei um olhar com Tayen, que assentiu. Iremos, disse eu. Kalyon, tu ficas com Soyala. O menino protestou, mas Tayen o abraçou. Confia em nós, disse ela. Eu, Tayen e Kenai cruzamos as pedras com cuidado, sentindo o rio observar cada movimento. A caverna era úmida, com raízes pendendo do teto, e no centro, uma flor azul brilhava, suas pétalas pulsando como as águas. Kenai, com o bastão, tocou o chão, e a flor pareceu responder, inclinando-se para nós. Mas o rio rugiu, e a caverna estremeceu. A Cobra Grande testava-nos.
Tayen, com a faca, cortou uma raiz que ameaçava cair sobre a flor, mas sem tocá-la diretamente. Eu peguei a flor com cuidado, sentindo sua energia viva, e voltamos pelo mesmo caminho, com o rio nos vigiando. Ao entregarmos a flor à Cobra Grande, ela sorriu, um sorriso que parecia aquecer as águas. Vós respeitastes o rio, disse ela. Sois dignos de Yvyrá. Ela mergulhou a flor na água, e o rio brilhou, como se rejuvenescido.
Tomai isto, disse ela, e uma escama sua caiu em minha mão, brilhando como um espelho. É meu presente. Com ele, o rio vos protegerá no caminho de volta a Santa Luzia. Mas lembrai-vos: o equilíbrio da mata depende de vós. Eu agradeci, guardando a escama com os outros presentes. Soyala, abraçando Kalyon, olhou para a Cobra Grande. Ayra falava de ti, disse ela. A guardiã que molda os rios.
A Cobra Grande assentiu. E eu falo de Ayra, disse ela. Sua memória vive na mata. Ela mergulhou, e o rio acalmou-se, como se nos abençoasse. Enquanto seguíamos a trilha, com a escama brilhando em minha mão, senti que estávamos mais próximos de Santa Luzia. Mas a mata, com seus guardiões, ainda tinha muito a ensinar.
Kalyon, correndo à frente, mesmo se as águas e as árvores cantassem juntas. Estávamos mais próximos de Santa Luzia, mas eu sabia que a jornada ainda guardava surpresas. A missão de proteger Yvyrá era eterna, e nós, com Kalyon à frente, éramos seus guardiões.
Capítulo 63: A Visão do Cumacanga
O crepúsculo tingia a mata de tons dourados e roxos, e o som do rio, agora calmo após o encontro com a Cobra Grande, parecia cantar uma melodia antiga. Eu, Itiberê, guardava a escama brilhante com os outros presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera e a corrente do Lobisomem, sentindo o peso de nossa missão cada vez mais próximo de seu fim. Tayen caminhava com Kalyon, o menino segurando a pedra reluzente que pulsava com a luz dos guardiões.
Kenai, com o bastão entalhado, vigiava o caminho, enquanto Soyala, com a memória das histórias de Ayra, narrava lendas para manter nossos espíritos elevados. A trilha levou-nos a uma lagoa escondida, cercada por flores que brilhavam como estrelas caídas. O ar ali era diferente, mais leve, como se a mata nos acolhesse com um carinho especial. Kalyon, apontando para a água, disse com sua voz cheia de maravilha: Mãe, olha, tem rostos na água. Tayen, seguindo o olhar do menino, viu formas indistintas refletidas na lagoa, como se espíritos dançassem sob a superfície.
Itiberê, murmurou ela, isto me lembra as histórias do Cumacanga, as cabeças que protegem as águas e as mulheres da mata. Eu aproximei-me da margem, sentindo a escama da Cobra Grande aquecer em minha mão. Antes que eu pudesse falar, a água agitou-se, e delas emergiram figuras etéreas, cabeças flutuantes com cabelos longos e olhos que pareciam carregar a sabedoria dos rios. Eram as Cumacanga, guardiãs das águas, conhecidas por sua ligação com as mulheres e por sua vingança contra quem as desrespeita.
Quem sois vós, que pisais nosso santuário? perguntou uma delas, com voz que parecia o murmurar de um riacho. Eu ergui a escama, que brilhou em resposta, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. As Cumacanga aproximaram-se, seus rostos flutuando ao nosso redor. Vós tendes a luz dos guardiões, disse outra, com voz mais suave. Mas este lugar é sagrado para as águas e para as filhas da mata. Só passa quem carrega respeito em seu coração.
Tayen, dando um passo à frente, falou com firmeza: A vós, Cumacanga, eu me apresento como mulher e mãe. Conheço vosso papel, pois as histórias de Ayra falavam de vossa força. Protegeram as mulheres da mata contra os que lhes fazem mal. Eu trago meu filho, Kalyon, e peço vossa bênção para seguirmos nosso caminho. As Cumacanga voltaram seus olhos para Kalyon, que ergueu a pedra reluzente. A luz da Nascente, murmuraram elas em uníssono. Este menino é puro, e sua mãe fala com verdade.
A líder das Cumacanga, cujos cabelos brilhavam como fios de ouro, aproximou-se de Tayen. A ti, mulher, daremos nossa bênção, disse ela. Mas a mata exige um ato de respeito. Oferecei algo que vos seja precioso, algo que mostre vossa ligação com as águas. Tayen hesitou, mas, com um olhar para Kalyon, retirou um pequeno colar de conchas que usava, um presente que sua mãe lhe dera quando criança.
Este colar é minha memória, disse ela. Mas o entrego para mostrar meu respeito. As Cumacanga aceitaram o colar, e a lagoa brilhou com uma luz suave. Vosso coração é verdadeiro, disse a líder. Tomai isto, como sinal de nossa aliança. Ela entregou a Tayen uma pequena pérola, que brilhava com as cores do arco-íris. Esta pérola carrega a memória das águas, disse ela.
Quando precisardes, ela vos guiará. Ide, guardiões de Yvyrá, e protegei a mata como nós protegemos os rios. Eu agradeci, e Tayen guardou a pérola com cuidado. Soyala, observando a lagoa, disse: Ayra dizia que as Cumacanga são a voz das águas. Elas nos abençoaram, Itiberê. Kenai, com o bastão, tocou a margem, e a trilha adiante abriu-se, como se a mata respondesse à bênção.
Kalyon, segurando a mão de Tayen, sorriu. A água gosta de nós, disse ele, e eu senti que ele estava certo. Enquanto deixávamos a lagoa, com a pérola brilhando na mão de Tayen, a mata parecia mais viva, cooube que, com ele, o futuro de Yvyrá estava seguro.
Capítulo 64: O Jogo do Negro d'Água
A noite caíra sobre a mata, e as estrelas brilhavam como guias no céu escuro. Eu, Itiberê, segurava os presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a corrente do Lobisomem, a escama da Cobra Grande e a pérola do Cumacanga, sentindo a energia da mata pulsar em cada um deles. Tayen caminhava com Kalyon, o menino segurando a pedra reluzente que parecia iluminar nosso caminho. Kenai, com o bastão entalhado, mantinha-se alerta, enquanto Soyala, com a memória das histórias de Ayra, narrava lendas para acalmar nossos corações.
Chegamos a um trecho do rio onde a correnteza era mais forte, e uma ponte natural de pedras estendia-se sobre as águas turbulentas. Mas havia algo estranho no ar, um cheiro de peixe e um som de risadas que não eram humanas. Kalyon, apontando para a água, disse com sua voz cheia de curiosidade: Pai, ali tem um homem, mas ele não é como nós. Eu olhei, e vi uma figura escura emergir do rio, com pele que brilhava como escamas e olhos que reluziam como brasas. Era o Negro d'Água, guardião dos rios, conhecido por sua astúcia e por seus jogos com os viajantes.
Quem sois vós, que cruzais meu rio sem me saudar? perguntou ele, com uma voz que parecia o som das águas batendo nas pedras. Eu ergui a escama da Cobra Grande, que brilhou em resposta, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. O Negro d'Água riu, nadando em círculos ao redor da ponte. Vós tendes os presentes dos guardiões, disse ele. Mas eu gosto de jogos. Se quereis cruzar meu rio, deveis vencer meu desafio.
Tayen, com a pérola do Cumacanga na mão, deu um passo à frente. A ti, Negro d'Água, disse ela, não tememos teus jogos. Fala teu desafio, e provaremos nosso valor. O Negro d'Água sorriu, mostrando dentes afiados, e apontou para a ponte. Na outra margem, há um peixe dourado que vive sob uma pedra, disse ele. Traga-o a mim, mas sem molhar os pés e sem ferir o rio. Se falhardes, ficareis presos em meu domínio.
Eu troquei um olhar com Kenai, que assentiu. Iremos, disse eu. Kalyon, tu ficas com Soyala e Tayen. O menino, segurando a pedra reluzente, disse: Pai, a pedra pode ajudar. Ela brilha mais perto da água. Eu sorri, agradecendo sua intuição, e peguei a pedra, que realmente pulsava com mais força perto do rio. Kenai e eu cruzamos a ponte com cuidado, equilibrando-nos nas pedras para não tocar a água.
Na outra margem, encontramos a pedra que o Negro d'Água mencionara, e sob ela, o peixe dourado nadava, sua luz refletindo nas águas. Kenai, com o bastão, tocou a pedra, e o peixe nadou para perto, como se atraído pela energia do bastão. Eu usei a pedra de Kalyon para guiá-lo, e, com cuidado, peguei o peixe com as mãos, sem molhá-las, usando uma folha larga que Tayen me entregara antes.
Voltamos pela ponte, e entreguei o peixe ao Negro d'Água, que riu com prazer. Vós sois astutos, disse ele. Respeitastes o rio e vencestes meu jogo. Ele tomou o peixe, que se dissolveu em luz, e entregou-me uma pequena rede tecida com fios que pareciam feitos de água. Tomai isto, disse ele. Esta rede vos protegerá das correntezas no caminho de volta a Santa Luzia. Mas lembrai-vos: o rio é vivo, e deveis sempre honrá-lo.
Eu agradeci, guardando a rede com os outros presentes. Soyala, observando o Negro d'Água, disse: Ayra contava que o Negro d'Água ensina através de seus jogos. Ele nos testou, e nós aprendemos. O Negro d'Água mergulhou, e o rio acalmou-se, como se nos abençoasse. Kalyon, correndo até mim, pegou a pedra de volta e sorriu.
O rio é nosso amigo, disse ele. Tayen, abraçando-o, olhou para mim. Estamos quase em casa, Itiberê, disse ela. Eu assenti, sentindo que Santa Luzia estava próxima, mas a mata ainda guardava lições. Com a rede do Negro d'Água em mãos, seguimos a trilha, prontos para o que Yvyrá nos reservasse.
Capítulo 65: O Encontro com a Comadre Fulozinha
A mata parecia fechar-se à nossa volta, com folhas que sussurravam ao vento e sombras que dançavam entre as árvores. Eu, Itiberê, segurava os presentes de Yvyrá, sentindo a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a corrente do Lobisomem, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga e o anzol do Negro d'Água pulsarem com a energia da mata. Tayen, com Kalyon ao seu lado, mantinha o menino próximo, enquanto ele segurava a pedra reluzente que brilhava com a luz dos guardiões.
Kenai, com o bastão entalhado, caminhava à frente, e Soyala, com a memória das histórias de Ayra, observava cada detalhe, buscando sinais de novos guardiões. O caminho levou-nos a uma clareira onde as árvoresamoedas brilhavam com uma luz suave, como se a mata ali guardasse um segredo. O ar estava leve, mas havia um perfume doce, como de flores selvagens, que parecia atrair-nos. Kalyon, com os olhos brilhando, apontou para uma árvore alta, cujos galhos pareciam formar uma teia de cabelos longos e negros. Mãe, disse ele, parece cabelo.
Tayen, olhando para a árvore, franziu o cenho. Itiberê, murmurou ela, isto me lembra as histórias da Comadre Fulozinha, a guardiã das florestas, que protege as crianças e os cabelos da mata. Eu aproximei-me, sentindo a pérola do Cumacanga aquecer em minha mão. Antes que eu pudesse falar, uma risada aguda e leve ecoou, como o som de uma criança brincando. Quem sois vós, que entrais em meu domínio? perguntou uma voz, doce, mas com um tom de autoridade.
De repente, ela apareceu, pequena, com a pele escura como a terra e cabelos longos e negros que pareciam vivos, movendo-se como cipós. Era a Comadre Fulozinha, guardiã das florestas, conhecida por sua ligação com as crianças e por sua proteção feroz da mata. Eu ergui a escama da Cobra Grande, que brilhou em resposta, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. A Comadre Fulozinha inclinou a cabeça, seus olhos brilhando como estrelas.
Vós tendes a luz dos guardiões, disse ela. Mas minha clareira é um lugar de pureza. Só passa quem tem o coração de uma criança. Kalyon, sem hesitar, deu um passo à frente, segurando a pedra reluzente. Eu sou Kalyon, disse ele, com a voz clara. A mata me escolheu, e eu quero ajudar. A Comadre Fulozinha sorriu, e seus cabelos pareceram dançar. Uma criança verdadeira, murmurou ela. Aproxima-te, pequeno. Kalyon obedeceu, e ela tocou sua testa com um dedo. A pedra brilhou intensamente, e a clareira encheu-se de borboletas coloridas, voando ao redor do menino.
Tayen, com o coração apertado, aproximou-se. A vós, Comadre Fulozinha, peço que protejais meu filho, disse ela. Ele é nosso futuro. A guardiã assentiu, com um olhar gentil. Não temas, mãe, disse ela. Este menino carrega a luz de Yvyrá. Mas a mata exige um presente de pureza. Oferecei algo que represente vosso amor pela floresta. Kenai, segurando o bastão, deu um passo à frente. A vós, ofereço uma semente do Coração da Mata, disse ele, retirando uma pequena semente que guardava consigo. Plantei-a em Santa Luzia, mas trago esta para vossa clareira.
A Comadre Fulozinha tomou a semente, e, ao tocá-la, uma nova árvore brotou na clareira, pequena, mas cheia de vida. Um presente digno, disse ela. Tomai isto, como sinal de minha bênção. Ela entregou-me uma flor pequena, com pétalas que brilhavam como o orvalho. Esta flor carrega meu espírito, disse ela. Quando precisardes de proteção, ela vos abrigará. Ide, guardiões de Yvyrá, e continuai vossa jornada. Eu agradeci, e Soyala, observando a clareira, disse: Ayra falava da Comadre Fulozinha como a mãe das florestas. Sua bênção é um presente raro.
Enquanto deixávamos a clareira, com a flor brilhando em minha mão, a mata parecia abrir-se, como se nos guiasse de volta a Santa Luzia. Kalyon, correndo à frente, ria, e as borboletas o seguiam, como se a Comadre Fulozinha ainda velasse por ele. Estávamos mais próximos de casa, mas a missão de proteger Yvyrá continuava, e nós, com o coração leve, éramos seus guardiões.
Capítulo 66: A Luz da Mãe do Ouro
O sol nascente tingia a mata de dourado, e os sons da floresta pareciam saudar-nos com uma melodia suave. Eu, Itiberê, guardava os presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a corrente do Lobisomem, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água e a flor da Comadre Fulozinha, sentindo sua energia pulsar em harmonia.
Tayen, com Kalyon ao seu lado, sorria ao ver o menino brincar com a pedra reluzente, que brilhava com a luz dos guardiões. Kenai, com o bastão entalhado, caminhava atento, e Soyala, com a memória das histórias de Ayra, narrava lendas para nos guiar. A trilha levou-nos a uma caverna escondida, cuja entrada reluzia com veios dourados que pareciam brilhar como fogo.
O ar ali era quente, e um som grave, como o bater de um tambor, ecoava de dentro. Kalyon, apontando para a caverna, disse com entusiasmo: Pai, tem luz lá dentro, como um sol pequeno. Eu olhei para Tayen, que franziu o cenho. Itiberê, murmurou ela, isto me lembra as lendas da Mãe do Ouro, a guardiã das riquezas da terra, que protege a mata de quem busca sua fortuna sem respeito.
Eu aproximei-me da entrada, sentindo a flor da Comadre Fulozinha aquecer em minha mão. Antes que eu pudesse falar, uma luz intensa surgiu, e dela emergiu uma figura etérea, uma mulher feita de fogo dourado, com olhos que pareciam pedras preciosas. Era a Mãe do Ouro, guardiã das minas e da riqueza escondida na terra, conhecida por sua beleza e por sua ira contra os gananciosos.
Quem sois vós, que entrais em meu domínio? perguntou ela, com voz que parecia o crepitar de chamas. Eu ergui a escama da Cobra Grande, que brilhou em resposta, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. A Mãe do Ouro inclinou a cabeça, seus olhos fixando-se em Kalyon. Uma criança com a luz da Nascente, disse ela.
Vós não buscais ouro, mas equilíbrio. Ainda assim, minha caverna é um lugar de prova. Só passa quem resiste à tentação. Kalyon, segurando a pedra reluzente, deu um passo à frente. Eu não quero ouro, disse ele. Quero que a mata fique feliz. A Mãe do Ouro sorriu, e a caverna iluminou-se, revelando pilhas de ouro e pedras brilhantes. A tentação é forte, pequeno, disse ela. Mas teu coração é puro. Volveu-se para mim. Itiberê, vós sois os guardiões de Yvyrá.
Oferecei algo que mostre vosso desapego pela riqueza. Tayen, com um olhar firme, retirou um bracelete de madeira que usava, entalhado por sua avó. A vós, Mãe do Ouro, ofereço este bracelete, disse ela. Não tem valor em ouro, mas é precioso para mim. Representa minha ligação com a mata, não com riquezas. A Mãe do Ouro tomou o bracelete, e ele transformou-se em pó dourado, que ela soprou ao vento. Um presente de coração, disse ela.
Tomai isto, como sinal de minha bênção. Ela entregou-me uma pequena pepita de ouro, que brilhava com uma luz suave. Esta pepita carrega minha proteção, disse ela. Quando a mata estiver em perigo, ela vos mostrará o caminho. Ide, guardiões de Yvyrá, e continuai vossa jornada. Eu agradeci, e Soyala, observando a caverna, disse: Ayra falava da Mãe do Ouro como a guardiã da terra profunda. Sua bênção nos fortalece.
Enquanto deixávamos a caverna, com a pepita brilhando em minha mão, a mata parecia abrir-se, como se nos guiasse de volta a Santa Luzia. Kalyon, correndo à frente, ria, e a luz da pedra parecia dançar com o sol nascente. Estávamos a poucos dias de casa, mas a missão de proteger Yvyrá era eterna, e nós, com o coração firme, éramos seus guardiões.
Capítulo 67: O Sussurro do Bicho-Papão
A noite caíra sobre a mata, e as estrelas brilhavam como pequenos olhos entre as copas das árvores. Eu, Itiberê, guardava os presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a corrente do Lobisomem, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água, a flor da Comadre Fulozinha e a pepita da Mãe do Ouro, sentindo sua energia pulsar como um coração vivo.
Tayen, com Kalyon adormecido em seus braços, caminhava com cuidado, enquanto Kenai, com o bastão entalhado, vigiava a escuridão. Soyala, com a memória das histórias de Ayra, cantava uma melodia suave para afastar os temores da noite. Paramos para descansar em uma clareira cercada por rochas altas, onde o luar criava sombras que pareciam dançar. Kalyon, despertando, segurou a pedra reluzente e olhou ao redor, com os olhos arregalados.
Pai, disse ele, com a voz trêmula, tem algo me olhando. Eu segui seu olhar, mas nada vi além das sombras. Tayen, abraçando-o, murmurou: Itiberê, as crianças sentem o que nós não vemos. Talvez seja o Bicho-Papão, o espírito que assusta os pequenos para protegê-los dos perigos da noite. Eu senti um arrepio, pois as lendas de Santa Luzia falavam do Bicho-Papão como um ser invisível, que sussurrava temores para manter as crianças seguras.
Antes que eu pudesse responder, um vento frio soprou, e uma voz grave, quase um sussurro, ecoou: Quem sois vós, que trazeis uma criança à minha clareira? Eu ergui a pepita da Mãe do Ouro, que brilhou na escuridão, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos.
As sombras moveram-se, e uma figura indistinta, alta e magra, com olhos que brilhavam como brasas, surgiu entre as rochas. Era o Bicho-Papão, guardião das noites, temido por muitos, mas conhecido por sua proteção oculta. Vós tendes a luz dos guardiões, disse ele, com voz que parecia arranhar o ar. Mas esta clareira é minha. Só passa quem enfrenta o medo que carrego.
Kalyon, ainda nos braços de Tayen, segurou a pedra reluzente com mais força. Eu não tenho medo, disse ele, com a voz firme para sua idade. A mata me escolheu, e eu sei que tu não me farás mal. O Bicho-Papão inclinou a cabeça, e seus olhos suavizaram-se. Uma criança corajosa, murmurou ele. Mas o medo é um mestre, pequeno. Deves enfrentá-lo para provar teu coração.
Tayen, com o coração apertado, falou: A vós, Bicho-Papão, peço que poupes meu filho. Ele é jovem, mas carrega a luz de Yvyrá. O espírito das sombras assentiu. Não desejo mal às crianças, disse ele. Meu papel é protegê-las, ensinando-as a temer o que devem evitar. Volveu-se para mim. Itiberê, oferece algo que represente teu maior medo, e eu vos deixarei passar.
Eu hesitei, pois o medo é uma sombra que poucos admitem. Mas, pensando em Kalyon e na missão de Yvyrá, retirei a corrente do Lobisomem, que simbolizava a solidão que eu temia para meu filho. A vós, ofereço esta corrente, disse eu. Meu maior medo é que Kalyon cresça sozinho, sem a mata ou sua família. O Bicho-Papão tomou a corrente, e ela brilhou antes de dissolver-se em fumaça. Um medo honesto, disse ele. Tomai isto, como sinal de minha bênção.
Ele entregou-me uma pequena pedra negra, fria ao toque. Esta pedra carrega minha sombra, disse ele. Quando o medo vos cercar, ela vos dará coragem. Ide, guardiões de Yvyrá, e protegei a mata. Eu agradeci, e Soyala, observando a clareira, disse: Ayra dizia que o Bicho-Papão é um guardião incompreendido. Sua bênção nos ensina a ser fortes.
Enquanto deixávamos a clareira, com a pedra negra em minha mão, a mata parecia mais silenciosa, como se o Bicho-Papão velasse por nossa segurança. Kalyon, agora mais calmo, adormeceu novamente, e Tayen sorriu para mim. Estávamos mais próximos de Santa Luzia, e a missão de proteger Yvyrá, com seus desafios e lições, à nos unir.
Capítulo 68: As Travessuras do Romãozinho
O amanhecer trouxe uma brisa fresca à mata, e o som dos pássaros parecia celebrar nossa jornada. Eu, Itiberê, guardava os presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água, a flor da Comadre Fulozinha, a pepita da Mãe do Ouro e a pedra negra do Bicho-Papão, sentindo sua energia pulsar como um guia.
Tayen, com Kalyon correndo à sua frente, sorria ao ver o menino brincar com a pedra reluzente. Kenai, com o bastão entalhado, caminhava vigilante, e Soyala, com a memória das histórias de Ayra, narrava lendas para manter nossos espíritos elevados. A trilha levou-nos a um bosque onde as árvores pareciam rir, com galhos que se moviam sem vento e frutos que caíam sozinhos. Kalyon, parando subitamente, apontou para um arbusto.
Pai, disse his eyes sparkling, tem alguém escondido ali. Eu aproximei-me, mas antes que pudesse ver, uma risada travessa ecoou, e frutos começaram a cair sobre nós, como se a mata brincasse conosco. Tayen, rindo apesar de tudo, murmurou: Itiberê, isto me lembra as lendas do Romãozinho, o espírito travesso que protege a floresta com suas brincadeiras. Eu senti a pedra negra do Bicho-Papão aquecer em minha mão, e ergui a voz!
A ti, Romãozinho, guardião da mata, mostras-te! Somos Itiberê, Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala, guardiões de Yvyrá, e pedimos tua bênção. A risada tornou-se mais alta, e uma figura pequena, não maior que Kalyon, surgiu do arbusto. Era o Romãozinho, com pele morena, olhos brilhantes e um sorriso malicioso, segurando uma funda que usava para atirar frutos. Quem sois vós, que sabeis meu nome? perguntou ele, com voz cheia de travessura.
Vós tendes os presentes dos guardiões, mas minha mata é um lugar de alegria. Só passa quem sabe brincar! Kalyon, sem hesitar, correu até ele, segurando a pedra reluzente. Eu sei brincar, disse o menino, rindo. Queres jogar pedras no rio comigo? O Romãozinho bateu palmas, encantado. Uma criança que não teme minhas travessuras, disse ele. Gosto de ti, pequeno! Tayen, aproximando-se, falou com gentileza: A vós, Romãozinho, pedimos passagem.
Meu filho, Kalyon, carrega a luz de Yvyrá, e nossa missão é proteger a mata. O espírito travesso inclinou a cabeça, examinando a pedra de Kalyon. A Nascente vive neste menino, disse ele. Mas minha bênção exige um jogo. Resolvi meu desafio, e vos deixarei passar. Ele apontou para três frutos no chão, cada um de cor diferente. Um é doce, outro amargo, e o terceiro é venenoso, disse ele. Escolhei o doce, e a trilha se abrirá.
Kenai, com o bastão, tocou os frutos, sentindo a energia da mata. Soyala, recordando as histórias de Ayra, murmurou: O Romãozinho testa a intuição. O doce é o que a mata oferece com amor. Eu confiei em meu instinto e escolhi o fruto vermelho, que parecia mais vivo. O Romãozinho sorriu, e o fruto brilhou ao ser tocado. Boa escolha, Itiberê, disse ele. O vermelho é doce, como a amizade da mata. Tomai isto, como sinal de minha bênção.
Ele entregou-me uma pequena funda, leve e entalhada com desenhos de folhas. Esta funda carrega minha alegria, disse ele. Quando precisardes de leveza, ela vos trará risos. Ide, guardiões de Yvyrá, e continuai vossa jornada. Eu agradeci, e Soyala, sorrindo, disse: Ayra falava do Romãozinho como o espírito da alegria da mata.
Sua bênção nos renova. Enquanto deixávamos o bosque, com a funda em minha mão, Kalyon corria à frente, jogando pedrinhas com a pedra reluzente, e a mata parecia rir com ele. Estávamos quase em Santa Luzia, e a missão de proteger Yvyrá, com suas lições de coragem e alegria, continuava a nos unir.
Capítulo 69: A Bênção da Porca dos Sete Leitões
A luz do meio-dia filtrava-se pelas copas, aquecendo a trilha que nos levava cada vez mais perto de Santa Luzia. Eu, Itiberê, guardava os presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água, a flor da Comadre Fulozinha, a pepita da Mãe do Ouro, a pedra negra do Bicho-Papão e a funda do Romãozinho, sentindo sua energia pulsar como um chamado.
Tayen, com Kalyon correndo ao seu lado, ria ao ver o menino imitar os pássaros com assobios. Kenai, com o bastão entalhado, mantinha-se vigilante, e Soyala, com a memória das histórias de Ayra, narrava lendas para nos inspirar. A trilha abriu-se em um campo vasto, onde a terra parecia fértil e o capim brilhava com orvalho. De repente, um grunhido baixo ecoou, e sete pequenos leitões, com pelos dourados, surgiram correndo entre as ervas, brincando entre si.
Kalyon, encantado, correu até eles, mas parou ao ver uma figura maior emergir. Era uma porca imensa, com olhos sábios e um focinho que parecia farejar a própria mata. Era a Porca dos Sete Leitões, guardiã da fertilidade da terra, conhecida por proteger a mata e trazer abundância. Quem sois vós, que entrais em meu campo? perguntou ela, com voz grave, mas maternal.
Eu ergui a funda do Romãozinho, que brilhou suavemente, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. A Porca dos Sete Leitões cheirou o ar, e seus leitões aproximaram-se, farejando Kalyon, que riu ao sentir seus focinhos. Uma criança com a luz da Nascente, disse a Porca, com um tom de aprovação.
Vós sois guardiões verdadeiros, mas meu campo é um lugar de vida. Só passa quem prova seu respeito pela terra que dá frutos. Kalyon, segurando a pedra reluzente, falou com sua voz clara: Eu gosto da terra. Plantei uma semente na Nascente Viva, e ela cresceu. A Porca grunhiu, satisfeita. Um coração puro, disse ela. Mas a prova é para todos vós. Tayen, aproximando-se, falou com firmeza: A vós, Porca dos Sete Leitões, mostramos nosso respeito.
A mata nos ensinou a cuidar da terra, e Kalyon é nosso futuro. A guardiã assentiu, mas apontou para o campo com o focinho. Meus leitões escondem um presente da terra, disse ela. Encontrai-o, e provareis vosso amor pela natureza. Os leitões espalharam-se, grunhindo e brincando, e nós começamos a procurar. Soyala, recordando as histórias de Ayra, murmurou: A Porca protege a fertilidade. Seu presente deve ser algo que traga vida.
Kenai, com o bastão, tocou o chão, sentindo a energia da terra, e apontou para um ponto onde o capim era mais verde. Ali, disse ele. Eu cavei com cuidado e encontrei uma semente grande, brilhante como um ovo, pulsando com vida. A Porca dos Sete Leitões grunhiu de prazer. Boa escolha, disse ela. Esta semente é minha bênção. Ela aproximou-se e tocou a semente com o focinho. Plantai-a onde a mata precisar de vida, disse ela. Ela trará abundância.
E tomai isto, como sinal de minha proteção. Ela entregou-me um pequeno chifre, entalhado com desenhos de folhas e flores. Este chifre carrega minha força, disse ela. Quando a terra estiver fraca, ele a fortalecerá. Ide, guardiões de Yvyrá, e continuai vossa jornada. Eu agradeci, e Soyala, observando o campo, disse: Ayra falava da Porca como a mãe da terra. Sua bênção nos liga ainda mais à mata.
Enquanto deixávamos o campo, com o chifre e a semente em minhas mãos, Kalyon corria ao lado dos leitões, rindo até que eles desapareceram entre o capim. Santa Luzia estava próxima, e a missão de proteger Yvyrá, com suas lições de amor e cuidado, continuava a nos guiar.
Capítulo 70: O Desafio do Labatut
O entardecer pintava a mata de tons alaranjados, e o som do rio ao longe parecia chamar-nos para casa. Eu, Itiberê, guardava os presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água, a flor da Comadre Fulozinha, a pepita da Mãe do Ouro, a pedra negra do Bicho-Papão, a funda do Romãozinho, a semente e o chifre da Porca dos Sete Leitões, sentindo sua energia pulsar como um farol.
Tayen, com Kalyon ao seu lado, segurava a mão do menino, que brincava com a pedra reluzente. Kenai, com o bastão entalhado, caminhava à frente, e Soyala, com a memória das histórias de Ayra, narrava lendas para nos fortalecer. A trilha levou-nos a uma ravina estreita, onde as árvores pareciam curvadas pelo peso de algo invisível. O chão tremia levemente, e um rugido grave ecoou, fazendo os pássaros fugirem.
Kalyon, apertando a pedra, disse com os olhos arregalados: Pai, algo grande vem vindo. Antes que eu pudesse responder, uma figura colossal surgiu entre as árvores, um ser gigantesco, com pele que parecia feita de pedra e olhos que brilhavam como fogo. Era o Labatut, guardião das florestas, conhecido por sua força bruta e por proteger a mata com sua presença intimidadora.
Quem sois vós, que atravessais meu domínio? perguntou ele, com voz que parecia o trovão. Eu ergui o chifre da Porca dos Sete Leitões, que brilhou suavemente, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. O Labatut bateu no chão com o pé, fazendo a terra estremecer, mas seus olhos fixaram-se em Kalyon.
Uma criança com a luz da Nascente, disse ele, com um tom de curiosidade. Vós sois guardiões, mas minha ravina é um lugar de força. Só passa quem prova sua resistência. Kenai, erguendo o bastão, falou com firmeza: A vós, Labatut, mostramos nossa força. A mata nos ensinou a lutar por ela. O gigante assentiu, mas apontou para uma rocha enorme que bloqueava a trilha. Movei esta pedra, disse ele. Se falhardes, a ravina vos deterá.
Tayen, olhando para Kalyon, murmurou: Itiberê, a força do Labatut é além da nossa. Talvez precisemos da ajuda dos presentes. Eu assenti, sentindo a pedra negra do Bicho-Papão aquecer, dando-me coragem. Kalyon, segurando a pedra reluzente, aproximou-se da rocha e disse: Eu ajudo, pai. Ele tocou a rocha com a pedra, e ela brilhou, iluminando os veios da pedra. Soyala, recordando as histórias de Ayra, disse: A força do Labatut é da terra, mas a luz de Yvyrá é maior.
Eu, Kenai e Tayen unimos nossas forças, empurrando a rocha enquanto Kalyon a iluminava. A semente da Porca dos Sete Leitões, em minhas mãos, pulsou, e a terra pareceu ajudar-nos, suavizando o caminho. A rocha moveu-se, e o Labatut riu, com um som que ecoou pela ravina. Boa prova, disse ele. Vossa força vem do coração, não dos músculos. Tomai isto, como sinal de minha bênção.
Ele entregou-me um fragmento de pedra, quente e áspera, que parecia carregar o peso da mata. Este fragmento carrega minha resistência, disse ele. Quando a mata estiver em perigo, ele vos dará força. Ide, guardiões de Yvyrá, e continuai vossa jornada. Eu agradeci, e Soyala, observando a ravina, disse: Ayra falava do Labatut como o guardião da terra firme. Sua bênção nos torna mais fortes.
Enquanto deixávamos a ravina, com o fragmento em minha mão, a mata parecia abrir-se, e o som do rio tornou-se mais claro. Santa Luzia estava a poucos passos, e a missão de proteger Yvyrá, com suas provas de força e união, continuava a nos guiar para casa.
Capítulo 71: O Mistério da Mula de Padre
A noite começava a cair, e o som familiar do rio de Santa Luzia enchia-me o coração de esperança. Eu, Itiberê, guardava os presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água, a flor da Comadre Fulozinha, a pepita da Mãe do Ouro, a pedra negra do Bicho-Papão, a funda do Romãozinho, a semente e o chifre da Porca dos Sete Leitões, e o fragmento do Labatut, sentindo sua energia pulsar como um chamado de casa.
Tayen, com Kalyon adormecido em seus braços, caminhava com um sorriso leve. Kenai, com o bastão entalhado, vigiava o caminho, e Soyala, com a memória das histórias de Ayra, narrava lendas para nos manter alertas. A trilha, agora mais familiar, levou-nos a uma ponte antiga sobre o rio, cujas tábuas rangiam sob nossos pés. De repente, um relincho agudo ecoou, e uma figura estranha surgiu na outra margem.
Era uma mula sem cabeça, mas com um brilho avermelhado onde deveria estar seu pescoço, e suas patas batiam no chão com força. Era a Mula de Padre, uma criatura lendária que, segundo as histórias, protegia a mata contra os que a profanavam com atos impuros. Quem sois vós, que atravessais minha ponte? perguntou ela, com voz que parecia o crepitar de fogo. Eu ergui o fragmento do Labatut, que brilhou com força, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia.
Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. A Mula de Padre relinchou, e o brilho em seu pescoço intensificou-se, mas ela não avançou. Vós tendes a luz dos guardiões, disse ela, com um tom de desconfiança. Mas esta ponte é um lugar de julgamento. Só passa quem carrega pureza de intento. Kalyon, despertando nos braços de Tayen, segurou a pedra reluzente e falou!
Eu sou Kalyon, e a mata me escolheu. Não temos maldade. A Mula inclinou o corpo, como se o ouvisse com atenção, e o brilho suavizou-se. Uma criança com a luz da Nascente, disse ela. Teu coração é puro, pequeno. Tayen, com firmeza, falou: A vós, Mula de Padre, mostramos nossa verdade. Nossa jornada é para proteger Yvyrá e a mata. A criatura relinchou novamente, mas agora com um som mais calmo.
Vossa missão é justa, disse ela. Mas a ponte exige uma prova de vossa honestidade. Revelai um segredo que guardais, algo que a mata deva saber. Eu hesitei, pois os segredos do coração são pesados. Mas, olhando para Kalyon, soube o que dizer. Meu segredo é meu medo, confessei. Temi que nossa jornada pusesse Kalyon em perigo, mas a mata nos guiou, e eu aprendi a confiar.
A Mula de Padre ouviu em silêncio, e o brilho em seu pescoço tornou-se uma luz suave. Uma verdade honesta, disse ela. Tomai isto, como sinal de minha bênção. Ela bateu uma pata no chão, e uma pequena ferradura de ferro, quente ao toque, surgiu na ponte. Esta ferradura carrega minha proteção, disse ela. Quando a mata for ameaçada por intenções impuras, ela vos defenderá. Ide, guardiões de Yvyrá, e chegai a vosso lar.
Eu agradeci, e Soyala, observando a ponte, disse: Ayra falava da Mula de Padre como a guardiã da verdade. Sua bênção nos purifica. Enquanto atravessávamos a ponte, com a ferradura em minha mão, a mata parecia abrir-se, e as luzes de Santa Luzia surgiram ao longe.
Kalyon, apontando para a vila, disse com alegria: Pai, estamos em casa! Tayen sorriu, e Kenai assentiu, com o bastão brilhando suavemente. A missão de proteger Yvyrá nos trouxera de volta, e agora, com os presentes dos guardiões, éramos mais fortes para enfrentar o que viesse.
Capítulo 72: O Retorno com João Galafuz
A luz das tochas de Santa Luzia brilhava ao longe, e o som das vozes dos moradores, cheias de expectativa, alcançava-nos como um abraço. Eu, Itiberê, guardava os presentes de Yvyrá, a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água, a flor da Comadre Fulozinha, a pepita da Mãe do Ouro, a pedra negra do Bicho-Papão, a funda do Romãozinho, a semente e o chifre da Porca dos Sete Leitões, o fragmento do Labatut e a ferradura da Mula de Padre.
Sentindo sua energia pulsar como um agradecimento da mata. Tayen, com Kalyon correndo à sua frente, sorria com lágrimas nos olhos. Kenai, com o bastão entalhado, caminhava com passos firmes, e Soyala, com a memória das histórias de Ayra, cantava uma melodia de retorno. Ao nos aproximarmos da entrada da vila, uma figura solitária surgiu na trilha, um homem magro e alto, com roupas simples e um chapéu de palha, carregando um cajado entalhado com figuras de pássaros.
Era João Galafuz, o guardião das estradas, conhecido por proteger os viajantes e compartilhar a sabedoria dos caminhos. Quem sois vós, que retornais com a luz da mata? perguntou ele, com voz calma, mas cheia de autoridade. Eu ergui a ferradura da Mula de Padre, que brilhou suavemente, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Viemos de uma longa jornada em nome de Yvyrá, para proteger a mata e seus segredos. João Galafuz sorriu, e seus olhos brilharam com a luz do crepúsculo.
Conheço vosso caminho, disse ele. A mata fala de vós, guardiões. Mas a entrada de uma vila é um novo começo. Deveis compartilhar o que aprendestes. Kalyon, segurando a pedra reluzente, correu até ele. Eu aprendi que a mata gosta de nós, disse o menino, com a voz cheia de alegria. João Galafuz riu, com um som que parecia o vento entre as folhas. Uma verdade pura, pequeno, disse ele.
A mata sempre ama quem a protege. Volveu-se para mim. Itiberê, vossa jornada foi longa. Contai-me uma lição que a mata vos ensinou. Eu pensei nas muitas provas que enfrentamos e disse: A mata me ensinou que a união é nossa força. Cada guardião, do Saci ao Labatut, testou-nos, mas foi nosso amor por Yvyrá e por Kalyon que nos guiou. João Galafuz assentiu, satisfeito. Uma lição digna, disse ele. A mata vive na união de seus guardiões.
Tomai isto, como sinal de minha bênção. Ele entregou-me uma pequena flauta de madeira, entalhada com desenhos de trilhas e estrelas. Esta flauta carrega o som dos caminhos, disse ele. Quando precisardes encontrar uma trilha, ela vos guiará. Ide, guardiões de Yvyrá, e que vossa vila celebre vosso retorno. Eu agradeci, e Soyala, sorrindo, disse: Ayra falava de João Galafuz como o guia dos que voltam. Sua bênção marca o fim de nossa jornada.
Enquanto entrávamos em Santa Luzia, com a flauta em minha mão, os moradores correram ao nosso encontro. Dona Raíra, com os olhos cheios de lágrimas, abraçou Tayen e Kalyon. Vós retornastes, disse ela, com a voz embargada. A vila sentiu vossa falta. Kenai ergueu o bastão, que brilhou com a luz da mata, e os moradores murmuraram, maravilhados. Kalyon, segurando a pedra reluzente, correu até as crianças, mostrando-a com orgulho.
Naquela noite, reunimo-nos na praça, sob a luz das tochas, e eu contei nossa jornada, desde a Nascente Viva até o encontro com João Galafuz. Os presentes de Yvyrá, colocados ao redor do Coração da Mata, brilhavam como um círculo de proteção. Santa Luzia estava segura, e a missão de proteger Yvyrá, com suas lições de coragem, união e amor, viveria em nós e nas gerações futuras.
Capítulo 73: A Visita do Saci Pererê
A luz da manhã banhava Santa Luzia, e o Coração da Mata, na praça, parecia pulsar com mais vida, cercado pelos presentes dos guardiões de Yvyrá. Eu, Itiberê, observava a vila com o coração pleno, segurando a flauta de João Galafuz, que brilhava suavemente ao sol. Tayen, ao meu lado, ajudava as mulheres a preparar frutos para a celebração, enquanto Kalyon, com a pedra reluzente, brincava com as outras crianças, rindo sob a sombra das árvores. Kenai, com o bastão entalhado, ensinava os jovens a entalhar madeira, e Soyala, com a memória das histórias de Ayra, contava lendas às crianças reunidas.
De repente, um redemoinho de folhas secas formou-se na praça, e uma risada familiar ecoou, fazendo as crianças gritar de alegria. Era o Saci Pererê, o guardião travesso que nos encontrara no início de nossa jornada, agora de volta, com seu gorro vermelho e a perna única, girando em seu redemoinho. Quem sois vós, que celebram sem me chamar? perguntou ele, com voz cheia de travessura, pousando ao lado de Kalyon.
Eu sorri, aproximando-me com a flauta em mãos, e disse: A ti, Saci Pererê, saudamos com alegria. Somos Itiberê, Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala, guardiões de Yvyrá, e esta é nossa vila, Santa Luzia. Retornamos de nossa jornada, e tua presença é uma honra. O Saci riu, girando ao redor de Kalyon, que ergueu a pedra reluzente. Eu conheço o Saci, disse o menino, com os olhos brilhando. Ele me deu uma pena!
O Saci Pererê assentiu, tirando o gorro para fazer uma reverência exagerada. Uma criança que não esquece, disse ele. Vós completastes a missão de Yvyrá, e a mata está feliz. Vim ver o pequeno Kalyon, pois ele é o futuro da floresta. Volveu-se para mim. Itiberê, os presentes de Yvyrá estão com vós, mas a mata nunca dorme. Ensinai às crianças o que aprendestes, para que a proteção continue.
Tayen, aproximando-se com uma cesta de frutos, falou: A vós, Saci, oferecemos nossa gratidão. Ensina-nos como manter a mata viva para nossos filhos. O Saci girou em seu redemoinho, fazendo as folhas dançarem, e disse: A mata vive no riso das crianças e no respeito dos mais velhos. Brincai, mas nunca esqueçais de ouvir seus sussurros. Ele apontou para Kalyon. Este menino ouve a mata. Deixai-o guiar-vos.
Kenai, erguendo o bastão, disse: A vós, prometemos ensinar. A vila protegerá Yvyrá com o coração. O Saci riu novamente, e um vento leve soprou, trazendo o som de pássaros. Como prova de minha visita, disse ele, deixo-vos um presente. Ele soprou em direção ao Coração da Mata, e uma pequena brisa formou-se, carregando sementes que se espalharam pela praça. Estas sementes trarão flores que brilham à noite, disse ele. São meu sinal de amizade.
Eu agradeci, e Soyala, sorrindo, disse: Ayra dizia que o Saci é o espírito da mata viva. Sua visita nos lembra que a jornada nunca termina. Enquanto o Saci desaparecia em seu redemoinho, Kalyon correu até mim, segurando a pedra reluzente. Pai, disse ele, a mata está cantando. Eu ouvi o som do vento, e soube que ele estava certo.
Naquela tarde, a vila celebrou com danças e cânticos, e as sementes do Saci começaram a brotar, enchendo a praça de flores luminescentes. Santa Luzia estava mais viva do que nunca, e a missão de proteger Yvyrá, agora partilhada por todos, ecoava nas risadas das crianças e na união da vila.
Capítulo 74: O Rugido do Capelobo
Os dias em Santa Luzia fluíam com uma paz renovada, e as flores luminescentes do Saci Pererê brilhavam na praça à noite, enchendo a vila de magia. Eu, Itiberê, guardava os presentes de Yvyrá em um pequeno santuário ao lado do Coração da Mata, onde a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a escama da Cobra Grande, a pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água, a flor da Comadre Fulozinha, a pepita da Mãe do Ouro, a pedra negra do Bicho-Papão, a funda do Romãozinho, a semente e o chifre da Porca dos Sete Leitões, o fragmento do Labatut, a ferradura da Mula de Padre e a flauta de João Galafuz repousavam, pulsando com a energia da mata.
Tayen cuidava das crianças com Dona Raíra, enquanto Kalyon, com a pedra reluzente, tornava-se o favorito entre os pequenos. Kenai, com o bastão entalhado, vigiava a vila, e Soyala ensinava as histórias de Ayra às novas gerações. Uma noite, porém, um rugido aterrorizante ecoou da mata, fazendo os cães latirem e as crianças correrem para suas mães. Kalyon, segurando a pedra, correu até mim. Pai, disse ele, com os olhos arregalados, a mata está com raiva. Eu senti a flauta de João Galafuz aquecer em minhas mãos, e soube que um novo desafio nos aguardava.
Tayen, aproximando-se, murmurou: Itiberê, esse som me lembra as lendas do Capelobo, o guardião feroz que protege a mata com sua fúria. Eu reuni Kenai e Soyala, e juntos seguimos o som até a borda da vila, onde a mata parecia mais densa. Lá, entre as árvores, avistamos uma criatura assustadora, com corpo de homem, mas cabeça de tamanduá e garras afiadas, rugindo com uma força que fazia as folhas caírem. Era o Capelobo, guardião das florestas, conhecido por sua ferocidade contra quem ameaça a natureza.
Quem sois vós, que permitis que a mata sofra? perguntou ele, com voz que parecia o estalar de galhos secos. Eu ergui a flauta de João Galafuz, que brilhou na escuridão, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Protegemos Yvyrá e a mata com nossa vida. O que a aflige? O Capelobo rugiu novamente, mas seus olhos fixaram-se na pedra de Kalyon. Uma criança com a luz da Nascente, disse ele. Mas a mata chora. Há quem corte suas árvores sem respeito, perto do rio.
Kenai, com o bastão, falou: A vós, Capelobo, prometemos investigar. A vila honra a mata, mas talvez alguém tenha se desviado. O guardião assentiu, mas suas garras arranharam o chão. Encontrai o culpado e reparai o dano, disse ele. Se falhardes, minha fúria cairá sobre vossa vila. Ele desapareceu na mata, deixando um rastro de pegadas profundas. Eu voltei-me para Tayen e disse: Devemos ir ao rio e descobrir quem desrespeita a mata.
Kalyon, segurando a pedra, disse: Eu ajudo, pai. A pedra pode mostrar. Seguimos até o rio, e lá encontramos marcas de machados e árvores caídas, um trabalho descuidado que ferira a mata. Soyala, examinando as marcas, murmurou: Ayra dizia que o Capelobo sente cada ferida da floresta. Precisamos reparar isto. Kalyon tocou uma árvore cortada com a pedra reluzente, e a luz dela espalhou-se, fazendo brotos verdes surgirem no tronco ferido.
A semente da Porca dos Sete Leitões, que eu carregava, brilhou, e eu a plantei no solo, onde uma nova árvore começou a crescer. Tayen e Kenai recolheram as árvores caídas, prometendo usá-las com respeito para construir na vila. O Capelobo, reaparecendo, observou em silêncio. Vossa reparação é sincera, disse ele. Tomai isto, como sinal de minha confiança. Ele entregou-me uma garra pequena, afiada e quente. Esta garra carrega minha força, disse ele.
Quando a mata for ameaçada, ela vos defenderá. Ide, guardiões de Yvyrá, e ensinai vossa vila a nunca mais ferir a floresta. Eu agradeci, e Soyala disse: O Capelobo é a fúria da mata, mas também sua proteção. Devemos ensinar isso às crianças. Naquela noite, reunimos a vila e contamos a história do Capelobo, ensinando a todos o respeito pela mata.
Kalyon, com a pedra reluzente, liderou as crianças em uma canção, e a mata pareceu responder com um vento suave. Santa Luzia estava mais unida, e a missão de proteger Yvyrá, com suas lições de respeito e cuidado, continuava a crescer em nossos corações.
Capítulo 75: A Sombra do Quibungo
A vila de Santa Luzia despertava com o canto dos pássaros, e o Coração da Mata, cercado pelas flores luminescentes do Saci Pererê, parecia brilhar com uma energia renovada. Eu, Itiberê, cuidava dos presentes de Yvyrá no santuário, sentindo sua energia como um lembrete de nossa missão. Tayen organizava as crianças para uma aula ao ar livre, enquanto Kalyon, com a pedra reluzente, liderava os pequenos em brincadeiras. Kenai, com o bastão entalhado, patrulhava a vila, e Soyala ensinava as histórias de Ayra, agora enriquecidas com nossas aventuras.
Um dia, porém, enquanto as crianças brincavam perto da mata, um grito de medo ecoou, e Kalyon correu até mim, com a pedra reluzente brilhando intensamente. Pai, disse ele, com a voz trêmula, tem um monstro na floresta. Ele comeu meu amigo! Eu senti a garra do Capelobo aquecer em minhas mãos, e soube que um novo guardião nos desafiava. Tayen, ouvindo o grito, reuniu as crianças, e Kenai correu até nós, com o bastão em mãos.
Seguimos até a borda da mata, onde encontramos pegadas grandes e profundas, e um cheiro forte, como de terra queimada. Soyala, examinando as marcas, murmurou: Itiberê, isto me lembra as lendas do Quibungo, o monstro que protege a mata, mas pune os que a desrespeitam, devorando-os com sua boca nas costas. Antes que eu pudesse responder, um rugido gutural ecoou, e uma criatura horrenda surgiu, com corpo peludo, garras afiadas e uma boca enorme nas costas, cheia de dentes. Era o Quibungo, guardião feroz das florestas.
Quem sois vós, que deixais vossa vila profanar a mata? perguntou ele, com voz que parecia o estalar de fogo. Eu ergui a garra do Capelobo, que brilhou com força, e disse: Sou Itiberê, guardião de Santa Luzia. Comigo estão Tayen, Kalyon, Kenai e Soyala. Não profanamos a mata, mas protegemo-la em nome de Yvyrá. O Quibungo rosnou, mas seus olhos fixaram-se na pedra de Kalyon. Uma criança com a luz da Nascente, disse ele. Mas ouvi dizer que vossa vila joga restos no rio, poluindo suas águas.
Eu senti um peso no coração, pois sabia que alguns moradores, por descuido, poderiam ter feito isso. Kalyon, segurando a pedra, disse: Eu não joguei nada. Quero ajudar o rio. O Quibungo inclinou a cabeça, e sua boca nas costas fechou-se por um momento. Teu coração é puro, pequeno, disse ele. Mas vossa vila deve aprender. Ensinai-os, ou minha fome não terá fim.
Tayen, com firmeza, falou: A vós, Quibungo, prometemos corrigir nosso erro. Ensinaremos a vila a cuidar do rio. O guardião assentiu, mas apontou para o rio com uma garra. Limpai as águas e plantai a semente da Porca dos Sete Leitões na margem, disse ele. Se falhardes, voltarei. Ele desapareceu na mata, deixando um silêncio pesado.
Eu reuni a vila na praça e expliquei o que essa mensagem de texto. Dona Raíra, com os olhos cheios de determinação, disse: Itiberê, liderai-nos. Ensinaremos a todos a proteger a mata e o rio. Kalyon, com a pedra reluzente, liderou as crianças até o rio, e juntos limpamos as águas, retirando os restos e plantando a semente da Porca dos Sete Leitões na margem, onde uma nova árvore começou a crescer.
Naquela noite, o Quibungo reapareceu, mas agora com um olhar menos feroz. Vossa vila aprendeu, disse ele. Tomai isto, como sinal de minha proteção. Ele entregou-me uma pequena garra de osso, afiada e quente. Esta garra carrega minha vigilância, disse ele. Quando a mata ou o rio forem ameaçados, ela vos alertará. Ide, guardiões de Yvyrá, e nunca mais esqueçais vossa responsabilidade.
Eu agradeci, e Soyala, sorrindo, disse: Ayra dizia que o Quibungo é a consciência da mata. Sua lição nos une ainda mais. Naquela noite, a vila reuniu-se para celebrar, e Kalyon, com a pedra reluzente, dançava entre as crianças, enquanto a nova árvore brilhava na margem do rio. Santa Luzia estava mais forte, e a missão de proteger Yvyrá, com suas lições de cuidado e união, vivia em todos nós.
Capítulo 76: O Casamento de Kalyon e Zanyra
Os anos passaram como o vento que acaricia a mata, e Santa Luzia floresceu sob a proteção de Yvyrá. Eu, Itiberê, agora com os cabelos grisalhos, observava a vila com o coração pleno, enquanto os presentes dos guardiões, guardados no Coração da Mata, brilhavam como estrelas ao entardecer. Tayen, ao meu lado, ainda carregava a força de outrora, ajudando a organizar a vila para um dia especial. Kalyon, nosso filho, crescera e tornara-se um homem sábio e corajoso, guardião da mata como eu sempre soubera que seria.
Kenai, com o bastão entalhado, tornara-se um ancião respeitado, e Soyala, com as histórias de Ayra, era a memória viva de nossa jornada. Neste dia, a vila preparava-se para uma celebração rara: o casamento de Kalyon com Zanyra, herdeira do reino do Sul, filha de Anitaí e Aiporé, dois guardiões lendários cuja história remontava às lendas da mata. Anitaí, conhecida como a Mãe das Águas, era uma figura que protegia os rios do Sul, enquanto Aiporé, chamado de Senhor das Chamas, guardava as florestas com o fogo da vida.
Zanyra, sua filha, herdara a beleza das águas e a força das chamas, e sua união com Kalyon prometia selar a aliança entre Santa Luzia e o reino do Sul, unindo a mata e os rios em harmonia. A praça de Santa Luzia estava adornada com flores luminescentes, herança do Saci Pererê, e o Coração da Mata parecia pulsar com alegria. Kalyon, vestido com uma túnica tecida com fibras da mata, segurava a pedra reluzente, que agora brilhava com a luz de todos os guardiões. Mãe, disse ele, voltando-se para Tayen, sinto a mata abençoar este dia.
Tayen sorriu, ajustando a túnica do filho. A vós, Kalyon, ela sempre falou, respondeu ela. Zanyra será uma companheira digna. Zanyra chegou ao meio-dia, acompanhada por uma comitiva do Sul. Seus cabelos longos, negros como a noite, brilhavam com reflexos azulados, e seus olhos, profundos como os rios, fixaram-se em Kalyon com ternura. Anitaí, sua mãe, caminhava com a graça das águas, enquanto Aiporé, com a pele marcada pelo sol, parecia carregar o calor das chamas em seu olhar. Bem-vindos a Santa Luzia, disse eu, com a voz cheia de respeito.
A vós, Anitaí e Aiporé, agradeço por trazerem vossa filha. Nossa vila é vossa casa. Anitaí sorriu, e sua voz era como o murmurar de um riacho. A ti, Itiberê, agradeço, disse ela. Kalyon é o guardião que a mata escolheu, e Zanyra o escolheu com o coração. Aiporé assentiu, com a voz grave. A união de nossos filhos é a união de nossas terras, disse ele. Que Yvyrá a abençoe. Kalyon e Zanyra, de mãos dadas, trocaram um olhar que dizia mais que palavras, e eu soube que a mata aprovava. Mas antes que a cerimônia começasse, um vento forte soprou, e as árvores estremeceram.
Uma figura imensa surgiu na entrada da praça, com o corpo coberto de folhas e musgo, e olhos que pareciam buracos de luz verde. Era o Pai do Mato, guardião ancestral das florestas, conhecido por sua sabedoria e por proteger as uniões que fortalecem a natureza. Quem sois vós, que celebram sob minhas árvores? perguntou ele, com voz que parecia o ranger das árvores antigas.
Kalyon, sem hesitar, ergueu a pedra reluzente e disse: Sou Kalyon, guardião de Santa Luzia, e esta é Zanyra, herdeira do Sul. Unimo-nos para proteger a mata e os rios, em nome de Yvyrá. O Pai do Mato aproximou-se, e sua presença fez a terra vibrar. Vossa união é pura, disse ele. Mas a mata exige um juramento. Prometei cuidar de minhas florestas como cuidais de vosso amor.
Zanyra, com a voz firme, falou: A vós, Pai do Mato, prometo. Sou filha das águas, mas amo a mata como amo Kalyon. Ele assentiu, e entregou-lhes uma pequena semente, que brilhava com a luz do sol. Plantai esta semente juntos, disse ele. Dela nascerá uma árvore que selará vossa união e protegerá vossas terras. Ide, e que a mata vos guarde. A cerimônia seguiu sob o olhar do Pai do Mato, com cânticos e danças que uniam as tradições de Santa Luzia e do Sul.
Kalyon e Zanyra plantaram a semente ao lado do Coração da Mata, e, ao toque de suas mãos, uma árvore jovem brotou, com folhas que brilhavam como as águas e o fogo. A vila celebrou até a noite, e eu, ao lado de Tayen, senti que a missão de Yvyrá encontrara um novo capítulo, com Kalyon e Zanyra como seus guardiões.
Capítulo 77: A Passagem de Kenai
Os anos haviam passado como o vento que acaricia a mata, e Santa Luzia florescera sob a união de Kalyon e Zanyra, cuja sabedoria do Sul e amor pela natureza fortaleceram a vila. Eu, Itiberê, agora com os cabelos grisalhos, sentia o peso das memórias de nossa jornada, enquanto Tayen, ao meu lado, ainda guardava a força de outrora, ajudando a vila com sua ternura. Kalyon, agora um homem, liderava com Zanyra, e seus filhos, herdeiros de Yvyrá, brincavam na praça, sob o Coração da Mata. Soyala, com sua voz cheia de histórias, continuava a ensinar às novas gerações.
Mas a sombra da perda pairava sobre nós. Kenai, o pajé que nos guiara com o bastão entalhado, estava enfraquecido, sua luz esmorecendo como uma fogueira no fim da noite. Ele chamara-me à sua cabana, onde o Coração da Mata parecia brilhar com mais intensidade, como se soubesse o que estava por vir. Itiberê, disse ele, com a voz fraca, mas firme, a mata me chama. Meu tempo aqui finda, mas Yvyrá precisa de ti.
Eu ajoelhei-me ao seu lado, sentindo o peso de suas palavras. A ti, Kenai, devo tudo, disse eu. Foste nosso guia, nosso pajé. Como poderei carregar teu bastão? Ele sorriu, com os olhos brilhando de sabedoria. O bastão escolhe seu guardião, respondeu ele. Assim como Nahely o entregou a mim, eu o passo a ti, Itiberê. Tu és o coração de Santa Luzia, e a mata confia em ti.
Ele tomou o bastão entalhado, que brilhava suavemente, e colocou-o em minhas mãos. Senti sua energia pulsar, como se Yvyrá me acolhesse. Cuida da vila, Itiberê, disse ele. Ensina Kalyon e seus filhos a ouvir a mata, como nós ouvimos. Prometi com lágrimas nos olhos, e ele fechou os olhos, com um sorriso sereno. Naquela noite, Kenai partiu, sua alma unindo-se à mata, e a vila inteira reuniu-se para honrá-lo.
Na clareira do Coração da Mata, sob a luz da lua, celebramos sua passagem. Kalyon, com Zanyra ao seu lado, trouxe os presentes de Yvyrá, a concha, a pena, o carvão, a escama, a pérola, o anzol, a flor, a pepita, a pedra negra, o cordão, a semente e a flauta, que brilhavam em homenagem a Kenai. Soyala cantou uma melodia antiga, e as crianças da vila, guiadas pelos filhos de Kalyon, espalharam flores luminescentes do Saci Pererê ao redor da árvore.
De repente, um vento suave soprou, e uma figura etérea surgiu entre as sombras. Era o Caruana, espírito ancestral da mata, conhecido por sua sabedoria e conexão com os ciclos da natureza. Sua forma era como a luz da aurora, e ele falou: A vós, guardiões de Yvyrá, trago a bênção da mata. Kenai foi um pajé digno, e sua luz agora vive em cada folha, cada rio. Itiberê, o bastão é teu, e com ele, a responsabilidade de guiar Santa Luzia.
Eu ergui o bastão, sentindo sua energia fluir por mim. A ti, Caruana, agradeci, e ele continuou: A mata é eterna, mas seus guardiões mudam. Kalyon, Zanyra, vossos filhos carregarão o legado. Ensinai-lhes o respeito por Yvyrá, e a vila prosperará. O Caruana tocou o Coração da Mata, e uma luz dourada envolveu a clareira, como se a mata chorasse e celebrasse ao mesmo tempo.
Tayen, segurando minha mão, murmurou: Itiberê, Kenai estaria orgulhoso. Eu assenti, com o coração apertado, mas cheio de determinação. Kalyon aproximou-se, com seus filhos, e disse: Pai, a mata nos uniu, e agora tu és nosso pajé. Prometo ensinar meus filhos como Kenai nos ensinou.
Zanyra, com os olhos brilhando, acrescentou: O Sul e Santa Luzia são um só coração, Itiberê. Juntos, protegeremos Yvyrá. Naquela noite, sob a luz da lua e a bênção do Caruana, Santa Luzia despediu-se de Kenai e abraçou um novo ciclo. Eu, agora pajé, ergui o bastão, e a vila cantou, unida como nunca, pronta para os desafios que a mata ainda traria.
Capítulo 78: O Chamado de TekoaPorã
Os dias em Santa Luzia eram de paz e trabalho, com o Coração da Mata a brilhar na praça, protegido pelos presentes de Yvyrá. Eu, Itiberê, agora pajé, segurava o bastão entalhado de Kenai com a reverência que ele merecia, guiando a vila com a sabedoria que a mata me ensinara. Tayen, com sua força serena, organizava as oferendas diárias, enquanto Kalyon e Zanyra, unidos em amor e liderança, traziam harmonia entre Santa Luzia e a terra de Zanyra, TekoaPorã, o reino do Sul governado por seus pais, Anitaí e Aiporé.
Soyala, com sua voz cheia de histórias, continuava a ensinar às crianças, incluindo os filhos de Kalyon, o legado de Ayra. ma manhã, enquanto as crianças brincavam sob as flores luminescentes do Saci Pererê, um mensageiro chegou de TekoaPorã, trazendo notícias urgentes. Era um jovem de pele morena, com adornos de penas coloridas, que se apresentou com respeito. A vós, guardiões de Santa Luzia, trago um chamado de Zanyra, disse ele. A mata em TekoaPorã está inquieta, e uma sombra ameaça nossa terra. Anitaí e Aiporé pedem vossa ajuda.
Kalyon, ao meu lado, segurou a pedra reluzente, que brilhou com mais intensidade. Pai, disse ele, TekoaPorã é minha casa tanto quanto Santa Luzia. Devemos ir. Zanyra, com os olhos cheios de determinação, acrescentou: Meus pais sempre protegeram a mata do Sul, mas algo novo os desafia. Itiberê, tua sabedoria como pajé será nossa força. Eu assenti, sentindo o bastão pulsar em minhas mãos. A vós, prometo meu apoio, disse eu. A mata une Santa Luzia e TekoaPorã, e juntos a protegeremos.
Preparámo-nos para a jornada, levando os presentes de Yvyrá, a concha, a pena, o carvão, a escama, a pérola, o anzol, a flor, a pepita, a pedra negra, o cordão, a semente e a flauta, que brilhavam com a energia da mata. Soyala juntou-se a nós, enquanto Tayen ficou para cuidar da vila com os filhos de Kalyon. A viagem a TekoaPorã foi longa, mas a mata parecia abrir caminho, como se soubesse de nossa missão.
Ao chegarmos, TekoaPorã revelou-se uma terra de beleza rara, com rios cristalinos e árvores que pareciam tocar o céu. Anitaí e Aiporé receberam-nos com honra, mas seus rostos carregavam preocupação. A vós, guardiões de Santa Luzia, saudamos, disse Anitaí, com voz grave. Um espírito sombrio, o Pé de Garrafa, ameaça nossa mata. Ele pune os que profanam a floresta, mas sua fúria tornou-se cega, e agora ataca até os inocentes.
Eu senti o bastão aquecer, e Kalyon ergueu a pedra reluzente, que brilhou em resposta. Conheço as lendas do Pé de Garrafa, disse eu. É um guardião feroz, com corpo de fogo e pés que deixam marcas de garrafas na terra. Devemos falar com ele e provar que TekoaPorã e Santa Luzia honram a mata. Zanyra, com a sabedoria de sua terra, falou: Meus pais sempre ensinaram o respeito pela natureza. Talvez o Pé de Garrafa sinta um desequilíbrio que não vemos.
Guiados por Aiporé, seguimos até uma clareira onde a terra estava marcada por pegadas estranhas, como se garrafas tivessem sido pressionadas no solo. Um calor intenso envolveu-nos, e uma figura flamejante surgiu, alta, com olhos de brasa e pés que brilhavam como vidro derretido. Quem sois vós, que ousais entrar em meu domínio? perguntou o Pé de Garrafa, com voz que crepitava como fogo.
Eu ergui o bastão, que brilhou com a luz de Yvyrá, e disse: Sou Itiberê, pajé de Santa Luzia, e comigo estão Kalyon, Zanyra e Soyala. Viemos de TekoaPorã, terra de Anitaí e Aiporé, para proteger a mata. A ti, Pé de Garrafa, pedimos paz. O espírito flamejante rosnou, mas seus olhos fixaram-se na pedra de Kalyon. A luz de Yvyrá, murmurou ele. Talvez vós faleis a verdade, mas a mata foi ferida. Mostrai-me vosso respeito, ou queimarei tudo.
Kalyon, com coragem, deu um passo à frente. A vós, ofereço esta semente do Saci Pererê, disse ele, retirando uma das sementes que brilhavam à noite. Plantei-as em Santa Luzia, e trago uma para TekoaPorã, para mostrar que honramos a mata. O Pé de Garrafa tomou a semente, e, ao tocá-la, uma flor luminosa brotou na clareira, acalmando seu fogo. Um gesto digno, disse ele. A mata aceita vossa promessa.
Ele entregou-me uma pequena brasa, que não queimava, mas brilhava com vida. Levai esta brasa, disse ele. Ela vos protegerá do fogo da mata. Ide, guardiões de Yvyrá, e mantende a harmonia entre Santa Luzia e TekoaPorã. Eu agradeci, e Soyala, observando a clareira, disse: Ayra dizia que o Pé de Garrafa é a fúria da mata, mas também sua proteção. Sua bênção une nossas terras.
Enquanto retornávamos ao coração de TekoaPorã, com a brasa brilhando em minha mão, Anitaí e Aiporé agradeceram-nos. A união de nossas terras, disse Aiporé, é a força de Yvyrá. Kalyon e Zanyra, juntos, sorriram, e eu soube que a mata, de Santa Luzia a TekoaPorã, estava segura, pelo menos por ora.
Capítulo 79: O Casamento de Soyala e Uruybi
Os ventos quentes sopravam sobre Santa Luzia, trazendo o perfume das flores selvagens que adornavam a praça para a celebração. Eu, Itiberê, agora pajé da vila, segurava o bastão entalhado de Kenai, sentindo o peso de sua sabedoria guiar-me. Kalyon, ao lado de Zanyra, preparava oferendas para os convidados das terras de Kaxinawá, enquanto Tayen supervisionava as crianças, que riamcalcavam folhas para a cerimônia.
Hoje, porém, a vila estava em festa, pois Soyala, nossa guardiã das histórias, unia-se em matrimonio a Uruybi, filho de Arapoty, o curandeiro, e de Abebé, das terras de Kaxinawá, uma região de sabedoria ancestral ao norte, conhecida por sua conexão profunda com a mata. Soyala, com os cabelos adornados com flores, caminhava pela praça, sua serenidade refletindo a luz do sol poente.
Uruybi, alto e de pele morena, trazia no olhar a calma de quem herdara a cura de seu pai, Arapoty. Ele usava um colar de sementes, presente de sua mãe, Abebé, e segurava uma flauta de bambu, que tocaria em honra à união. Kalyon, agora um homem forte, aproximou-se de mim e disse: Pai, a mata está feliz hoje. Sentes? Eu assenti, pois o Coração da Mata, no centro da praça, brilhava com uma luz suave, como se Yvyrá abençoasse o momento.
Tayen, organizando as oferendas, voltou-se para Zanyra e disse: A ti, herdeira de TekoaPorã, peço que recebas nossos convidados com o coração aberto. Zanyra, com um sorriso gentil, respondeu: A vós, prometo honrar esta união. Kaxinawá e Santa Luzia serão um só povo. As crianças, lideradas por um dos filhos de Kalyon, corriam com fitas coloridas, rindo enquanto preparavam danças para a festa.
Quando o sol tocou o horizonte, Uruybi tomou a mão de Soyala, e eu, com o bastão entalhado, ergui-me para falar. Povos de Santa Luzia e Kaxinawá, disse eu, hoje unimos Soyala, guardiã das histórias, a Uruybi, herdeiro da cura. Que Yvyrá vos abençoe com harmonia e sabedoria. Uruybi tocou a flauta, e uma melodia doce encheu o ar, enquanto Soyala cantava uma canção de Ayra, unindo as vozes das duas terras.
Mas a mata, sempre viva, reservava um desafio. Um rugido grave ecoou do rio, e a água agitou-se, como se algo imenso se movesse sob ela. Kalyon, com a pedra reluzente em mãos, disse: É o Boiúna, a serpente mítica. Ele vem testar nossa união. O Boiúna, uma cobra gigantesca de escamas negras, ergueu a cabeça das águas, seus olhos brilhando como luas cheias. Quem ousa unir terras sem minha bênção? perguntou ele, com voz que parecia o trovão.
Uruybi, sem hesitar, deu um passo à frente, com a flauta ainda em mãos. A vós, Boiúna, guardião dos rios, disse ele, ofereço minha música, que aprendi com meu pai, Arapoty. Que ela vos traga paz. Ele tocou uma melodia antiga, e o Boiúna, ouvindo, suavizou seu olhar. Soyala, ao seu lado, cantou com ele, e a harmonia de suas vozes fez a serpente baixar a cabeça. Vossa união é verdadeira, disse o Boiúna. Tomai meu presente, e que vossos povos protejam as águas.
O Boiúna deixou uma escama prateada na margem, que Kalyon recolheu com reverência. Eu agradeci, e Zanyra, ao lado de Kalyon, disse: A vós, Boiúna, prometemos cuidar dos rios. A serpente mergulhou, e a água acalmou-se, refletindo as estrelas que começavam a surgir.
A festa prosseguiu com danças e cânticos, e Soyala, agora unida a Uruybi, sorriu para mim. Itiberê, disse ela, a mata nos uniu a todos. Eu assenti, pois Santa Luzia e Kaxinawá, com a bênção do Boiúna, eram agora uma só família, pronta para proteger Yvyrá por gerações.
Capítulo 80: O Nascimento do Herdeiro de Kalyon
A lua cheia brilhava sobre Santa Luzia, refletindo-se nas águas calmas do rio que cortava a vila. Eu, Itiberê, segurava o bastão entalhado de Kenai, sentindo a energia da mata pulsar em harmonia com a noite. A vila estava em expectativa, pois Zanyra, esposa de Kalyon e herdeira de TekoaPorã, estava para dar à luz o primeiro filho do casal, um herdeiro que uniria ainda mais as terras de Santa Luzia e TekoaPorã. Tayen, com sua sabedoria de mãe, auxiliava Zanyra na casa central, enquanto Kalyon, agora um líder maduro, aguardava do lado de fora, segurando a pedra reluzente que o guiara desde a infância.
Soyala, ao lado de Uruybi, preparava ervas e cânticos para abençoar o nascimento, enquanto os filhos de Kalyon e Zanyra, os mais velhos, ajudavam as crianças da vila a colher flores para a celebração. Eu observava tudo com o coração pleno, pois a chegada de um novo herdeiro era um sinal de renovação para Yvyrá. Kalyon aproximou-se de mim e disse: Pai, a mata está silenciosa hoje. Sentes algo? Eu assenti, pois o ar parecia carregado de uma presença antiga, como se a própria natureza aguardasse o momento.
Quando a lua alcançou o zênite, um grito de alegria ecoou da casa, e Tayen saiu, com os olhos brilhando. Itiberê, disse ela, é um menino, forte e saudável. Kalyon correu para dentro, e eu o segui, vendo Zanyra, exausta, mas sorrindo, com o pequeno nos braços. O menino tinha os olhos de Kalyon e a pele morena de Zanyra, e a pedra reluzente, que Kalyon ainda segurava, brilhou intensamente ao ser colocada perto dele. Chamar-se-á Yanum, disse Zanyra, em honra à força da mata que nos uniu.
A vila reuniu-se na praça, e eu, com o bastão entalhado, ergui-me para falar: Povo de Santa Luzia e TekoaPorã, hoje celebramos o nascimento de Yanum, herdeiro de Kalyon e Zanyra. Que Yvyrá o proteja e o guie, como guiou seu pai. Mas, enquanto as palavras ecoavam, um brilho prateado desceu do céu, e uma figura etérea apareceu, envolta em luz lunar. Era a Mãe da Lua, guardiã das crianças e símbolo da fertilidade, conhecida nas lendas por abençoar os recém-nascidos.
Quem sois vós, que celebram sob meu luar? perguntou ela, com voz que parecia o canto do vento. Eu respondi: Sou Itiberê, pajé de Santa Luzia. Comigo estão Kalyon, Zanyra, Tayen, Soyala e Uruybi. Celebramos o nascimento de Yanum, herdeiro de nossas terras. A Mãe da Lua aproximou-se, e sua luz envolveu o menino. Uma criança de Yvyrá, disse ela. Ele carrega a luz da mata e a força das águas de TekoaPorã. Mas a proteção exige um voto.
Zanyra, segurando Yanum, falou: A vós, Mãe da Lua, prometo ensinar meu filho a amar a mata e as águas, como meus pais, Anitaí e Aiporé, me ensinaram. A guardiã sorriu, e um brilho lunar caiu sobre Yanum, como uma bênção. Tomai isto, disse ela, entregando a Kalyon um pequeno amuleto em forma de lua crescente. Este amuleto protegerá Yanum dos perigos da noite, disse ela. Criai-o com sabedoria, pois ele é o futuro de Yvyrá.
Eu agradeci, e Soyala, ao lado de Uruybi, cantou uma melodia antiga para selar a bênção. A vila celebrou com danças e oferendas ao Coração da Mata, que brilhou em harmonia com o amuleto de Yanum. Kalyon, segurando o filho ao lado de Zanyra, olhou para mim e disse: Pai, Yanum será um guardião, como nós fomos. Eu assenti, pois a mata, com a bênção da Mãe da Lua, parecia sussurrar que a linhagem de Yvyrá continuaria forte.
Capítulo 81: O Desafio do Chibamba
A brisa matinal trazia o perfume das flores que adornavam Santa Luzia, e o Coração da Mata, na praça, brilhava com uma luz serena, como se celebrasse a chegada de Yanum, herdeiro de Kalyon e Zanyra. Eu, Itiberê, segurava o bastão entalhado, agora como pajé da vila, observando Kalyon ensinar os mais jovens a respeitar a mata, enquanto Zanyra, com Yanum nos braços, contava histórias de TekoaPorã às crianças. Tayen, com sua sabedoria, preparava remédios com Soyala, que, ao lado de Uruybi, trazia a cura das terras de Kaxinawá para nossa gente.
Mas a paz foi interrompida por um tremor na terra, seguido de um grito gutural que ecoou pela mata. Kalyon, com a pedra reluzente em mãos, correu até mim e disse: Pai, a mata está inquieta. Algo se aproxima. Eu senti o bastão pulsar, e, ao longe, vi as árvores agitarem-se, como se fugissem de um perigo. Zanyra, segurando Yanum com firmeza, falou: Itiberê, isto me lembra as lendas de TekoaPorã. Pode ser o Chibamba, o guardião feroz que pune os que profanam a mata.
Antes que eu pudesse responder, ele surgiu. Era o Chibamba, uma criatura imensa, com corpo de homem, mas coberto de pelos negros, e uma boca cheia de dentes afiados. Seus olhos brilhavam com fúria, e ele carregava uma corrente de cipós que arrastava pelo chão. Quem ousa profanar a mata que protejo? perguntou ele, com voz que parecia o rugido de um trovão. Eu ergui o bastão e disse: Sou Itiberê, pajé de Santa Luzia. Comigo estão Kalyon, Zanyra, Soyala e Uruybi. Não profanamos a mata, mas a protegemos em nome de Yvyrá.
O Chibamba rosnou, mas seus olhos fixaram-se em Yanum, que, nos braços de Zanyra, segurava o amuleto da Mãe da Lua. Uma criança com a luz de Yvyrá, disse ele, com a voz menos feroz. Mas a mata foi ferida. Alguém cortou árvores antigas perto do rio. Se não fordes vós, encontrai o culpado, ou minha ira cairá sobre todos. Kalyon, com a pedra reluzente brilhando, falou: A vós, Chibamba, prometo descobrir quem fez isto. A mata é nossa casa, e Yanum será guardião como nós.
Eu, Kalyon e Uruybi seguimos o Chibamba até o rio, onde encontramos árvores antigas cortadas, suas raízes expostas como feridas. Soyala, examinando o local, disse: Ayra falava do Chibamba como um guardião implacável. Estes cortes não são de nossa gente. Uruybi, com sua sabedoria de curandeiro, apontou pegadas largas. São de forasteiros, disse ele. Vieram do norte, talvez em busca de madeira.
O Chibamba, ouvindo, rosnou novamente. Encontrai-os, ou a mata sofrerá, disse ele. Kalyon, com a pedra reluzente, tocou uma das árvores feridas, e a luz da pedra espalhou-se, como se a mata lhe respondesse. Pai, disse ele, a mata me mostra o caminho. Seguimos as pegadas até uma clareira, onde três homens, com machados, preparavam-se para cortar mais árvores. Eu ergui o bastão e disse: Parai, forasteiros! Esta mata é sagrada, protegida por Yvyrá e pelo Chibamba.
Os homens, assustados, largaram os machados, e Kalyon falou: A vós, ordeno que repareis o dano. Plantai novas árvores e pedi perdão à mata. O Chibamba, aparecendo atrás de nós, rosnou, e os homens, tremendo, obedeceram, cavando a terra para plantar sementes que Soyala lhes entregou. Quando terminaram, o Chibamba falou: Vossa justiça é verdadeira. Tomai isto, como sinal de minha aliança.
Ele entregou-me uma corrente de cipós, leve, mas forte. Esta corrente vos protegerá de invasores, disse ele. Guardai a mata, pois Yanum será seu futuro. Eu agradeci, e, ao voltarmos à vila, Zanyra, com Yanum, sorriu. A mata está calma novamente, disse ela. Kalyon, abraçando o filho, falou: Yanum aprenderá a proteger Yvyrá, como nós. E eu, com o bastão e a corrente, soube que a missão de nossa linhagem continuaria.
Capítulo 82: A Noite do Tutu Marambá
A noite cobria Santa Luzia com um manto de estrelas, e o Coração da Mata, na praça, emitia uma luz suave, como se velasse pelo sono da vila. Eu, Itiberê, segurava o bastão entalhado, agora pajé e guardião das tradições, observando a vila repousar após um dia de trabalho e união. Kalyon e Zanyra, com Yanum já crescido o bastante para dar seus primeiros passos, ensinavam-no a colher frutos, enquanto Tayen, com sua sabedoria, contava histórias às crianças.
Soyala e Uruybi, vindos de Kaxinawá, preparavam remédios para os mais velhos, fortalecendo os laços entre nossas terras. Mas a tranquilidade foi quebrada por um choro assustado. Yanum, que brincava perto da praça, correu até Zanyra, com os olhos cheios de lágrimas. Mãe, disse ele, com a voz trêmula, tem um monstro me olhando. Zanyra, abraçando-o, olhou ao redor, mas nada viu além das sombras da noite.
Kalyon, segurando a pedra reluzente, aproximou-se de mim e disse: Pai, Yanum não costuma temer. Talvez seja o Tutu Marambá, o espírito que assusta as crianças para protegê-las. Eu senti um arrepio, pois as lendas de Santa Luzia falavam do Tutu Marambá como um ser sombrio, que surgia nas noites escuras para assustar os pequenos, mas com o intento de mantê-los longe de perigos.
Antes que eu pudesse responder, um som grave, como um rosnado, ecoou pela vila, e as sombras pareceram ganhar vida. Quem ousa deixar uma criança tão perto da mata à noite? perguntou uma voz rouca, vinda das árvores. Eu ergui o bastão, que brilhou suavemente, e disse: Sou Itiberê, pajé de Santa Luzia. Comigo estão Kalyon, Zanyra, Yanum, Soyala e Uruybi. Não desejamos mal, mas protegemos esta vila em nome de Yvyrá. O Tutu Marambá surgiu então, uma figura alta e disforme, com olhos brilhantes e mãos que pareciam garras.
Ele fitou Yanum, que, mesmo assustado, segurava o amuleto da Mãe da Lua. Uma criança com a luz de Yvyrá, disse ele, com a voz menos feroz. Mas a mata é perigosa à noite. Por que ele está aqui? Zanyra, com Yanum nos braços, falou: A vós, Tutu Marambá, peço perdão. Yanum brincava, e não percebemos o cair da noite. Ele é nosso herdeiro, e prometo protegê-lo. O Tutu Marambá inclinou a cabeça, e seus olhos suavizaram-se.
Vosso amor é verdadeiro, disse ele. Mas a proteção exige cuidado. Ensinai-o a temer a noite, para que a mata o guarde. Kalyon, segurando a pedra reluzente, deu um passo à frente. A vós, prometo ensinar Yanum, disse ele. Mas pedimos tua bênção, para que ele cresça sem medo do que não deve temer. O Tutu Marambá assentiu, e um vento frio soprou, trazendo um som como um lamento.
Tomai isto, disse ele, entregando-me uma pequena máscara de madeira, com olhos pintados. Esta máscara afasta os perigos da noite, disse ele. Colocai-a sobre Yanum quando ele dormir, e eu não o assustarei. Eu agradeci, e Soyala, ao lado de Uruybi, disse: Ayra falava do Tutu Marambá como um guardião severo, mas justo. Sua bênção protegerá Yanum. Zanyra, colocando a máscara ao lado do filho, sorriu.
A vós, Tutu Marambá, somos gratos, disse ela. Yanum adormeceu logo após, e o espírito desapareceu nas sombras, deixando a vila em paz. Naquela noite, a vila dormiu sob a luz do Coração da Mata, e eu, com o bastão, senti que Yanum, com a proteção do Tutu Marambá, cresceria forte para ser o guardião que Yvyrá esperava.
Capítulo 83: O Fogo do Boitatá
O crepúsculo envolvia Santa Luzia com um brilho alaranjado, e o Coração da Mata, na praça, parecia pulsar com uma energia renovada. Eu, Itiberê, agora pajé da vila, segurava o bastão entalhado de Kenai, sentindo o peso de minha nova responsabilidade. Kalyon e Zanyra, com o pequeno Yanum nos braços, supervisionavam a vila, enquanto os presentes de Yvyrá, guardados em um altar na praça, brilhavam suavemente. Soyala, ao lado de Uruybi, contava histórias às crianças, unindo os saberes de Santa Luzia e Kaxinawá.
Mas a paz foi quebrada por um calor súbito, como se o ar se incendiasse. Um brilho intenso surgiu na mata, e um som grave, quase um rugido, ecoou, fazendo os pássaros voarem em pânico. Kalyon, segurando Yanum com firmeza, olhou para mim. Pai, disse ele, a mata está inquieta. Zanyra, com os olhos atentos, murmurou: Itiberê, isto me lembra as lendas de TekoaPorã. O Boitatá, a serpente de fogo, aparece quando a mata está em perigo.
Eu ergui o bastão, sentindo a pedra do Tutu Marambá aquecer em minha mão. Antes que eu pudesse falar, uma serpente de chamas surgiu entre as árvores, seus olhos brilhando como brasas. Era o Boitatá, guardião das florestas, conhecido por proteger a mata com seu fogo contra os que a profanam. Quem ousa perturbar a mata que Yvyrá protege? perguntou ele, com voz que crepitava como uma fogueira.
Eu dei um passo à frente, com o bastão em mãos, e disse: Sou Itiberê, pajé de Santa Luzia. Comigo estão Kalyon, Zanyra, Yanum, Soyala e Uruybi. Somos guardiões de Yvyrá, e esta vila honra a mata. O Boitatá serpenteou ao redor da praça, suas chamas não queimando, mas aquecendo o ar. Vós tendes os presentes de Yvyrá, disse ele. Mas sinto um desequilíbrio. Alguém profanou a mata, e meu fogo não descansará até que a verdade se revele.
Kalyon, entregando Yanum a Zanyra, aproximou-se com a pedra reluzente do filho. A vós, Boitatá, pedimos ajuda, disse ele. Yanum carrega a luz da Nascente, e não queremos que a mata sofra. O Boitatá fixou seus olhos flamejantes no pequeno Yanum, que riu, sem medo, estendendo as mãozinhas. Uma criança pura, murmurou o Boitatá. Ele será um guardião, mas a mata exige justiça.
Soyala, com a sabedoria das histórias, falou: A vós, Boitatá, digo que Ayra falava de ti como o fogo da verdade. Mostra-nos quem profana a mata, e nós o deteremos. O Boitatá assentiu, e seu corpo de chamas formou um caminho de luz, levando-nos a uma parte da mata onde árvores haviam sido cortadas sem cuidado, um ato de desrespeito. Era obra de forasteiros, que haviam ignorado as leis de Santa Luzia.
Zanyra, com a autoridade de TekoaPorã, falou: A vós, prometemos reparar este dano. A mata é sagrada, e não permitiremos que seja ferida. O Boitatá, satisfeito, entregou-me uma pequena chama que não queimava, mas brilhava como um cristal. Esta chama é minha bênção, disse ele. Usai-a para purificar a mata e ensinar a verdade às gerações futuras. Ide, guardiões de Yvyrá, e protegei o que é vivo.
Eu agradeci, e Kalyon, com Yanum nos braços, disse: Pai, a mata confia em nós. Yanum riu novamente, e a chama do Boitatá brilhou em suas mãos, como se ele já entendesse seu destino. A vila, unida com TekoaPorã, plantou novas árvores no lugar das que foram cortadas, e a chama do Boitatá guiou-nos na restauração. Santa Luzia tornou-se mais forte, e Yanum, com a luz da Nascente e a bênção do fogo, crescia como o futuro de Yvyrá.
Capítulo 85: A Bênção da Mãe do Rio
A luz do meio-dia fazia o rio brilhar como um espelho, refletindo as copas das árvores que uniam Santa Luzia e TekoaPorã. Eu, Itiberê, como pajé, segurava o bastão entalhado, com o pequeno Carranca pendurado em minha cintura, sentindo a energia dos presentes de Yvyrá pulsar no altar da praça. Kalyon e Zanyra, com Yanum correndo à frente, organizavam uma oferenda às águas, para agradecer pela união das terras.
Soyala e Uruybi, com as crianças das duas vilas, colhiam flores para a cerimônia, enquanto a vila cantava em harmonia. Porém, ao nos aproximarmos do rio, a água agitou-se, e uma brisa suave trouxe um som que parecia um canto. Yanum, com a pedra reluzente em mãos, apontou para o centro do rio e disse: Avô, uma mulher está cantando. Kalyon, segurando o filho, olhou para mim.
Pai, murmurou ele, as lendas de TekoaPorã falam da Mãe do Rio, guardiã das águas e protetora da vida que delas nasce. Eu ergui o bastão, sentindo o Carranca aquecer em minha cintura. Antes que eu pudesse falar, uma figura emergiu das águas, uma mulher etérea, com cabelos longos como algas e olhos que brilhavam como pérolas. Era a Mãe do Rio, conhecida por abençoar as águas e proteger as famílias que vivem de seus frutos.
Quem sois vós, que me chamais com flores e cantos? perguntou ela, com voz que parecia o murmurar das correntezas. Eu dei um passo à frente e disse: Sou Itiberê, pajé de Santa Luzia. Comigo estão Kalyon, Zanyra, Yanum, Soyala e Uruybi. Somos guardiões de Yvyrá, e este rio une nossas terras. Viemos trazer oferendas e pedir tua bênção. A Mãe do Rio sorriu, e as águas acalmaram-se ao seu redor. Vós tendes o olhar do Carranca, disse ela.
Mas as águas pedem mais que flores. Mostrai-me que honrais a vida que delas nasce. Zanyra, com a sabedoria de TekoaPorã, aproximou-se, segurando uma semente que trouxera de sua terra. A vós, Mãe do Rio, oferecemos esta semente, disse ela. Que ela cresça em tuas águas e traga vida às margens. A Mãe do Rio tomou a semente, e, ao tocar a água, ela brotou em uma planta aquática, cujas flores brilhavam como estrelas.
Um presente de coração puro, disse ela. Vossa união com a mata é verdadeira. Yanum, correndo até a margem, estendeu a pedra reluzente, que brilhou com a luz de Yvyrá. A água é bonita, disse ele, e a Mãe do Rio riu, com um som que encheu o rio de vida. Este menino carrega o futuro, disse ela. Ele será um guardião das águas, como vós sois da mata. Ela entregou-me uma concha pequena, que brilhava com as cores do rio.
Esta concha carrega meu canto, disse ela. Quando precisardes, ela vos trará a força das águas. Ide, guardiões de Yvyrá, e protegei o que vive. Eu agradeci, e Soyala, observando as flores aquáticas, disse: Ayra dizia que a Mãe do Rio é a alma das águas. Sua bênção nos une ainda mais a TekoaPorã.
Kalyon, com Yanum nos braços, sorriu. A mata e o rio são um só, disse ele, e Yanum riu, como se entendesse. Enquanto as vilas celebravam, com as flores brilhando nas margens, a união entre Santa Luzia e TekoaPorã tornou-se mais forte, e a missão de proteger Yvyrá, agora abençoada pelas águas, continuou a crescer com Yanum.
Capítulo 86: O Enigma do Teiniaguá
A luz da tarde envolvia Santa Luzia com um brilho quente, e o rio, agora abençoado pela Mãe do Rio, cantava uma melodia que parecia ecoar pela vila. Eu, Itiberê, como pajé, segurava o bastão entalhado, com a concha da Mãe do Rio pendurada ao meu lado, sentindo a energia dos presentes de Yvyrá pulsar no altar da praça. Kalyon e Zanyra, com Yanum correndo entre as flores, ensinavam os jovens de Santa Luzia e TekoaPorã a cuidar das plantas aquáticas que brotaram na margem.
Soyala e Uruybi, com as crianças, colhiam frutos para a vila, enquanto a harmonia entre as terras se fortalecia. Mas, enquanto Yanum brincava perto de uma árvore, um brilho estranho chamou sua atenção. Ele correu até mim, segurando a pedra reluzente, e disse: Avô, uma luz dançante! Eu segui seu olhar e vi, entre as raízes, um pequeno ser, não maior que uma criança, com pele que brilhava como ouro e olhos astutos. Era o Teiniaguá, uma criatura lendária conhecida por sua astúcia e por proteger a mata com enigmas.
Kalyon, aproximando-se, murmurou: Pai, em TekoaPorã, dizem que o Teiniaguá testa os guardiões com seus jogos. Eu ergui o bastão, sentindo a concha da Mãe do Rio aquecer, e disse: Sou Itiberê, pajé de Santa Luzia. Comigo estão Kalyon, Zanyra, Yanum, Soyala e Uruybi. Somos guardiões de Yvyrá, e esta vila honra a mata. Quem és tu, que surges entre nós? O Teiniaguá riu, com um som que parecia o tilintar de sinos, e respondeu: Sou o Teiniaguá, guardião dos segredos da mata. Vós tendes a bênção das águas, mas a floresta exige mais.
Respondei meu enigma, ou a mata vos confundirá. Zanyra, com Yanum nos braços, falou: A vós, Teiniaguá, pedimos teu desafio. Yanum carrega a luz de Yvyrá, e não tememos tua astúcia. O Teiniaguá sorriu, e sua luz brilhou mais forte. Eis meu enigma, disse ele: Sou pequeno, mas grande; guardo a mata, mas não sou árvore; brilho como ouro, mas não sou tesouro. Quem sou eu? Kalyon, pensando nas lendas de TekoaPorã, respondeu: Tu és o Teiniaguá, o espírito da mata que protege com sabedoria, pequeno em forma, mas grande em poder.
O Teiniaguá riu novamente, batendo as mãos. Boa resposta, disse ele. Mas um enigma não basta. Ele apontou para Yanum. O menino carrega a luz de Yvyrá. Que ele mostre seu coração. Yanum, sem medo, estendeu a pedra reluzente, que brilhou com a luz de todos os guardiões. Eu amo a mata, disse ele, com a voz clara, e o Teiniaguá inclinou a cabeça, impressionado. Uma criança que fala com verdade, disse ele. Ele será um grande guardião.
Soyala, com a memória das histórias, falou: A vós, Teiniaguá, agradecemos. Ayra dizia que tua astúcia ensina humildade. O Teiniaguá entregou-me uma pequena pedra dourada, que brilhava como ele. Esta pedra carrega minha luz, disse ele. Quando precisardes de sabedoria, ela vos guiará. Ide, guardiões de Yvyrá, e protegei a mata com astúcia e coração.
Eu agradeci, e Kalyon, sorrindo para Yanum, disse: Meu filho, a mata te escolheu. Yanum riu, brincando com a pedra dourada, e a vila continuou sua harmonia com TekoaPorã. A missão de proteger Yvyrá seguia viva, e Yanum, com sua luz e sabedoria, crescia como o futuro das duas terras.
Capítulo 87: O Retorno do Mapinguari
O sol nascente tingia Santa Luzia de dourado, e o Coração da Mata, na praça, parecia pulsar com uma energia serena, cercado pelos presentes de Yvyrá. Eu, Itiberê, como pajé, segurava o bastão entalhado, com a pedra dourada do Teiniaguá ao meu lado, sentindo a responsabilidade de proteger a vila e TekoaPorã. Kalyon e Zanyra, com Yanum correndo entre as flores, organizavam os jovens para cuidar das plantações, enquanto Soyala e Uruybi ensinavam as crianças a fazer cestos com fibras da mata.
Mas a paz foi abalada por um rugido grave que ecoou da mata, seguido por um tremor que fez a terra estremecer. Yanum, segurando a pedra reluzente, correu até mim e disse: Avô, um monstro vem vindo! Kalyon, com os olhos atentos, murmurou: Pai, é o Mapinguari. Já o enfrentamos antes, mas sua volta significa que a mata está inquieta. Zanyra, segurando Yanum, assentiu. Em TekoaPorã, dizem que o Mapinguari pune quem não respeita a floresta, disse ela.
Eu ergui o bastão, sentindo a pedra do Teiniaguá aquecer, e disse: Vamos ao encontro dele. A mata nos chama. Seguimos o som até uma clareira, onde o Mapinguari surgiu, imenso, com seu corpo coberto de pelos, um único olho brilhando como uma brasa e uma boca no peito que exalava um cheiro forte. Quem ousa perturbar a mata que Yvyrá protege? rugiu ele, com voz que parecia fazer as árvores tremerem.
Eu dei um passo à frente e disse: Sou Itiberê, pajé de Santa Luzia. Comigo estão Kalyon, Zanyra, Yanum, Soyala e Uruybi. Somos guardiões de Yvyrá, e esta vila honra a mata. O Mapinguari fixou seu olho em mim, e depois em Yanum, que ergueu a pedra reluzente sem medo. Vós tendes a luz de Yvyrá, disse ele. Mas a mata sofre. Forasteiros queimaram uma parte da floresta além do rio, e meu rugido é um aviso.
Kalyon, com a autoridade de líder, falou: A vós, Mapinguari, prometemos restaurar a mata. Yanum será um guardião, e não permitiremos que a floresta sofra. O Mapinguari abaixou a cabeça, e sua boca no peito fechou-se. O menino tem o coração de um guardião, disse ele. Mas a mata exige mais que promessas. Mostrai-me vossa determinação.
Zanyra, com a sabedoria de TekoaPorã, falou: A vós, oferecemos sementes de TekoaPorã e de Santa Luzia, para replantar o que foi perdido. Ela entregou um punhado de sementes, que brilharam ao tocar o chão. O Mapinguari rugiu suavemente, e as sementes começaram a brotar, formando novas árvores. Um ato digno, disse ele. Tomai isto, como sinal de minha confiança.
Ele entregou-me uma garra pequena, que parecia feita de pedra, mas pulsava com energia. Esta garra carrega minha força, disse ele. Quando a mata estiver em perigo, ela vos dará coragem. Ide, guardiões de Yvyrá, e protegei o que vive. Eu agradeci, e Soyala, observando as novas árvores, disse: Ayra dizia que o Mapinguari é a voz da mata ferida. Sua bênção nos ensina a cuidar melhor.
Kalyon, com Yanum nos braços, sorriu. A mata nos guia, disse ele, e Yanum, segurando a garra, riu, como se entendesse seu papel. A vila, unida com TekoaPorã, trabalhou para replantar a floresta, e a missão de proteger Yvyrá, agora mais forte com Yanum, continuou a crescer.
Capítulo 88: A Passagem de Itiberê
A luz do amanhecer banhava Santa Luzia com um brilho suave, e o Coração da Mata, na praça, parecia pulsar com uma serenidade que refletia os anos de paz. Eu, Itiberê, agora velho e cansado, segurava o bastão entalhado, sentindo os presentes de Yvyrá vibrarem no altar. Meus dias como pajé haviam sido longos, e a vila, unida com TekoaPorã, prosperava sob a liderança de Kalyon e Zanyra. Yanum, agora um jovem, corria pela praça com a pedra reluzente, aprendendo a ouvir a mata como eu outrora fizera.
Soyala e Uruybi, com seus filhos, traziam os saberes de Kaxinawá, fortalecendo a vila. Mas meu corpo fraquejava, e eu sabia que minha jornada na terra chegava ao fim. Naquela manhã, reuni a vila na praça, com o bastão em mãos, e falei: Meus filhos, a mata me chama para além do rio, onde os espíritos dos guardiões me esperam. Kalyon, com os olhos marejados, segurou minha mão. Pai, disse ele, tu foste nosso guia. Como seguiremos sem ti? Eu sorri, sentindo a paz em meu coração. A vós, deixo minha bênção, disse eu.
Mas a vila precisa de um novo pajé, e escolho Uruybi, pois sua sabedoria de Kaxinawá e seu amor pela mata o tornam digno. Uruybi, ao lado de Soyala, deu um passo à frente, com humildade nos olhos. A vós, Itiberê, prometo honrar teu legado, disse ele. Protegeremos Yvyrá como tu o fizeste. Eu entreguei-lhe o bastão entalhado, que brilhou ao tocar suas mãos, e senti que a mata aprovava minha escolha.
Zanyra, segurando Yanum, falou: A vós, Itiberê, agradecemos por tudo. Yanum será um guardião, como tu foste. Naquele instante, um canto melodioso ecoou, e um pássaro de penas douradas pousou no Coração da Mata. Era o Japiim, espírito da sabedoria, conhecido por abençoar as passagens importantes da mata. Ele olhou para mim e disse: Itiberê, tua jornada foi honrada. A mata te acolhe, e tua luz viverá em Yanum. Volveu-se para Uruybi.
Novo pajé, toma minha bênção, e guia esta vila com sabedoria. O Japiim entregou a Uruybi uma pena dourada, que brilhou como o sol. Esta pena carrega minha voz, disse ele. Quando precisardes de conselho, ela vos falará. Ide, guardiões de Yvyrá, e protegei a mata. Eu senti meu espírito leve, e, com um último olhar para Kalyon, Zanyra, Yanum, Soyala e Uruybi, deitei-me sob o Coração da Mata.
Minha respiração cessou, mas senti a mata me envolver, como se Anaíra e Kenai me guiassem. A vila chorou minha partida, mas a pena do Japiim brilhou nas mãos de Uruybi, e ele ergueu o bastão, com a voz firme. A vós, prometo que a mata será protegida, disse ele. Itiberê viverá em nossos corações.
Yanum, com a pedra reluzente, tocou o Coração da Mata e disse: Avô, a mata te ama. Kalyon e Zanyra, abraçando o filho, sorriram, e a vila, unida com TekoaPorã, continuou sua missão, agora sob a guia de Uruybi, com Yanum como o futuro de Yvyrá.
Epílogo: A Luz Eterna de Yvyrá
Os anos passaram como o vento que acaricia as copas da mata, e Santa Luzia, unida a TekoaPorã e às terras de Kaxinawá, tornou-se um farol de harmonia entre os povos e a natureza. A luz de Yvyrá, outrora uma missão, agora era um legado vivo, gravado no coração de cada habitante e nas histórias que ecoavam sob o céu estrelado. A jornada que começara com a vila ameaçada pelos Esquecidos transformou-se em uma epopeia que uniu gerações, guardiões e lendas, selando o equilíbrio da mata para sempre.
Itiberê, o guia que carregara o colar e liderara a vila em sua primeira grande jornada, partira em paz, como narrado em sua passagem. Sua vida foi um exemplo de coragem e sacrifício, pois enfrentou os Esquecidos, guiou Kalyon e protegeu Santa Luzia até seus últimos dias como pajé. Sua memória vive no bastão entalhado, agora nas mãos de Uruybi, e nas histórias que as crianças contam ao redor do Coração da Mata.
Tayen, a mãe forte e sábia, viveu para ver Yanum crescer, sempre ao lado de Kalyon e Zanyra. Sua determinação sustentou a família durante os perigos da mata, e sua fé na conexão de Kalyon com Yvyrá foi o alicerce da vila. Nos seus últimos anos, ela tornou-se uma anciã respeitada, ensinando às mulheres de Santa Luzia e TekoaPorã a arte de tecer e a sabedoria das ervas, deixando um legado de amor e união.
Kalyon, o menino que sentira a mata desde pequeno, cresceu para ser um líder justo, unindo Santa Luzia e TekoaPorã ao lado de Zanyra. Sua jornada, marcada por encontros com o Saci Pererê, o Boitatá, a Iara e tantos outros guardiões, ensinou-lhe o valor do respeito pela natureza. Com Zanyra, ele plantou novas árvores ao redor do Coração da Mata, e juntos criaram Yanum, o herdeiro que carregaria a luz de Yvyrá para o futuro.
Zanyra, herdeira de TekoaPorã, filha de Anitaí e Aiporé, trouxe a sabedoria do Sul para Santa Luzia. Sua força e gentileza complementaram Kalyon, e ela foi essencial na união das duas terras. Enfrentou desafios como o Pé de Garrafa e o Chibamba, mostrando que a mata a aceitara como guardiã. Como mãe de Yanum, ela ensinou-lhe as canções de TekoaPorã, garantindo que a cultura de sua terra vivesse nas novas gerações.
Yanum, o herdeiro de Kalyon e Zanyra, cresceu sob a luz da Nascente e dos presentes de Yvyrá. Desde pequeno, enfrentou o Tutu Marambá e outros espíritos, provando ser digno do legado de seus pais. Agora um jovem, Yanum tornou-se um guardião da mata, guiado pela pedra reluzente que outrora fora de Kalyon, e sua presença trouxe esperança às crianças de Santa Luzia e TekoaPorã, que viam nele um futuro de prosperidade.
Kenai, o pajé que guiara Santa Luzia após Nahely, foi um pilar de sabedoria até sua passagem. Sua jornada incluiu encontros com o Mapinguari e o Capelobo, e ele protegeu a vila com o bastão entalhado até entregá-lo a Itiberê. Sua memória é honrada na praça, onde uma árvore plantada por ele cresce ao lado do Coração da Mata, simbolizando sua eterna ligação com Yvyrá.
Soyala, a guardiã das histórias de Ayra, encontrou amor e propósito ao lado de Uruybi, de Kaxinawá. Sua jornada foi marcada por sacrifícios, como a entrega de seu caderno ao Lobisomem, mas sua voz manteve vivas as lendas da mata. Com Uruybi, ela criou um lar em Santa Luzia, onde ensina às crianças as canções de Ayra, assegurando que o passado e o futuro da vila permaneçam unidos.
Uruybi, filho de Arapoty e Abebé, das terras de Kaxinawá, tornou-se o novo pajé de Santa Luzia após a morte de Itiberê. Sua sabedoria e conexão com a mata, provadas em encontros com o Boiúna e o Japiim, fizeram dele um líder digno. Com Soyala, ele guia a vila e TekoaPorã, usando o bastão entalhado para proteger o equilíbrio de Yvyrá e ensinar Yanum os segredos da cura e da mata.
As lendas do folclore brasileiro, que cruzaram o caminho dos guardiões, tornaram-se parte da história de Santa Luzia. O Saci Pererê trouxe travessura e proteção, ensinando a vila a rir e a ouvir a mata. A Iara, com sua voz encantada, abençoou os rios e as águas que unem as terras. O Boitatá, com seu fogo, def Hannah, a figura lendária, protegeu as florestas, punindo os forasteiros e reforçando o respeito pela natureza.
O Lobisomem, o Mapinguari, o Capelobo e o Chibamba ensinaram o valor do sacrifício e da coragem, enquanto figuras como a Mãe do Ouro, a Mãe do Rio e a Mãe da Lua abençoaram a fertilidade e a proteção das crianças. O Tutu Marambá e o Bicho-Papão protegeram os pequenos, ensinando-os a temer os perigos da noite. O Carranca e o Negro d'Água guardaram os rios, enquanto o Boiúna e a Cobra Grande selaram a conexão com as águas profundas.
A Comadre Fulozinha, o Caipora e o Curupira protegeram as florestas com astúcia e força, e espíritos como o Japiim e o Caruana trouxeram sabedoria ancestral. Cada guardião, do travesso Romãozinho à feroz Porca dos Sete Leitões, do astuto Teiniaguá ao temido Pé de Garrafa, contribuiu para o equilíbrio de Yvyrá, deixando lições que ecoam nas gerações.
Hoje, Santa Luzia e TekoaPorã florescem como nunca. As sementes do Saci Pererê transformaram-se em campos de flores luminescentes, e as árvores plantadas por Kalyon e Zanyra cresceram altas, abrigando pássaros como o Uirapuru, cujo canto traz paz. Os rios, protegidos pelo Carranca e pela Mãe do Rio, correm cristalinos, unindo as terras em um fluxo de vida e prosperidade.
Yanum, agora um jovem líder, guia as crianças de ambas as vilas, ensinando-lhes a ouvir a mata e a honrar seus guardiões. Sob a luz das estrelas, as vilas celebram com danças e cânticos, e o Coração da Mata brilha, cercado pelos presentes de Yvyrá: a concha do Boto, a pena do Caipora, o carvão do Anhanguera, a escama da Cobra Grande.
A pérola do Cumacanga, o anzol do Negro d'Água, a flor da Comadre Fulozinha, a pepita da Mãe do Ouro, a pedra do Bicho-Papão, a flauta de João Galafuz e tantas outras relíquias. A mata sussurra sua aprovação, e os espíritos de Itiberê, Tayen e Kenai velam por todos, sorrindo do coração de Yvyrá.
Assim, Santa Luzia, TekoaPorã e Kaxinawá vivem em harmonia, abençoadas pela mata e seus guardiões, com um futuro alvissareiro e próspero, onde o legado de amor, respeito e união cresce como as árvores que os abrigam, para sempre.

